A incorruptibilidades do corpo de Santa Bernadette

A incorruptibilidade do corpo de Santa Bernadette Soubirous é um dos casos mais assombrosos e estudados pela medicina

A incorruptibilidade do corpo de Santa Bernadette Soubirous é um dos casos mais assombrosos e estudados pela medicina.

A grande festa de Lourdes se comemora em 11 de fevereiro e a festa de Santa Bernadette em 18 de fevereiro na França, e em 16 de abril alhures.

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Desde 3 de agosto de 1925, o corpo intacto da Santa se encontra exposto numa urna de cristal na capela do convento de Saint-Gildard, na cidade de Nevers, França. A cidade fica na Borgonha, a 260 km ao sul-suleste de Paris.

Clique para ver onde fica Nevers

Assim informa uma inscrição ao lado do corpo da Santa na mesma capela:

“O corpo de Santa Bernadette repousa nesta capela desde 3 de agosto de 1925.

Ele está intacto e “como se estivesse petrificado” segundo foi reconhecido pelos médicos juramentados e pelas autoridades civis e religiosas por ocasião das exumações de 1909, 1919 e 1925.

O rosto e as mãos, que escureceram no contato com o ar, foram recobertos com ligeiras camadas de cera, moldadas segundo os modelos recolhidos diretamente.

A posição inclinada para o lado esquerdo foi assumida pelo corpo no túmulo.”

Vejamos, entretanto, o que disseram os médicos responsáveis pelas perícias praticadas sobre o corpo da Santa nas diversas ocasiões mencionadas na inscrição.

Primeira exumação

Em 22 de setembro de 1909, trinta anos após o velório, seu cadáver foi exumado pela primeira vez e o corpo encontrado intacto.

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Os Drs. Ch. David e A. Jordan, que conduziram esta primeira exumação, escreveram no relatório da perícia:

“O caixão foi aberto na presença do Bispo e do Prefeito de Nevers, seus principais representantes e diversos religiosos.

“Não notamos nenhum odor.

“O corpo estava vestido com o Hábito da Ordem a que pertencia Bernadette. O Hábito estava úmido.

“Apenas a face, mãos e antebraços estavam descobertos.

“A cabeça estava inclinada para a esquerda. A face estava lânguida e branca. A pele estava apegada aos músculos e estes apegados aos ossos.

Santa Bernadette, foto (detalhe acima e conjunto) tirada entre após a última exumação (18 de abril 1925) e antes de ser guardada na urna atual (18 de julho 1925)
Santa Bernadette, foto (detalhe acima e conjunto) 
tirada entre após a última exumação (18 de abril 1925) 
e antes de ser guardada na urna atual (18 de julho 1925).
A santa faleceu em 16 de abril de 1879, 46 anos antes da foto.

“As cavidades oculares estavam cobertas pelas pálpebras […]

“Nariz dilatado e enrugado. Boca levemente aberta e se podia ver os dentes no lugar.

“As mãos, cruzadas sobre o peito, estavam perfeitamente preservadas, bem como suas unhas. As mãos seguravam um terço. Podia se observar as veias no antebraço.

“Os pés estavam enrugados e as unhas intactas.

“Quando o Hábito foi removido e o véu levantado de sua cabeça, pode se observar um corpo rígido, pele esticada […]

“Seu cabelo estava com um corte curto e bem preso à cabeça. As orelhas estavam em perfeito estado de conservação […]

“O abdome estava esticado, assim como o resto do corpo. Ao ser tocado, tinha um som como de papelão.

“O joelho direito estava mais largo que o esquerdo.

“As costelas e músculos se observavam sob a pele […]

“O corpo estava tão rígido que podia ser virado para um lado e para o outro […]

“Em testemunho de que temos corretamente escrito esta presente declaração, a qual representa a verdade em sua totalidade.

Nevers, 22 de setembro de 1909, Drs. Ch. David, A. Jourdan.” Fonte: Wikipedia, em português — Font: Catholic Pilgrims, em inglês

Segunda exumação

Em 1919, dez anos depois da primeira exumação, realizou-se uma segunda exumação do corpo de Santa Bernadette, conduzida desta vez pelos Doutores Talon e Comte, com a presença do Bispo da cidade de Nevers, bem como do Delegado de Polícia e representantes da Prefeitura e da Igreja.

Santa Bernadette em seu velório, abril 1879, Nevers
Santa Bernadette em seu velório, abril 1879, Nevers

A situação encontrada foi exatamente a mesma da primeira exumação.

Eis alguns excertos do relatório final do Dr. Comte, sobre esta segunda perícia:

“Deste exame, concluo que permanece intacto o corpo da Venerável Bernadette, esqueleto completo, músculos atrofiados, mas bem preservados; apenas a pele, que estava enrugada, pelos efeitos da umidade do caixão.[…]

“O corpo não estava em putrefação nem decomposição, o que seria esperado como normal, após quarenta anos de seu sepultamento.

