Por que a Rede Globo está tão desesperada?

“Conscientizar”? “Problematizar”? As ofensivas da Rede Globo contra a família andam tão exageradas que, na verdade, parecem sinalizar mais desespero do que qualquer outra coisa.

Equipe Christo Nihil Praeponere

24 de Outubro de 2017

Conscientização social? Preocupação com as minorias? As ofensivas da Rede Globo contra a família andam tão exageradas que, na verdade, parecem sinalizar mais desespero do que qualquer outra coisa.

O que antes era feito de modo sutil, ora através do romance de uma novela, ora por meio de uma reportagem aqui e outra acolá, agora converteu-se em uma campanha sistemática: seja no “Encontro”, no “Fantástico” ou nas novelas que são exibidas em horário “nobre” — ainda que a programação, em si mesma, não tenha nada de nobre —, a emissora de televisão mais assistida do Brasil parece ter se convertido em um grande folhetim ideológico, disposto mais a formar as mentes que informá-las, mais a hipnotizar as massas que entretê-las.

O tema do momento, como todos sabem, é a ideologia de gênero. (Os defensores da coisa, evidentemente, evitam o termo “ideologia”. Eles falam de “gênero” com ares de elite “científica”, como se essa fosse a mais nova descoberta do mundo civilizado. Deste mundo, é claro, pessoas “incultas” e “atrasadas”, como os cristãos ou como a simples dona Regina, estão totalmente de fora.)

Nunca o abismo entre o que pensam artistas e jornalistas e o que aspira a população brasileira ficou tão evidente.
Fala-se abertamente, por exemplo, de “crianças transgêneras”. Querem porque querem nos convencer que uma criança de quatro, cinco anos de idade, que mal está entrando em idade escolar; que ainda não tem responsabilidades, conhecimento e maturidade para escolher nada… Querem nos convencer que essa criança pode muito bem desenvolver ou assumir uma “identidade” diferente de seu sexo biológico — e que isso é perfeitamente normal. Pouco importa que, em países como a Inglaterra, essa ideia já esteja causando em crianças e adolescentes uma confusão dos diabos. O que importa é passar adiante a ideia — a realidade que faça o favor de se adequar!

As novelas globais, por sua vez, retratam os transgêneros já adultos da forma mais romantizada possível. Os conflitos internos mal resolvidos, as situações a que estão sujeitas essas pessoas, mesmo depois de conseguirem a tão sonhada “mudança de sexo”, tudo é resumido à resistência que elas enfrentam por parte de sociedade. A infelicidade das pessoas transtornadas com o próprio sexo não se deve à condição confusa em que elas mesmas se encontram. Não, a culpa de todo o seu sofrimento é do preconceito da sociedade, que se recusa a chancelar a sua “identidade”, as suas escolhas e os seus hábitos.

Aqui, mais uma vez, a realidade dos fatos conta muito pouco. Ninguém fala, por exemplo, das inúmeras pessoas que se arrependem da cirurgia de transgenitalização e desejam voltar ao sexo com que nasceram, tampouco das altíssimas taxas de suicídio presentes nessa parcela da população. Nas próprias palavras de uma pessoa que sofreu na pele o mesmo drama, mas, felizmente, escolheu outro caminho para remediar a sua situação, “a comunidade médica”, assim como os meios de comunicação de maneira geral,

não tem interesse nenhum seja em reconhecer os perigos e o impacto a longo prazo das terapias de transição, seja em iniciar estudos que possam encontrar uma cura ou uma solução subjacente ao problema. Quem sugerir que esse é um problema médico por ser resolvido acaba sendo acusado de incitar o genocídio.
A propaganda, no entanto, está tão artificial, tão “forçada”, que muitas pessoas estão finalmente acordando. As redes sociais, sobre as quais a grande mídia ainda não exerce o seu controle, ficaram lotadas de manifestações de repúdio nos últimos dias. São as tímidas vozes do bom senso que finalmente vêm à tona, perturbando as “classes falantes” e mostrando-lhes como a realidade destoa da ilusão liberal que existe em suas cabeças. Nunca o abismo entre o que pensam artistas e jornalistas e o que aspira a população brasileira ficou tão evidente. Só para citar alguns exemplos recentes:

A população brasileira é, em sua esmagadora maioria, contrária ao aborto. Os atores globais, porém, não se intimidam e gravam vídeos defendendo abertamente a legalização da prática. O “Fantástico” faz o mesmo.
A população brasileira é, em sua maioria, assumidamente cristã. Os artistas globais, no entanto, não têm nada a ver com isso. Se exposições de arte achincalham símbolos religiosos e fazem troça da fé católica, eles militam pela “liberdade de expressão”.
A população brasileira já demonstrou, enfim, que não quer a ideologia de gênero nem nas escolas, quanto menos em suas casas. A Rede Globo, porém, dá de ombros e procura enfiar essa ideologia “goela abaixo” das famílias, custe o que custar.

As diferenças são tão discrepantes que restou à Rede Globo tão somente “apelar”. Por isso os transgêneros em horário nobre, por isso as cenas de sexo cada vez mais escrachadas, mais despudoradas, mais explícitas; por isso os debates com “um lado só”: tudo para criar a falsa impressão de “unanimidade”, para tentar fazer a dona Maria e o seu João acreditarem que o mundo inteiro “saiu do armário”, enquanto eles, pobrezinhos, ainda acreditam no mito burguês da família, de Deus e da propriedade.

Por essa razão, como o lado de lá está obstinado, não nos basta simplesmente protestar. O que as pessoas poderiam esperar, no fim das contas, da emissora que ajudou a legalizar a desgraça do divórcio no Brasil?

Mais do que soltar notas de repúdio na Internet, portanto, já está passando da hora de desligarmos nossos televisores e retirá-los do lugar de destaque que eles ocupam em nossas salas de estar. É preciso restaurar nos lares o lugar que era ocupado pelos santos, pelos oratórios, pelo Rosário em família, pelas conversas sadias, pela convivência entre pais e filhos.

Lembremo-nos do que disse certa vez um Papa aos brasileiros: “É preciso dizer não àqueles meios de comunicação social que ridicularizam a santidade do matrimônio e a virgindade antes do casamento”. É a única maneira de respondermos ao desespero dos que sabem ser essa a última hora de que dispõem para fazer afundar de vez a família brasileira.

“Confusão de gênero” cresce entre crianças e adolescentes na Inglaterra

Elas estão aprendendo a “questionar” o seu sexo biológico desde cedo, mas nem sempre sobra algo para colocar no lugar.

LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere

31 de Março de 2016

O número de crianças diagnosticadas com “disforia de gênero” pelo serviço de saúde da Inglaterra ( National Health Service) aumentou em 1000% ao longo dos últimos cinco anos, de acordo com o jornal The Sun, de Londres. Na clínica de Tavistock and Portman, ao norte da capital, onde todos os pacientes transgêneros com menos de 18 anos são tratados, “suas famílias estão sendo aconselhadas e, em alguns casos, os pacientes recebem tratamentos de bloqueio hormonal” como preparação para uma possível “mudança de sexo” após os 18.

