Matrimônio entre pessoas do mesmo sexo? Como assim?

Pe. Celso Nogueira, em entrevista a ZENIT, responde a diversas questões sobre o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo e a posição da Igreja

Por Thácio Siqueira

Brasil, 07 de Maio de 2015 (ZENIT.org)

Aliás, a questão do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo compete à Igreja? Ou, por outro lado, só lhe corresponderia se viessem pedir-lhe o reconhecimento religioso e sacramental?

Quem responde a essa questão é o Pe. Celso Nogueira, natural de Porto Alegre, RS, formado em Comunicação Social e Filosofia e também mestre em Teologia.

Então, “quer dizer que a Igreja deve calar em assuntos não especificamente ligados ao culto religioso? Como justiça social? Como aborto? Como guerra? Lamentável essa visão redutiva sobre o ser humano e a missão da Igreja”, afirmou o Pe. Celso Nogueira nessa entrevista a ZENIT.

Publicamos a seguir a entrevista na íntegra:

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ZENIT: Sobre o tema ‘matrimônio’ de pessoas do mesmo sexo, é verdade que a Igreja fica querendo “dar pitaco” em tudo? Não seria melhor ela falar e “doutrinar” só para os seus fieis e deixar o Estado legislar para a sociedade como um todo?

Pe. Celso: A Igreja não impõe nada, nem aos seus próprios fiéis, nem muito menos à sociedade. Não tem corpo de polícia para fazer isso, nem quer ter. Ela só exige o direito de se expressar, numa sociedade livre, sobre qualquer tema que quiser.

Em segundo lugar, a natureza humana é um dado objetivo, não muda de acordo com os tempos, lugares, crenças ou descrenças. O matrimônio não é uma realidade religiosa, ele tem uma profundidade antropológica que transcende qualquer credo.

A Igreja não precisa se “imiscuir” nos assuntos da vida civil, porque faz parte dela. E é dever, não só da Igreja, mas de qualquer outra instituição ou pessoa, ficar ao lado da verdade do ser humano e da justiça contra as arbitrariedades do poder político.

Gostaria de volver ao contrário a pergunta: por que o Estado quer legislar sobre um fato absolutamente privado como é o do relacionamento homoafetivo, um fato que não traz nenhuma consequência para a vida social como é a geração de filhos? Para contratos e testamentos entre pessoas privadas não existem desde sempre os instrumentos jurídicos apropriados? A troco de quê os casais gays têm que ter os mesmos incentivos fiscais que os cônjuges, se não dão a mesma contrapartida que é a geração e educação de uma prole?

E mais: qual o interesse do Estado em se apropriar do conceito de matrimônio e de família? Quem atribui um conceito pode retirá-lo a seu bel-prazer. Não se encontra aí exposta a velha raiz totalitária do Estado Moderno? Aquela que fazia o Fürher (com o perdão do argumento hitleriano) exclamar “eu é que decido quem é judeu e quem não é”?

ZENIT: Por que é tão difícil conversar sobre esses temas com pessoas que pensam diferente? É muito comum que quem se posicione de forma contrária seja visto como promotor de “discursos de ódio”. Por quê? O que fazer?

Pe. Celso: Diante da gritaria geral, da falta de diálogo respeitoso e preparado, naquilo que chamo a fascistização geral dos discursos, a estratégia cômoda é a omissão, lavar as mãos como Pilatos, dizer “este tema não me diz respeito”.

No entanto, por trás de todos esses temas há pessoas concretas, necessitadas de compreensão, não de mãos lavadas. Posturas não assumidas deixam um rastro muitas vezes tornado invisível, mas tão real e dramático, ou mais, do que opções equivocadas.

ZENIT: A questão não é o obscurecimento da verdade? Como dialogar, então? Fale-nos mais sobre essa “fascistização” geral dos discursos:

Pe. Celso: Você tocou um aspecto de fundo que é o obscurecimento da noção de verdade. Quando se perde a perspectiva de uma verdade comum que possa ser buscada e compartilhada através do diálogo, a sua única finalidade passa a ser identificar o inimigo a ser esmagado pela força. Isso é o que chamo de “fascistização do discurso”.