“Nevers, 3 de abril de 1919, Dr. Comte” Fonte: Wikipedia, em português. — Font: Catholic Pilgrims, em inglês

 

Terceira exumação

Por fim, a 18 de novembro de 1923, Sua Santidade o Papa Pio XI assinou decreto reconhecendo a heroicidade das virtudes de Bernadette.

Após a beatificação da Santa, foi efetivada uma terceira exumação em 12 de Junho de 1925. O objetivo era a retirada de “relíquias” de seu corpo. A canonização viria oito anos mais tarde, em 1933.

Sobre esta última exumação, escreveu o Dr. Comte em seu relatório, em termos forenses que por vezes espantam aos leigos, mas que nos permitem medir com exatidão o grau da incorruptibilidade do corpo da vidente de Lourdes:

Santa Bernadette morreu sentada nesta poltrona, museu de St-Gildard, Nevers
Santa Bernadette morreu sentada nesta poltrona,
museu de St-Gildard, Nevers

“Eu queria abrir o lado esquerdo do tórax para retirar algumas costelas e então remover o coração, o qual eu tinha certeza que estaria intacto.

“Porém, como o tronco estava levemente apoiado no braço esquerdo, haveria dificuldade em ter acesso ao coração.

“Como a Madre Superiora expressou o desejo de que o coração de Santa Bernadette não fosse retirado, bem como também este era o desejo do Bispo, mudei de ideia de abrir o lado esquerdo do tórax e apenas retirei duas costelas do lado direito, que estavam mais acessíveis.

“O que mais me impressionou durante esta exumação foi o perfeito estado de conservação do esqueleto, tecidos fibrosos, musculatura flexível e firme, ligamentos e pele após quarenta e seis anos de sua morte.

“Após tanto tempo, qualquer organismo morto tenderia a desintegra-se, a se decompor e adquirir uma consistência calcária.

“Contudo, ao cortar, eu percebi uma consistência quase normal e macia.

“Naquele momento, eu fiz esta observação a todos os presentes de que eu não via aquilo como um fenômeno natural.” Fonte: Wikipedia, em português — Font: Catholic Pilgrims em inglês

Naquela época foi confeccionada a urna de cristal que guarda o corpo de Santa Bernadette.

As freiras cobriram seu rosto e as mãos com uma camada fina de cera.

Urna com o corpo de Santa Bernadette em Nevers
Urna com o corpo de Santa Bernadette em Nevers

A urna se encontra hoje numa bela capela fora da clausura para que possa ser visitada.

O corpo milagrosamente preservado de Santa Bernadette encoraja os visitantes a imitarem a vida de Santa Bernadette e levarem a sério as mensagens transmitidas pela vidente da Imaculada Conceição.

Vídeo: Corpo incorrupto de Santa Bernadette

Fontes: em inglês: http://www.catholicpilgrims.com/lourdes/bb_bernadette_body.htm 
em português: http://pt. wikipedia.org/wiki/Bernadette_Soubirous

 

(via Ciência confirma Igreja)

Liturgia e celebração da Semana Santa

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A Semana Santa é o momento decisivo para toda a Igreja se reunir e celebrar de forma intensa o mistério central da fé católica: a Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por esse motivo, devemos ter a devida atenção com a liturgia, seja na compreensão do sentido litúrgico de cada dia, seja na correspondência com a nossa vida, por meio da conversão pessoal.

Para bem celebrarmos a Páscoa de Cristo, devemos nos preparar como uma noiva que vai desposar o noivo. Por isso, durante o Tempo da Quaresma precisamos usar vestes de penitência, conversão e misericórdia, para que no Domingo Santo possamos nos vestir com as vestes gloriosas do Cristo Ressuscitado.

Sim, Cristo ressuscitou, e com Ele nós colhemos a vida nova, entretanto, só é possível colher os frutos da ressurreição se bem vivermos e celebrarmos a Semana Santa. Só é possível aclamar a uma só voz que Cristo ressuscitou, se passarmos pela experiência de união na oferta de Cristo na cruz.

O Domingo de Ramos

O início da Semana Santa acontece com o Domingo de Ramos, Domingo este que antecede o Domingo da Ressurreição. A entrada de Jesus em Jerusalém revela que Jesus assume o projeto de salvação do homem no mistério pascal. Daí, a procissão e a bênção de ramos em honra a Cristo Rei, apresentarem-nos a realeza de Cristo em nossas vidas.

Na liturgia do Domingo de Ramos parece haver uma grande contradição, pois a mesma multidão que aclama o Cristo Rei com “Bendito o que vem em nome do Senhor” na leitura do Evangelho e na Procissão de Ramos, também condena Cristo, o servo sofredor, com o grito “Crucifica-o!”.