Como sintoma da crise, o diário britânico menciona um episódio recente, acontecido em fevereiro, quando “um menino de cinco anos retornou para a escola, em Nottingham, como menina”.

De acordo com o psiquiatra canadense Dr. Joseph Berger, que falou com o LifeSiteNews.com, a solução que está sendo dada para esses casos é inadequada. “Elas deveriam estar fazendo psicoterapia. Essas crianças estão infelizes por uma variedade de razões. Elas deveriam ter tratada a sua infelicidade. Cortar pênis e seios não é tratamento para a infelicidade.”

Ainda de acordo com The Sun, o número de jovens diagnosticados com disforia de gênero subiu de 97, em 2010, para 1013, em 2015, com um custo de mais de 2 milhões e 500 mil libras esterlinas para os contribuintes. Apesar do aumento, Bernard Reed, integrante de uma associação de pesquisas de gênero, afirma que o serviço de saúde britânico “não está realmente preparado e treinado para atender essa crescente demanda por assistência médica”. Um médico admite que “o aumento deste ano é extraordinário” e que “agora tem se tornado muito difícil prever se os casos continuarão a subir”.

Outra notícia, desta vez do jornal The Telegraph, reporta um aumento de 400% nos casos entre crianças com menos de 11 anos: o número pulou de 19, em 2010, para 77, em 2015. A reportagem também traz à luz uma pesquisa feita com 32 jovens que receberam bloqueio hormonal do serviço de saúde, dos quais apenas 8 seguiram para a cirurgia de transgenitalização.

“Quando crianças expressam confusão desse tipo, nós precisamos afirmar a sua identidade dada por Deus e ajudá-las a entender o sexo com que nasceram”, diz Andrea Williams, líder do grupo Christian Concern. “Muitas crianças estão simplesmente seguindo o exemplo de outras, sem entender verdadeiramente as implicações disso. Se não fizermos nada para conter essa tendência, poderemos ver muitas crianças tomando decisões das quais elas irão se arrepender no futuro.”

O Dr. Joseph Berger explica que pessoas que acreditam mesmo que são do sexo oposto ao seu sexo biológico estão “totalmente loucas” e “precisam ser tratadas com medicamentos antipsicóticos”. Todavia, a maioria dos pacientes com disforia de gênero são simplesmente pessoas insatisfeitas, que pensam que mudar o seu gênero as fará mais felizes.

O psiquiatra conta que tratou recentemente de uma jovem “muito atraente”, que queria mudar o seu gênero porque, no final das contas, ela pensava que “homens tinham um nível social mais elevado”.

Por outro lado, homens podem querer tornar-se mulheres, diz o médico, “porque vêem as mulheres levando vidas mais passivas, ou porque elas usam roupas mais coloridas, ou porque elas chamam mais a atenção”. De qualquer modo, maior parte dos jovens com disforia de gênero, se não são encorajados, simplesmente perde o desconforto com a sua identidade em questão de poucos anos.

Embora a cirurgia de transgenitalização esteja “na moda” — e ganhe também as telas do cinema —, o ceticismo em relação a esse lobby vem crescendo. Grupos de pais preocupados e até mesmo de feministas estão resistindo à pressão do establishment: aqueles porque querem defender as crianças, estes porque enxergam no discurso transgênero uma forma distorcida de machismo. “Para ser uma mulher, você deve ser do sexo feminino e, para tanto, tem que ter cromossomos XX e a anatomia específica do sexo feminino”, diz um blog feminista crítico do que chama de “doutrina transgender”. Mulheres trans não passam de homens “que se identificam como o sexo oposto”.

As evidências respaldam os céticos. Em 2014, o Dr. Paul McHugh, médico psiquiatra aposentado da Universidade Johns Hopkins, explicou ao Wall Street Journal que o seu hospital parou com a terapia de mudança de sexo nos anos 70 porque ela não funcionava. Acompanhamentos a longo prazo com pacientes transgêneros mostravam que “as suas adaptações psicossociais subsequentes” não eram em nada melhores que as de quem não tinha feito a cirurgia.

McHugh cita os resultados chocantes de um estudo sueco de 2011, que, depois de acompanhar por 30 anos pacientes que optaram pela mudança de sexo, revelou haver entre eles uma taxa de suicídio quase 20 vezes maior que a do resto da população normal (ou cisgênero, como preferem os politicamente corretos).

A Suécia não oferece nenhuma explicação para a pesquisa, mas o Dr. McHugh não tem dúvidas de uma “mudança de sexo é biologicamente impossível”. “Pessoas que se submetem à cirurgia de transgenitalização não mudam de homem para mulher e vice-versa”, ele explica, só “se tornam homens feminizados ou mulheres masculinizadas”. Por fim, o médico norte-americano faz um alerta sério: “Dizer que isso é um problema de direitos civis e encorajar a intervenção médica é, na verdade, promover e colaborar com uma desordem mental.”

Ex-transexual desmascara “A Garota Dinamarquesa”

Estreando nos cinemas, “A Garota Dinamarquesa” retrata bem os problemas emocionais dos transgêneros, mas omite as consequências da cirurgia de transgenitalização e a necessidade de tratar os transtornos psicológicos que essas pessoas enfrentam.

Walt Heyer,  The Public DiscourseTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere

17 de Fevereiro de 2016

Por alguns momentos, era como se eu fosse obrigado a assistir a um daqueles intermináveis comerciais de TV. Quando as previsíveis frases de efeito chegariam ao fim?

A Garota Dinamarquesa está repleto de sentimentos fofinhos e emocionais, projetados para convencer heterossexuais “homofóbicos” ou “transfóbicos” de que as dolorosas reviravoltas da vida de um transgênero são realmente uma busca saudável e corajosa para abraçar o seu verdadeiro eu. O filme vem à tona com pontos de discussão familiares à agenda LGBT. Em um momento chave, o personagem principal exclama ser, finalmente, quem ele é.

Baseado no romance de mesmo nome de David Ebershoff e dirigido por Tom Hooper, A Garota Dinamarquesa conta a história de Lilli Elbe, um dos primeiros pacientes conhecidos a passar pela cirurgia de mudança de sexo. O filme estrela Eddie Redmayne no papel de Einar Wegener/Lilli Elbe, o transgênero que emerge mulher. Alicia Vikander interpreta Gerda, sua devotada esposa, que ama profundamente o seu marido e permanece fiel a ele durante todos os anos de sua decadência.

Ainda que bem encenado, o filme não passa de uma ferramenta de propaganda LGBT. É verdade que pessoas com transtorno de gênero estão sofrendo. O que o filme não conta é que, muito frequentemente, pacientes transgêneros continuam a sofrer mesmo depois da cirurgia, porque os seus problemas psicológicos permanecem sem tratamento. Sei disso por experiência própria, porque eu já fui uma mulher transgênero e me arrependo de minha cirurgia de mudança de sexo.