A “razão moderna”, ao operar uma redução no horizonte do conhecimento, abriu a porta para que a última palavra seja dada não pela razão, mas pela força. Apesar disso, continuo teimando na minha crença na capacidade do ser humano de dialogar e compartilhar conhecimento. Esse é o meu ato de resistência.

ZENIT: Hoje se fala muito de legalizar uniões do mesmo sexo, equiparando-as a matrimônio, a casamento. O que é realmente o matrimônio?

Pe. Celso: O matrimônio parte de uma realidade que é a forma como nascem e crescem os animais do gênero e espécie “homo sapiens”. Eles são fruto de uma gestação curta, porque do contrário não passariam pelo canal de uma bacia construída para a posição ereta. Essa gestação curta faz com que o filhote humano nasça com um nível de autonomia muitíssimo inferior ao dos demais filhotes de mamíferos ao nascerem (de fato só alcançará o mesmo nível depois de um ano após o nascimento), exigindo, portanto, cuidados intensivos que não podem ser gerenciados pela fêmea sem a ajuda de outros indivíduos. O filhote só chegará ao estágio físico adulto depois de 18 longos anos.

Uma outra peculiaridade é que, ao contrário dos demais animais que nascem com a forma e o fundo do instinto, e com uma ligação estreita entre ambas, o bicho-homem nasce com o fundo, mas a forma lhe é dada pela cultura; essa é a razão das diferenças que encontramos na maneira de executar funções básicas como o comer, o comunicar-se, etc.

É em torno desse ser desprotegido, indeterminado e absolutamente necessitado da convivência da sua espécie para sua sobrevivência e humanização, que se forma e encontra seu sentido a família.

O ser humano, usando a razão, é capaz de perceber o vínculo do novo ser com os que lhe deram origem, e portanto, também a responsabilização que se deriva disso, ou seja, o direito de receber dos próprios genitores a necessária ajuda para a sobrevivência, crescimento e humanização. Para garantir essa responsabilização, os futuros genitores assumem um compromisso diante da comunidade. Garantirão a fidelidade de um ao outro, para que sempre seja identificável a origem e portanto a responsabilização de ambos sobre os filhos que virão. Garantirão também a estabilidade, para que esse vínculo não se desfaça de forma arbitrária, causando sérios danos e prejuízos a todos os envolvidos e também, em última instância à comunidade. Esse vínculo específico e bem delimitado é o que se chama “matrimônio”.

Então, quando falamos do matrimônio, estamos falando de uma estrutura que dá origem a todo o universo do “humano” e que por sua vez se deriva da estrutura específica do ser humano. Toda e qualquer outra forma de vínculo e relacionamento entre seres humanos não é “matrimônio”; não se trata de mera questão semântica, porque há uma realidade objetivamente distinta por detrás da palavra.

ZENIT: Então, o que são as uniões homossexuais aprovadas pelas leis de um país?

Pe. Celso: A equiparação jurídica, por parte do Estado, das uniões civis ao matrimônio, extrapola completamente as competências do Estado, uma vez que tratar da mesma forma duas realidades diferentes é declarar que são iguais. Fazendo isso, o Estado opera uma redefinição arbitrária e abusiva do matrimônio, instituição que lhe é anterior e superior.

ZENIT: Mas, dizem alguns, que o homossexualismo foi verificado em todas as culturas, e em todas as épocas (foi verificado até em animais) e afirmam que qualquer discriminação feita a um portador da inclinação homossexual, portanto, seria igual à discriminação feita ao portador de qualquer outra tendência biologicamente determinada (como a calvície, por exemplo).