Daí a importância de celebrar bem esse dia, unindo-se ao louvor e à aclamação do Cristo que é Rei, mas também, através do arrependimento dos nossos pecados, que resultaram na condenação e morte de cruz de Cristo, pois são os nossos pecados que crucificaram o Senhor. Reconhecer Cristo como Rei e Servo Sofredor é o primeiro passo dado a caminho do Calvário.

Os três dias que antecedem o Tríduo Pascal

Os três primeiros dias feriais da Semana Santa marcam a preparação mais imediata da Páscoa. A liturgia usa, então, de um método vivo e envolvente da quase reconstituição dos acontecimentos que Jesus viveu nesses últimos dias de sua vida terrena.

Simbologia do Tríduo Pascal

O Tríduo Pascal, segundo as palavras de Santo Agostinho, é o sacratíssimo tríduo do Crucificado, Sepultado e Ressuscitado.

Inicia-se com a missa vespertina da Ceia do Senhor, possui seu centro na Vigília Pascal e encerra-se com as Vésperas do Domingo da Ressurreição . Assim, o Tríduo Pascal é o ápice do ano litúrgico.

A missa vespertina da Ceia do Senhor, tem como centro a instituição da Sagrada Eucaristia e do sacerdócio, e o mandamento do Senhor sobre a caridade fraterna. Tem como ritos próprios o lava-pés, após a homilia, e a transladação do Santíssimo Sacramento. Assim, na Quinta-Feira Santa, há a transmissão do ritual da Páscoa de Jesus.

“A liturgia de Quinta-Feira Santa insere no texto da oração a palavra “hoje”, sublinhando deste modo a dignidade particular deste dia. Foi “hoje” que Ele o fez: deu-se a si mesmo para sempre no sacramento do seu Corpo e do seu Sangue. Este “hoje” é, antes de mais nada, o memorial da Páscoa de então. Mas é mais do que isso. Com o Cânone, entramos neste “hoje”. O nosso hoje entra em contato com o seu hoje. Ele faz isto agora. Com a palavra “hoje”, a liturgia da Igreja quer induzir-nos a olhar com grande atenção interior para o mistério deste dia, para as palavras com que o mesmo se exprime”.

A Sexta-Feira Santa não é um dia de luto e de pranto, mas um dia em que devemos observar a oferta amorosa de Jesus na Cruz. Com o seu sacrifício cruento, celebramos a morte vitoriosa de Jesus. Nem na sexta nem no sábado a Igreja celebra os sacramentos, exceto penitência e unção dos enfermos. O altar deve estar completamente despojado: sem cruz, castiçais e toalha. Não há canto de entrada. Ao invés da instituição da Eucaristia, há a adoração da Cruz . Por fim, há a comunhão com as hóstias consagradas da Quinta-Feira Santa.

O Sábado Santo (“sepultura do Senhor”), com a reforma litúrgica de Pio XII, passou a ser um dia “alitúrgico”, onde a Igreja se reúne apenas para a celebração da liturgia das horas. Nesse dia, a Igreja permanece junto do sepulcro do Senhor, meditando a sua paixão e morte, em postura de penitência expressão de fé e esperança .
Na noite santa celebramos, como Igreja, a Vigília Pascal, que é a vigília das vigílias, e que tem três símbolos que iremos destacar: a água, o fogo e o canto novo: Aleluia.

Inicia-se a Vigília Pascal com a breve celebração da luz, que é feita fora da Igreja, para representar que nós, antes de batizados, estávamos fora da Igreja. Acende-se o Círio Pascal – que representa Cristo ressuscitado –, e as velas acesas por cada batizado no Círio são símbolos da vida nova que são comunicadas pelo Espírito Santo.
“Com a ressurreição, o dia de Deus entra nas noites da história. A partir da ressurreição, a luz de Deus difunde-se pelo mundo e pela história. Faz-se dia. Somente esta Luz – Jesus Cristo – é a luz verdadeira, mais verdadeira que o fenômeno físico da luz. Ele é a Luz pura: é o próprio Deus, que faz nascer uma nova criação no meio da antiga, transforma o caos em cosmos”.

Em seguida, pela Liturgia da Palavra relembramos os feitos de Deus com o povo do Antigo Testamento que culmina na Ressurreição de Jesus. Assim, renovamos o nosso compromisso como batizados, reavivando-o por meio da graça própria da ressurreição de Cristo.

Depois da Liturgia da Palavra, segue-se a celebração com a Liturgia Batismal, realizando o Batismo, se houver catecúmenos, e em seguida renovam-se as promessas do Batismo de toda a assembleia. Por fim, realiza-se a Liturgia Eucarística – Cristo Cordeiro imolado e glorificado.