A trama. O filme é gravado na Dinamarca, nos anos 1920. Em suas primeiras aparições, Einar, o marido, é um artista estável, com algum sucesso no mundo da arte, e não exibe nenhum aparente distúrbio de gênero ou tendência homossexual. Gerda, também artista, é uma mulher atraente que ama o seu marido, mas que se esforça por ganhar reconhecimento em sua profissão. Eles parecem ser um casal normal de apaixonados.

As coisas começam a ficar estranhas quando Gerda precisa de uma modelo para terminar uma pintura. Ela pede a Einar que a ajude posando como mulher. Obviamente, é a primeira vez que Einar faz uma coisa do tipo, e ele precisa da ajuda da esposa para vestir as macias meias de náilon. Einar deixa os seus pés caírem nas pequenas e rendadas sandálias, e assume uma pose feminina para a pintura. Ele é um assistente relutante, mas amavelmente cede aos desejos de Gerda. Eles fazem isso como uma brincadeira, mas tudo acaba indo longe demais.

Gerda é levada pelo entusiasmo de Einar posando como uma mulher. Ela encoraja a recém-criada mulher, que eles jocosamente chamam de Lilli, a ser amável e bonita. Ao desenhá-lo, Gerda descobre sua paixão inexplorada pela arte e ele, por sua vez, fica fascinado por seus retratos como mulher. O gatilho foi puxado. Einar se apaixona pelo modo como ele aparece vestido de mulher. Isso não é transsexualismo, mas um fetiche sexual, impulsionado pela força e pelo entusiasmo que o incentivo de Gerda insuspeitamente despertou. Einar começa a se travestir às escondidas e a explorar o fascínio sexual de estar vestido com tecidos macios e sedosos.

O termo médico para o comportamento exibido por Einar – um homem que se excita sexualmente com a ideia de ser ou tornar-se uma mulher – é autoginecofilia. Einar substitui o amor esponsal por sua mulher pelo amor de uma imagem no espelho e na tela de uma pintura.

A encenação atinge um novo nível quando, por alguma razão, Gerda incentiva o seu marido a acompanhá-la em uma exposição de arte caracterizado de mulher. Gerda põe uma peruca em Einar, aplica-lhe uma maquiagem e escolhe um conjunto. Ela ensina a ele como andar e se portar enquanto mulher. Na noite da festa, Gerda se diverte usando o disfarce de Einar para enganar os seus conhecidos, até que ela o flagra em um beijo romântico com um homossexual. Lilli está à solta e dando pulos de contentamento, até que Gerda finalmente percebe o que provocou.

Gerda não sabe o que fazer com Lilli, cujas aparições indesejadas e repentinas passam a ser cada vez mais frequentes. Ela se aproxima de um amigo de infância de Einar, de quem ele tinha perdido contato. Quando ela diz a Einar que seu amigo quer vê-lo, Einar conta-lhe sobre um antigo e esquecido incidente de sua juventude, quando seu amigo lhe deu um beijo por ele ser “muito bonito”.

O filme segue a sua marcha inexorável, mostrando a gradual emergência de Lilli, o completo desaparecimento de Einar, bem como a angústia, a solidão e a frustração de sua esposa abandonada, que chora a perda do homem que era o seu marido. Ver a angústia de Gerda fez-me lembrar outro filme, Uma Mente Brilhante (“A Beautiful Mind”), no qual a esposa assiste, impotente, ao declínio de seu marido rumo ao colapso mental.

Walt Heyer.
Paralelos com a minha vida. As experiências de minha primeira infância evocaram em mim os mesmos desejos que despertaram dentro de Einar. No caso dele, a experiência que influenciou sua vida futura ocorreu com um colega de infância. No meu caso, eu tive uma avó que secretamente começou a me travestir quando eu tinha quatro anos de idade. Ela costurava vestidos especiais para que eu usasse e me dizia quão bonito eu ficava modelando para ela.

Como Einar, casei-me com uma mulher e vivi como homem. Como Einar, eu me travestia em segredo e eventualmente comecei a sair em público vestido de mulher. Também eu me senti energizado pela experiência. Depois de algum tempo, meu desejo de ser uma mulher cresceu forte e eu senti que não tinha escolha, a não ser tornar-me “Laura” (o nome da minha persona feminina), a fim de “ser quem eu realmente era”. Como Lilli, eu quis matar minha identidade masculina para que Laura pudesse viver. Foi por isso que me submeti a uma transformação cirúrgica completa.

Lilli não teve a oportunidade de viver como uma mulher transgênero para comprovar se viver assim satisfaria as suas expectativas e serviria como caminho para ela encontrar a paz. Na vida real, Lilli Elbe morreu de uma infecção alguns dias depois da sua segunda operação de transgenitalização. Hoje, as técnicas cirúrgicas para transgêneros não oferecem grande risco de vida. Depois de me submeter a essa mesma cirurgia, eu vivi como transgênero por oito anos, vivendo e trabalhando por um tempo em San Francisco. Imediatamente após a cirurgia, eu exultava por ter finalmente feito a transição – mas o entusiasmo logo passou.

No decorrer do tempo, descobri que a vida como mulher não poderia me trazer a paz. Para minha surpresa, eu ainda alternava entre ser Walt e ser Laura, geralmente várias vezes em um dia. O que quer que me tivesse feito querer mudar minha identidade de gênero, não tinha sido solucionado com a cirurgia de mudança de sexo nem com a minha vida de mulher. Continuei, então, à procura de uma resposta.

Um retrato fiel, até certo ponto. O filme retratou fielmente os problemas psicológicos e emocionais pelos quais passam os transgêneros, ilustrando o quanto é difícil diagnosticá-los e tratá-los. Fez um bom trabalho ao mostrar como a inquietação com a própria identidade sexual pode começar de um incidente aparentemente pequeno na infância e, então, evoluir na vida adulta para um severo mal-estar, que eventualmente conduz à cirurgia de transgenitalização.

O público acompanha Einar, desde o seu relutante crossdressing assistindo sua mulher com a pintura, passando por sua excitação com a ideia de tornar-se mulher, até a rejeição de sua identidade masculina e de seu casamento com Gerda. Lilli deseja fervorosamente a cirurgia, mesmo que isso arrisque a sua vida. Imediatamente após a operação, Lilli aparece verdadeiramente feliz com sua decisão.

Muitos transgêneros concordariam com isso pela sua experiência. Eu vi a mesma progressão acontecer na minha vida. Contudo, dado que Lilli morreu após a segunda cirurgia, o filme só pôde retratar os seus anseios pré-transição e o efeito imediato da cirurgia, não a realidade pós-transição a longo prazo. No meu caso, a transição prometia uma vida tranquila, mas depois que a euforia inicial se foi, só me restou o desespero. Até que eu determinasse parar de viver como Laura e fizesse o que fosse preciso para ser Walt, eu não tive paz. Estar aberto a reconstituir a minha masculinidade foi o que mudou tudo.

Quando recebi um diagnóstico adequado de minha dupla personalidade, o primeiro tratamento efetivo podia começar. Levou muitos anos, mas persisti com o tratamento para o transtorno dissociativo e meus desejos de ser mulher se dissolveram até desaparecerem completamente. Aprendi que a cirurgia de mudança de sexo não era necessária. Mas já era tarde. Meu corpo tinha sido irreversivelmente mutilado.