Pe. Celso: Nunca foi provada a condição biológica da inclinação homossexual. A alegada homossexualidade dos animais é mito, baseado em comportamentos aparentes que têm outras explicações já evidenciadas pela ciência. Mesmo que alguém, depois dos milhões gastos em vão na iniciativa, evidenciasse alguma origem biológica, não passaria de uma anomalia como várias que existem, pois a natureza não faz coisas inúteis e estamos falando aqui do âmbito da reprodução e seu instinto correlato.

O fato de que a homossexualidade é tão antiga quanto a humanidade, mas em nenhuma cultura foi jamais equiparada ao matrimônio, só confirma o meu argumento. As várias deturpações do matrimônio que apontou não tocam a raiz da instituição matrimonial, que existe independentemente de qualquer religião ou ideologia, pois é um vínculo antropológico insubstituível. Portanto, não compete à Igreja nem definir nem redefinir isso, e ela não o faz. A iniciativa dessa redefinição vem do Estado, e ainda por cima de maneira arbitrária e antidemocrática.

ZENIT: Mas, então, por que não conceder aos casais homossexuais a educação de uma prole, permitindo-lhes a adoção, já que tantos casais heterossexuais abandonam os seus filhos à sorte?

Pe. Celso: No caso de crianças que não possam ter atendido o seu direito a ser criadas por seu pai e sua mãe, deve-se buscar o ambiente mais próximo disso, ou seja, um casal formado por uma mulher e um homem. A psicologia já demostrou em abundância o dano que advém a um ser humano quando essa necessidade não é atendida da forma adequada. E esse talvez seja o aspecto mais aterrador de todos esses atentados contra o matrimônio: o uso das crianças como cobaias em experimentos sociológicos, ideológicos e de engenharia social.

E discuto muito a afirmação de que as crianças saem ilesas de divórcios e outras experimentações no campo da família.

A situação da adoção é complexa; para um certo perfil de criança há muito mais casais querendo adotar que as crianças disponíveis. Mas essa é uma discussão que não vem ao caso. Estamos falando aqui do que é conforme aos direitos e à dignidade do ser humano. Um escravo bem tratado vive melhor que um empregado mal-pago. Isso não faz da escravidão uma situação mais conforme à dignidade humana do que o trabalho assalariado. Uma criança que o Estado entrega a um casal homoafetivo pode até viver melhor do que com um casal de homem e mulher; mas o fato é que o Estado a desrespeitou, lhe negou o direito de ter um pai e uma mãe.

ZENIT: Mas, a sociedade já não aceitou o divórcio, como também não está aceitando o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo?

Pe. Celso: Os argumentos baseados nos costumes dos povos não definem grande coisa. O fato de uma sociedade se tornar tolerante com algo não diz nada da moralidade intrínseca das ações. Por exemplo, a escravidão. Governos fascistas de direita e esquerda foram eleitos pela maioria. Já foram tolerados e aprovados a luta de gladiadores, os sacrifícios humanos, um montão de barbaridades.

Quando o pensamento ecológico chegou no mundo, grande parte do dano à natureza já tinha sido feito. Temo que vai acontecer o mesmo quando a “ecologia humana” começar a ser discutida e levada a sério.

ZENIT: E, como Igreja, qual é a melhor forma de dialogar com a sociedade sobre esse tema?

Pe. Celso: A questão é que não se pode usar num debate com a sociedade civil, num país laico, argumentos de fé; é preciso expressar razões acessíveis a quem não crê também. Do contrário poderiam nos dizer, como já fazem, “voltem para a sacristia e guardem a fé para vocês”. Como se a Igreja estivesse querendo que o Estado obrigue a todos a ir à missa aos domingos…

E repito, a família baseada no matrimônio entre homem e mulher não é uma mera convenção, ela deriva da própria natureza humana como já expliquei acima. Esses termos “matrimônio tradicional”, “família convencional”, já operam uma adjetivação que tem como pressuposto a inclusão de realidades que nada têm a ver com matrimônio e família, que são essencialmente distintas.

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