Eddie Redmayne interpreta “A Garota Dinamarquesa”.
Desordens geram desordens. Geralmente, o diagnóstico de pacientes que se identificam como transgêneros é de “disforia de gênero”. De acordo com o DSM-5 (a última edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), a doença é caracterizada por uma acentuada incongruência entre o gênero com que a pessoa se expressa e o seu sexo biológico, com a duração de pelo menos seis meses. Ainda que não se fale muito sobre isso, estudos mostram que a maioria dos pacientes transgêneros sofre, ao mesmo tempo, com outros transtornos de comorbidade.

São bem evidentes no filme os outros transtornos de Einar. No começo, vemos os primeiros sintomas de autoginecofilia: Einar se converte em objeto da própria afeição na identidade de Lilli. Depois de ser alimentada e incentivada por um tempo, a desordem evolui para uma obsessão narcísica de autogratificação à custa do relacionamento com a sua esposa.

Das pinturas de Gerda, o desejo que Einar tem de tornar-se uma mulher se transforma em obsessão. Suas novas e poderosas emoções mudam a visão que ele possui de si mesmo como homem. Eventualmente, Lilli se dissocia de Einar, e duas personae passam a existir juntas em uma só. O nome disso é transtorno dissociativo (ou dupla personalidade). Sem perceber, Lilli assume totalmente o controle da situação e transforma Einar na mulher das pinturas de Gerda.

Lilli diz que Einar está morto, que se foi. Essa declaração demonstra mais uma desordem do que propriamente a realidade, porque é Einar quem continua ali falando. Eu fiz declarações semelhantes sobre Walt. Disse que queria a morte dele e um velório adequado para ele, a fim de que Laura pudesse viver livre. Essa é uma mente perturbada falando. Como depois se constatou, eu também sofria de comorbidade.

Os produtores de A Garota Dinamarquesa estão claramente tentando vender a popular ideia de que, preso no corpo de Einar, o que viveu não foi senão uma mulher. Não se deixe enganar pela propaganda. Olhe um pouco mais de perto, e você verá uma série de desordens mentais mal entendidas e não diagnosticadas que levaram Einar a se tornar Lilli, uma mulher transgênero. Pessoas com transtorno de identidade de gênero não nasceram assim (não são “born this way”), elas se formam a partir das experiências à sua volta, que moldam as suas emoções e os seus desejos.

Prover real assistência psiquiátrica. Quando os créditos começaram a subir, virei-me à mulher de meia idade sentada ao meu lado e perguntei-lhe o que ela tinha achado do filme. “Parecia uma propaganda!”, ela respondeu. “Vivo em uma vizinhança com pessoas que precisam de assistência psiquiátrica e que perambulam pelas ruas, e ninguém aparece para ajudá-las.”

Em certo sentido, a mesma descrição se aplica aos transgêneros: eles precisam de uma verdadeira assistência psiquiátrica, mas geralmente não têm ninguém que os ajude. Mais de 60% dos pacientes com disforia de gênero sofrem com outros transtornos: desordens psicológicas ou psiquiátricas, como dupla personalidade; fetiches sexuais, como autoginecofilia; e transtornos de humor, como depressão. Em quase todos os casos, esses transtornos poderiam ser resolvidos sem nenhuma intervenção cirúrgica, se os pacientes recebessem tratamento adequado, incluindo psicoterapia e medicação.

Uma pesquisa de 2011 descobriu que 41% dos transgêneros reportam terem tentado suicídio ao menos uma vez na vida. Tristeza e suicídios foram notados pela primeira vez em 1979, pelo Dr. Charles Ihlenfeld, endocrinologista da clínica de Harry Benjamin, mundialmente conhecido por seu trabalho com transexualidade. Depois de seis anos ministrando terapias hormonais para 500 pacientes transgêneros, Dr. Ihlenfeld disse que 80% das pessoas que queriam cirurgia de mudança de sexo não deveriam tê-la. A razão? As elevadas taxas de suicídio na população de transgêneros que foi operada. Mais surpreendente ainda, Dr. Ihlenfeld afirmou que a cirurgia de transgenitalização nunca foi intentada como uma solução a longo prazo, mas apenas como um adiamento temporário.

Ainda que suas intenções possam ser boas, muitos ativistas LGBT terminam afastando os transgêneros da verdadeira ajuda de que eles precisam. Como os seus transtornos mentais não são tratados adequadamente, a tendência é que os índices de suicídio na população de transexuais continuem altos.

Em uma cena de A Garota Dinamarquesa, um especialista diagnostica Einar com esquizofrenia paranoide. Antes que o médico voltasse com uma equipe para interná-lo, Einar foge, como é compreensível, com medo do tratamento bárbaro que o esperava. No futuro, a atual prática de recomendar a transgenitalização para quem quer que esteja insatisfeito com o seu sexo biológico será vista como um método igualmente bárbaro. E eu espero ansiosamente por esse dia.

Os transgêneros precisam mesmo “mudar” de sexo?

Se o transgenerismo requer tratamento médico, como argumentam os próprios advogados da “mudança” de sexo, não estamos falando, então, de uma doença? Como uma condição assim pode formar a base da identidade de alguém?

Chad Felix Greene,  LifeSiteNews.comTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere

8 de Outubro de 2017

Em uma discussão recente no Twitter, o militar norte-americano Bradley Manning — militar norte-americano que ficou famoso por “mudar” de sexo e trocar o seu nome para “Chelsea” — argumentou que o “tratamento” dos transgêneros é necessário para a saúde individual deles, “porque”, declarou Chelsea, “não oferecer atenção médica para pessoas trans é fatal”.

O argumento de Bradley não é isolado. Quando Joshua Alcorn — “Leelah”, como queria ser chamado — cometeu suicídio em 2014, com apenas 17 anos, os ativistas LGBT imediatamente culparam os pais dele e a sociedade em geral por causarem a tragédia. Zack Ford, do site Think Progress, escreveu:

A morte de Leelah Alcorn era uma tragédia evitável. Tratava-se de uma garota de 17 anos com total acesso a todas as informações disponíveis no século XXI sobre identidade de gênero, incluindo muitos meios seguros e efetivos de transição. Mas, como ela mesma escreveu antes de se suicidar atropelada por um trator nesta semana, não havia nenhuma esperança ligada a essas possibilidades — nenhuma confiança de que ela conseguiria, na verdade, ficar melhor. Ela havia desistido de implorar por ajuda.
Apesar de os pais apoiarem a identidade de gênero do jovem rapaz, eles, no entanto, pediram-lhe para que esperasse até os 18 anos para começar a transição. Eles não concordavam em pagar por isso mais cedo. Daí Alcorn se matou.

O argumento pode ser resumido da seguinte maneira: sem tratamento médico (cirurgias caras e terapias hormonais para a vida inteira), aceitação social, uso correto do prenome e acesso livre aos banheiros, as pessoas trans nunca estariam confortáveis em seus corpos ou na sociedade. Por conseguinte, elas estariam em sério risco de suicídio e, portanto, constituiria uma injustiça não tornar esses tratamentos acessíveis; o crime de matar pessoas trans poderia inclusive ser imputado àqueles que não tomam esses passos.

Esse argumento, usado por Bradley, Zack e tantos outros, pretende barrar qualquer crítica — ou mesmo questionamento — sobre a ideologia de gênero, mas, no fim das contas, ele acaba levantando mais perguntas do que respostas.

A mídia de esquerda está espantosamente equivocada quanto ao que a identidade de gênero realmente significa. Identidade de gênero pode ser ou um “conhecimento mais íntimo”, ou uma matéria de desequilíbrio hormonal, resultado de um cérebro masculino em um corpo feminino; pode ser um cérebro transexual ou talvez uma característica hereditária e muitas outras possibilidades, dependendo da pessoa a quem você pergunta. De acordo com alguns, gênero é um estado inato e permanente; para outros, uma consciência fluida que deve mudar com o passar dos dias. Como pode ser que uma condição assim tão difícil de definir com precisão possa ser universalmente declarada como letal sem tratamento médico?

Doenças que exigem tratamento não constituem a identidade de ninguém.
Ademais, se o transgenerismo requer tratamento médico, como pode formar a base da identidade de alguém? Evidentemente, pessoas trans e suas aliadas têm insistido com grande indignação que sua condição não é doentia, mas é difícil enxergar como essa conclusão pode ser evitada, quando se insiste tanto que elas devem receber tratamento ou isso será fatal para elas.

Doenças que exigem tratamento não constituem a identidade de ninguém. Ser soropositivo, por exemplo, é uma condição que requer tratamento médico. Eu não me identifico como soropositivo como se isso fizesse de mim uma pessoa inteiramente nova. Trata-se de uma condição que eu preciso tratar para viver e ser saudável. Pois bem, o que se passa com os transgêneros não é a mesma coisa?

O objetivo de maior parte das pessoas transgêneras é viver como o sexo oposto. Se isso não fosse verdade, não haveria qualquer preocupação quanto ao “acesso à saúde” ou a cuidados médicos. Se alguém pudesse simplesmente se satisfazer com qualquer identidade de gênero que fosse sentida como a mais apropriada em dado momento, uma intervenção médica seria meramente cosmética. Portanto, se concordarmos que as pessoas que se identificam como transgêneras desejam pertencer ao sexo oposto para atingir o máximo de suas capacidades — argumentando que, internamente, elas já pertencem ao sexo oposto —, temos de aceitar, então, que o estado ideal para todos os indivíduos é o que eles chamam de “cisgênero”, isto é, quando gênero e sexo se encontram naturalmente alinhados.

Em minha experiência, essa afirmação é vista como odiosa e intolerante. Sugerir que as pessoas que se identificam como transgêneras desejam ser “como quaisquer outras”, “normais” ou — ouso dizer — “saudáveis”, através do alinhamento de seus gêneros e sexos, significa sugerir que uma identidade transgênero seria, em si mesma, um estado de erro. Mas, de novo, é isso o que parece ser pressuposto pelo argumento de que uma intervenção médica é assim tão vital ao ponto de, sem ela, uma pessoa vir a cometer suicídio.

Para atingir a saúde e a estabilidade mentais, portanto, uma pessoa trans deve ter seu gênero e seu sexo tão proximamente alinhados quanto possível. Por que, então, realizar uma mudança física de sexo a fim de alinhá-lo ao gênero com o qual a pessoa se vê? Por que não deveria ser o gênero aquilo que muda?

Por que a única opção aceitável seria forçar, através de deformações físicas dramáticas, o corpo a adaptar-se à mente e não o contrário?
Parece ser muito mais razoável — e medicamente ético — alcançar esta homeostase, este equilíbrio, pela mudança do gênero, para adequar a pessoa ao que já está estabelecido por seu sexo. Uma mulher que toma testosterona, por exemplo, deve continuar tomando esse hormônio; do contrário, suas desejadas características sexuais masculinas secundárias irão desaparecer (apesar de que, se ela removeu seus ovários, seu corpo não será capaz de produzir estrogênio e trazer de volta suas características sexuais femininas). Como muitos homens trans preferem manter seus órgãos reprodutivos para engravidarem, esse risco é ainda maior. A agressiva e persistente tentativa do corpo de retornar a seu estado anterior, apesar das intervenções médicas para superá-lo, indica que aquele primeiro estado é “natural”. O corpo está sendo medicamente forçado a se adaptar a condições que não lhe convém experimentar.

Se o estado ideal é o de homeostase, em que o gênero e o sexo são os mesmos, então por que as pessoas trans deveriam passar suas vidas inteiras forçando seus corpos a se adaptarem a condições que elas não são capazes de manter por si mesmas? Parece ser muito mais razoável reconhecer que o sexo físico com que se nasceu é o padrão ao qual a percepção interna de uma pessoa deveria ser alinhada. Logicamente, um transgênero que sofre devido ao desalinhamento de seu gênero e de seu sexo físico não seria igualmente feliz alinhando seu gênero a seu sexo, se o resultado final fosse o seu gênero e o seu sexo serem os mesmos? Por que a única opção aceitável seria forçar, através de deformações físicas dramáticas, o corpo a adaptar-se à mente e não o contrário?

As pessoas transgêneras se encontram extremamente inseguras. E precisam de ajuda.
Alguns advogados da causa trans presumidamente responderiam que o sexo é que deve mudar em vez do gênero porque o sexo “pode” mudar, ao passo que tentativas de mudar o gênero costumam terminar de maneira trágica. Mas essa resposta é desnecessariamente pessimista.

Eu, pessoalmente, tive disforia de gênero e passei pela transição no início de meus 20 anos. Tenho consciência do esforço emocional que fazem as pessoas nessas circunstâncias e sou solidário ao sentimento de frustração e de desespero que muitas delas experimentam. Mas sou consciente também da poderosa percepção que eu tive de poder controlar, sozinho, o modo como eu enxergava o mundo. Mesmo se preferisse ser feminino, eu entendo que meu corpo é masculino, e, portanto, o plano de ação mais efetivo e saudável é alinhar minha percepção de gênero àquele estado que é imutável. Tenho sido em grande parte bem sucedido nisso. Hoje, eu me sinto completamente integrado e não apenas confortável com meu corpo masculino, como também vejo dentro de mim uma alegria na busca de um progresso físico na masculinidade.

A comunidade LGBT procura sufocar as vozes de pessoas que, como eu, têm escolhido o alinhamento natural ou se arrependido de fazer a transição para o outro sexo.
Uma verdade inconveniente é que muitas pesquisas, incluindo um estudo sueco de 2011, indicam que a taxa de suicídio entre transgêneros permanece alta mesmo após a cirurgia de mudança de sexo (o estudo relata que pessoas que fizeram a cirurgia têm 19 vezes mais chances de morrer por suicídio do que a população geral). Por sua vez, o National Center for Transgender Equality (“Centro Nacional para Igualdade de Gênero”), dos Estados Unidos, informou que, em 2015, 40% das pessoas que se identificavam como transgêneras haviam tentado se suicidar. A comunidade LGBT luta ativamente contra esses estudos e procura sufocar as vozes de pessoas que, como eu, têm escolhido o alinhamento natural ou se arrependido de fazer a transição para o outro sexo. Atualmente, a comunidade médica não tem interesse nenhum seja em reconhecer os perigos e o impacto a longo prazo das terapias de transição, seja em iniciar estudos que possam encontrar uma cura ou uma solução subjacente ao problema. Quem sugerir que esse é um problema médico por ser resolvido acaba sendo acusado de incitar o genocídio.

Mas problemas médicos precisam realmente ser tratados. Se a disforia de gênero é, de fato, naturalmente fatal sem um tratamento, a única solução médica é achar uma cura que exponha o corpo à menor de todas as chances de risco. Obviamente, o certo seria corrigir o problema biológico e/ou enfrentar o problema psicológico por trás da própria disforia.

O movimento LGBT construiu uma civilização ao redor do conceito de ser “quem você é”, apesar de todos os esforços de julgamento e perseguição. Indivíduos transgêneros frequentemente me dizem que agora encontraram o seu “verdadeiro gênero”. Advogados da causa, como Zack Ford e outros, rotineiramente reclamam que o extremismo social impede o indivíduo trans de viver uma vida completamente feliz. Mas no centro dessa tempestade obstinada de indignação está, ao contrário, a realidade silenciosa de que essas pessoas se encontram extremamente inseguras.

Não podemos esquecer a real tragédia de tudo isso. Pessoas sofrendo de verdadeira angústia mental estão sendo induzidas a achar que, com cirurgia adequada, com camuflagem, com aceitação social, com proteção legal, com campanhas de educação e por aí vai, elas finalmente se sentirão como pessoas completas. Pior ainda, são levadas a acreditar que a única razão pela qual elas continuam a sofrer se deve à intolerância e ao ódio daqueles à sua volta. O método atual para enfrentar este problema só está tornando as coisas piores. Um bom tratamento, ao contrário, precisa enfrentar o coração do problema.

Uma resposta católica às indignidades do homem moderno

Em uma sociedade atingida pela desumanização cada vez maior da pessoa, nada como recordar a vida e o magistério do Papa São João Paulo II.

Brian Kranick,  Crisis MagazineTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere

19 de Janeiro de 2017

Muitos podem ficar perplexos, mas é fato histórico que Adolf Hitler, um dos mais prolíficos genocidas em massa que o mundo já conheceu, foi também um vegetariano a quem causava horror a crueldade com os animais. Esse mesmíssimo e peculiar enigma foi revisitado quando a organização PETA (sigla em inglês para “Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais”) lançou a peça publicitária “Holocausto no seu prato” (Holocaust on Your Plate), em 2003, comparando animais confinados para consumo a prisioneiros judeus em campos de concentração nazistas. Como notou Richard Weikart, ironicamente ambos os grupos, os nazistas e o PETA, caíram na falácia do antropomorfismo, obscurecendo a distinção que existe entre humanos e animais. Esses são exemplos extremos, mas que lançam luz sobre uma profunda confusão filosófica da era moderna a respeito da dignidade da vida humana. Subjacente a essa desvalorização do homem está uma negação implícita da personalidade.

“Perdendo o sentido de Deus”, dizia São João Paulo II, “tende-se a perder também o sentido do homem, da sua dignidade e da sua vida.”
Essa visão misantrópica infelizmente está em ascensão na cultura ocidental. Para se ter uma ideia do problema, basta olhar para a grande onda de indignação e repúdio às mortes do leão Cecil e do gorila Harambe. O outro lado da supervalorização da vida animal pode ser, muitas vezes, o desprezo pela vida humana; o escândalo por causa de Cecil e Harabe contrasta fortemente com a complacência de nossa cultura em relação ao aborto, à eutanásia, à eugenia, ao suicídio e ao suicídio assistido. Essa “cultura de morte” é a dimensão negativa do esforço moderno por remodelar o ser humano simplesmente como um animal ordinário, não mais dotado de uma dignidade ontológica ou de um propósito teleológico dados por Deus. A vida humana se torna dispensável, em comparação com o reconhecido bem maior da sociedade ou do Estado, ou com o capricho do indivíduo. O valor da pessoa humana hoje se tornou obscuro.

Como chegamos a esse ponto?

A mistura da dignidade do homem e do animal não é senão sintoma de uma outra confusão, mais geral e sutil. O crescente desapreço pelo fato de o homem ser especial atravessa os séculos, tendo como incremento subversões filosóficas às bases do verdadeiro conhecimento.

O núcleo dessa crise está na epistemologia. A amplitude e a profundidade do conhecimento humano foram sacrificadas nos altares do ceticismo e do materialismo. Esse erro epistemológico moderno gira em torno da negação de nossa verdadeira natureza humana como seres compostos, de corpo e alma. Como consequência dessa separação, os primeiros passos em falso foram dados na filosofia.

Alguns traçam os erros do secularismo moderno até Guilherme de Ockham, no século XIV, para quem essências universais, como a humanidade, não eram reais, mas apenas extrapolações nominais em nossas mentes. A teoria de Ockham era de que não existiam formas universais, apenas formas individuais. Isso minou parte de nossa habilidade de explicar a realidade objetiva. Se não há nenhuma forma humana universal, ou natureza humana, então estamos privados de satisfazer os fins de nossa natureza e o nosso propósito teleológico. Uma vez que essas coisas se foram, não é difícil imaginar uma confusão de personalidade e uma perda de ética.

Na era do Iluminismo, empiristas como Locke e Hume propuseram que apenas o fenômeno de uma coisa podia ser conhecida, não a coisa em si. Assim como Ockham, eles rejeitaram o conhecimento abstrato dos universais em favor simplesmente da experiência sensível. Em outras palavras, eles trocaram nosso conhecimento intelectual e espiritual por um semelhante ao dos animais. Kant, de modo similar, só admitia que conhecêssemos “as coisas tal como se conheciam”, tal como interpretadas pela mente, mas não “as coisas em si mesmas”. Esse “geocentrismo epistemológico”, como o chamava o padre Stanley Jaki, impede-nos de conhecer a Deus, a alma e a natureza completa da realidade.

Mas talvez o golpe mais devastador ao entendimento de nossa natureza composta venha do materialismo biológico, na forma do darwinismo do século XIX. A teoria de Darwin tornou o materialismo biológico estrito e o cientificismo os únicos conhecimentos predominantemente “aceitáveis”. Não mais era necessária uma criação especial do homem por Deus, ou uma alma intelectual e imaterial. O homem seria apenas um primata evoluído, criado através de forças cegas, erros genéticos e graças à sobrevivência dos mais fortes. A separação de corpo e alma, iniciada em filosofias dos séculos anteriores, estava agora completa. Como notou Chesterton, “o que a evolução nega em especial não é a existência de Deus, mas a existência do homem”. O homem não era mais um ente composto espiritual, mas apenas uma criatura física.

O mundo que o materialismo forjou

Esse reducionismo materialista teve grandes repercussões na visão de mundo moderna e na desumanização do homem. Quando os materialistas finalmente tomaram o poder, os regimes comunistas, de Stálin, Mao e Pol Pot, mataram cerca de 100 milhões de pessoas. Também o darwinismo social se infiltrou no pensamento do Ocidente, espalhando a ideia de que havia pessoas “aptas” e “inaptas”, bem como raças “superiores” e “inferiores”. Isso se tornou notável na Alemanha nazista, onde noções racistas eram supostamente “provadas” e “justificadas” pela ciência. Hitler abraçou completamente essa ideia da ética evolucionista em sua marcha rumo à guerra e ao genocídio.

A evidência do século passado mostra como a ética evolucionista é, na verdade, ética nenhuma. Ela mina nossa segurança em relação à moralidade, tornando-a subjetiva e, no espírito dos nossos tempos, relativista. O reducionismo material alterou a visão das pessoas sobre a santidade da vida humana, desvalorizando o que significa ser humano. A alma se tornou meramente um epifenômeno da matéria. Nesse sentido, o Cristianismo está em desacordo com o materialismo darwinista estrito, tal como oposto à teoria geral da evolução, com a qual, na verdade, não existe conflito algum. Esse materialismo dogmático nega a priori até mesmo a possibilidade de causalidade final no homem. Ela reprime falsamente a razoabilidade da fé em Deus, de nossos princípios morais e o conhecimento de nós mesmos como seres espirituais.

O Cristianismo foi construído sobre a revelação, é claro, mas também sobre a razão.
Infelizmente, esse reducionismo epistemológico não tem só persistido, mas também aumentado, até o presente. Ainda que haja algum progresso contra a cultura da morte, ainda permanece uma espécie de amnésia, persistindo em nossa psiquê cultural, acerca da dignidade humana. Não surpreendentemente, também tem acontecido um simultâneo afastamento da fé, como evidenciam os números recorde de não-religiosos e ateus em entrevistas recentes (i.e., o “crescimento dos Nenhum”, que assinalam “nenhuma” preferência religiosa).

Uma resposta católica

Como nós, católicos, devemos reagir a tudo isso? Comecemos reafirmando que existem muitas razões boas, intelectuais e multifaces para crer. O Cristianismo e a fé em Deus são perfeitamente razoáveis, não obstante os protestos dos materialistas científicos modernos e dos ateístas. Ciência e teologia, fé e razão não são opostas uma à outra, mas são “como duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade” [1]. De fato, nunca antes se teve disponíveis tantos registros científicos avançados que apontam para um Criador. Que melhor comprovação poderia haver, por exemplo, do argumento cosmológico de Santo Tomás para Deus como o “primeiro motor”, que o Big Bang e a sua última evidência: radiação cósmica de fundo em micro-ondas?

O Cristianismo foi construído sobre a revelação, é claro, mas também sobre a razão. Jesus mandou-nos amar a Deus com todo o nosso entendimento (cf. Mt 22, 37). A tradição intelectual do Ocidente e a sua ciência empírica são, no fim das contas, frutos de nossa civilização cristã. A disputa com o secularismo moderno só surge com a negação materialista de Deus e da alma humana, por serem uma negação de nosso próprio ser. O ateísmo sofre de um defeito epistemológico, que é o de negar a personalidade. Como afirma o Papa Leão XIII em sua encíclica Rerum Novarum, de 1891, “o que em nós se avantaja, o que nos faz homens, nos distingue essencialmente do animal, é a razão ou a inteligência” [2]. Devemos abraçar a ideia da personalidade e a filosofia do personalismo como parte de nossa ética e visão de mundo, e como um bastião contra as filosofias desumanizadoras de nosso tempo.

Um dos grandes proponentes da moderna filosofia do personalismo foi o Papa São João Paulo II. Quando era apenas Karol Wojtyla, ele testemunhou em primeira mão essas forças desumanizadoras do materialismo na Polônia, inicialmente sob a ocupação nazista e, depois, debaixo do comunismo soviético. Ele esteve no epicentro de ambas as sanhas totalitárias e observou o que chamava de “pulverização” da pessoa humana. Foi em reação a essas ideologias destruidoras e às tiranias políticas subsequentes que ele ajudou a liderar um novo movimento filosófico e uma teologia moral focada na dignidade absoluta da pessoa humana.

O ser humano deve sempre ser tratado como um fim em si mesmo, sem jamais ser submetido a outrem como meio para atingir um fim.
Wojtyla defendia um “personalismo tomista”, uma filosofia focada na dignidade transcendente de cada pessoa. O seu personalismo em particular era fundado na metafísica clássica de Santo Tomás de Aquino, bem como na visão cosmológica do ser humano como um ente apartado do resto da criação por seu intelecto e por sua natureza racional.

Wojtyla procurou ir além disso, no entanto, a fim de explicar a “totalidade da pessoa”. Ele reconhecia a grande importância, para a experiência humana, da perspectiva interior. Esta ele a chamava de “subjetividade”, experimentada na consciência de cada pessoa, da qual não poderia sequer haver duas iguais. Cada pessoa, então, é absolutamente irrepetível, insubstituível, incomunicável e irredutível.

O Papa João Paulo falava disso em termos práticos, em seu “princípio personalista”, dizendo que o ser humano deve sempre ser tratado como um fim em si mesmo, sem jamais ser submetido a outrem como meio para atingir um fim. Internalizar esse princípio produziria inevitavelmente aplicações práticas concretas, tais como ir contra a escravidão e o tráfico humano. Mas também poderia ajudar a colocar a sociedade atual contra a normalização dessa cultura de morte, com seus impulsos de descaracterizar a pessoa humana, como se viu recentemente na Holanda — onde praticaram a eutanásia com um homem por ele ser alcóolatra — e no discurso de Peter Singer — o ético utilitarista de Princeton que pediu pelo fim da vida de crianças deficientes.

Cada ser humano é único

Como católicos, nós devemos sempre defender a dignidade inviolável da pessoa humana, princípio que remonta ao próprio Gênesis, é claro, onde lemos que “Deus criou o homem à sua imagem” (Gn 1, 27). O Magistério faz eco disso ao chamar cada um de nós de “sinal do Deus vivo, ícone de Jesus Cristo” [3]. Temos uma transcendência interior em comum com nosso Criador. Nós, humanos, somos relacionais e seres sociais, feitos em conformidade com Deus, uma trindade de Pessoas intrarrelacionais.

Por ser imagem de Deus, há algo de especial no homem, que o separa de todo o resto da criação. Nós, sozinhos, podemos dizer “Eu”. Nenhum outro animal, por mais belo que pareça, pode pronunciar algo assim. Eles estão limitados pelo instinto. Mesmo nos mais elevados primatas, como no caso fascinante de Koko, a gorila que se comunica por sinais, a disparidade continua sendo imensa. Nas palavras do Papa João Paulo, é preciso dar “um salto ontológico” para atravessar o “grande abismo” que separa pessoa e não-pessoa. Só o ser humano é capaz de pensamento racional e abstrato, livre arbítrio, autoconsciência, ação moral, linguagem complexa, progresso tecnológica, propósito elevado, altruísmo, amor, criatividade, oração e adoração. O ser humano é diferente em grau e em substância, porque Deus formou cada pessoa da infinitude de Si mesmo [4].

No Novo Testamento, Jesus dá-nos o coração do personalismo com seu mandamento de “amar ao próximo como a si mesmo”. Porque, como ele revela noutro lugar, “o que tiverdes feito ao menor destes meus irmãos, foi a Mim que o fizestes”. Ao abraçar essa noção personalista em nossas vidas, nós nos livramos de nosso próprio egoísmo e frieza em relação ao próximo. Tornamo-nos capazes de ver a face de Deus no outro. Essa é a nossa vacina contra a desumanização da pessoa, juntamente com a adoção de uma cultura da vida que resista a séculos de ceticismo e materialismo e nos atraia a um conhecimento mais completo. O materialismo é apenas parcialmente verdadeiro. Ele nega a natureza mais elevada de nosso ser espiritual. Ao reconhecer a imagem de Deus em cada um, vemos o valor universal ontológico de cada pessoa, mesmo dos aparentemente menores e mais fracos de nós. Assim podemos, à luz do sacrifício de Cristo, contemplar “quão precioso aos olhos de Deus e quão inestimável é o valor da sua vida” com “a dignidade quase divina de cada homem” [5] — e agir de acordo com essa verdade.

Referências

Papa São João Paulo II, Carta Encíclica Fides et Ratio (14 de setembro de 1998), n. 1.
Papa Leão XIII, Carta Encíclica Rerum Novarum (15 de maio de 1891), n. 5.
Papa São João Paulo II, Carta Encíclica Evangelium Vitae (25 de março de 1995), n. 84.
Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2258.
Papa São João Paulo II, Carta Encíclica Evangelium Vitae (25 de março de 1995), n. 25.

A guerra contra a utopia de gênero

As vitórias parciais contra a ideologia de gênero não nos devem enganar. A guerra contra o suposto “segredo de uma organização social perfeita” só está começando.

Equipe Christo Nihil Praeponere

19 de Dezembro de 2013

Quando Adão e Eva, seduzidos pela serpente, desobedeceram a Deus e comeram do fruto da ciência do bem e do mal, entrou no mundo o pecado e, com ele, a destruição e a morte. Desde então, “por causa do homem, a criação está submetida à servidão da corrupção”[1] e, trazendo em si mesmo a queda dos primeiros pais – o pecado original –, o ser humano vê a sua própria existência converter-se em um drama terrível, no qual tudo está pendente, inclusive a sua salvação.

Traçado o quadro clínico da humanidade, não é difícil perceber como a condição militante e combativa é inerente à realidade deste mundo. Quem quer que se arrogue o poder de eliminar desta vida as suas pelejas e tempestades, as suas dificuldades e desafios, prometendo “uma vida isenta de sofrimentos e de trabalhos, toda de repouso e de perpétuos gozos, certamente engana o povo e lhe prepara laços, onde se ocultam, para o futuro, calamidades mais terríveis que as do presente”[2].

Grande parte da inércia presente na sociedade moderna é fruto de uma ideologia que, desprezando a doutrina do pecado original, instala o homem numa espécie de “jardim do Éden”, no qual todas as pessoas seriam boas, não haveria nenhuma maldade, a natureza viveria em grande harmonia e ninguém seria chamado a nenhum desafio. Trata-se, sem sombra de dúvidas, de uma utopia: este mundo doce e cor de rosa não existe e jamais existirá nesta terra. Quem se dispõe a propagar esta visão frágil de mundo pretende nada menos que “castrar” o homem e tirar a transcendência de seu horizonte de vida.

Por isso, o Catecismo da Igreja Católica adverte: “Ignorar que o homem tem uma natureza lesada, inclinada ao mal, dá lugar a graves erros no campo da educação, da política, da ação social e dos costumes”[3]. Ignorar que o homem é capaz do mal engendra a ilusão de que poderemos ser felizes neste mundo, de que pode existir um modelo perfeito de sociedade aqui.

Os perigos desta construção ideológica – que é o que está por trás de toda a “agenda de gênero” – já se fizeram sentir no século XX, nos países dominados pelo regime socialista. A ousadia dos novos revolucionários, no entanto, vai mais além: diferentemente dos primeiros socialistas, eles não querem simplesmente abolir as “diferenças de classes”, mas as próprias distinções sexuais. Por isso, a criação de uma nova categoria: o gênero. Para libertar as pessoas da família – a qual os ideólogos consideram a forma mais primitiva de opressão –, é preciso acabar com os conceitos de “homem” e de “mulher”, que eles alegam ser socialmente construídos.

Mas, ainda que alguém lhes mostre, por “a” mais “b”, que estas diferenças sexuais são estabelecidas por Deus ou pela natureza, nem assim eles desanimam. Em A Dialética do Sexo, Sulamita Firestone diz que “a natureza não é necessariamente um valor humano. A humanidade já começou a superar a natureza; não podemos mais justificar a manutenção de um sistema discriminatório de classes sexuais fundamentadas em sua origem natural”[4].

Para os ideólogos de gênero, não importa a família, não importa a natureza, não importam as diferenças evidentes entre “homem” e “mulher”, não importa a verdade. Em nome de um futuro utópico que eles mesmos construíram, vale tudo, inclusive transformar a própria realidade para que caiba em suas mentes celeradas. Como adverte o bem-aventurado João Paulo II, “quando os homens julgam possuir o segredo de uma organização social perfeita que torne o mal impossível, consideram também poder usar todos os meios, inclusive a violência e a mentira, para a realizar”[5].

Tomando consciência de todo este plano idealizado para destruir a célula mater da sociedade, as pessoas de boa vontade devem se unir, em ordem de batalha, para defender o bem comum e, se possível, desmascarar as mentiras concebidas nestes projetos sórdidos e diabólicos. Esta semana, no Congresso Nacional, graças à ação conjunta de católicos, protestantes, espíritas e muitos outros grupos, alguns destes projetos foram temporariamente freados. No entanto, a mão por detrás de toda esta maquinação é forte e a guerra não acabou.

A vitória, no fim das contas, está do nosso lado. Se a veremos ou não, esta é outra história. Cabe a nós, como diz Santo Inácio de Loyola, “orar como se tudo dependesse de Deus e trabalhar como se tudo dependesse de nós”. Afinal, desta importante luta dependem o futuro da família, do Brasil e da própria humanidade.

Referências

Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 400
Papa Leão XIII, Encíclica Rerum Novarum, n. 9
Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 407
Retirado de “A Agenda de Gênero – Redefinindo a Igualdade”, condensado da obra de Dale O’Leary.
Papa João Paulo II, Encíclica Centesimus Annum, n. 25