A água tem dois significados opostos nas Sagradas Escrituras. Daí extraímos a riqueza desse símbolo da Vigília Pascal. A água indica vida e morte. Morte, porque a água do Batismo “torna-se a representação simbólica da morte de Jesus na cruz: Cristo desceu aos abismos do mar, às águas da morte, como Israel penetrou no Mar Vermelho. Ressuscitado da morte, Ele dá-nos a vida” . O outro significado é a água como vida. Cristo Ressuscitado é a nascente de água viva, que devolve para nós toda sorte de bênçãos e de esperança, para assim renovar o mundo diante da vitória do pecado e da escravidão do mal. “Ele é o Templo verdadeiro, o Templo vivo de Deus. E é também a nascente de água viva. Dele brota o grande rio que, no Batismo, faz frutificar e renova o mundo; o grande rio de água viva é o seu Evangelho que torna fecunda a terra”.

Por fim, o simbolismo do Aleluia representa a necessidade não só de falar mas de cantar a ressurreição de Cristo: daí brota um canto novo nos lábios e no coração do povo de Deus. “Quando uma pessoa experimenta uma grande alegria, não pode guardá-la para si. Deve manifestá-la, transmiti-la. Mas que acontece quando a pessoa é tocada pela luz da ressurreição, entrando assim em contato com a própria Vida, com a Verdade e com o Amor? Disto, não pode limitar-se simplesmente a falar; o falar já não basta. Ela tem de cantar. A mão salvadora do Senhor nos sustenta e assim podemos cantar já agora o cântico dos redimidos, o cântico novo dos ressuscitados: Aleluia! Amém!”

Que grande alegria, Cristo Ressuscitou! Sim, Ele está vivo, venceu a morte, venceu o nosso pecado, por isso somos livres, e chamados a evangelizar! No Domingo da Páscoa celebramos o dia do Senhor, com grande solenidade, dia em que Cristo Glorioso vem nos libertar do pecado, por sua obra pascal.

Assim, chegamos ao fim dessa longa caminhada em vista da Glorificação de Cristo, entoando o nosso louvor pela ressurreição do Senhor. Que possamos viver intensamente cada dia da Semana Santa, para que no Domingo da Páscoa, o nosso grito – Ressuscitou! – seja repleto de alegria e de verdade, pois caminhamos no Calvário com Jesus e ressuscitamos com Ele.

Boa Semana Santa e Feliz Páscoa!

[1] “Toda a atenção da alma deve estar voltada para os mistérios que, sobretudo nessa missa, são recordados, isto é, instituição da Eucaristia, a instituição da ordem sacerdotal e o mandamento do Senhor sobre a caridade fraterna” (Carta circular da Congregação para o Culto Divino).

[1] “Enquanto o Tríduo nos apresenta a realidade do mistério pascal único e unitário na sua dimensão histórica, a Quinta-Feira Santa o transmite em sua dimensão ritual” S. Marsili.

[1] Santa Missa “in cena domini”, homilia do Papa Bento XVI.

[1] “Adoramos a vossa cruz, Senhor; louvamos e glorificamos a vossa santa ressurreição! Do madeiro da cruz veio a alegria no mundo inteiro” Antífona de origem Bizantina.

[1] “O Sábado Santo é a pausa que a Igreja convida a viver, suspendendo pelo átimo de um dia o turbilhão das preocupações cotidianas. É o momento em que se deve fazer brotar do coração a plenitude do reconhecimento” B. Baroffio, Meditazioni sul Tríduo Pasquale, p. 32.

[1] Homilia do Papa Bento XVI da Vigília Pascal de 2009.

[1] Homilia do Papa Bento XVI da Vigília Pascal de 2009.

[1] Homilia do Papa Bento XVI da Vigília Pascal de 2009.

 

Márcio André Teixeira Barradas

O ENEM e o controle ideológico da população

Um exame que foi pensado como mero indicador de qualidade acadêmica
transformou-se num forte instrumento de controle, inclusive
ideológico, de acesso ao ensino superior. E já está sendo usado para
consolidar a ideologia de gênero

Brasilia, 27 de Outubro de 2015 (ZENIT.org) Paulo Vasconcelos Jacobina

Nunca houve, na história do Brasil, um instrumento potencialmente tão
completo, em termos de dominação ideológica do país, como o ENEM. De
fato, ele é, hoje, basicamente a única porta de acesso a todo o ensino
superior e a toda a estrutura de pós-graduação no país – vale dizer,
quem não estiver preparado para demonstrar não somente qualidade
acadêmica, mas também afinação com os pressupostos ideológicos que
regem os elaboradores e corretores do exame está condenado a não obter
vaga nas universidades, ou ao menos privar-se das universidades de
maior qualidade e dos cursos mais procurados.

Não se trata de discutir se o ENEM é ou não um instrumento pedagógico
tecnicamente bom. Possivelmente ele é, e isto não diz nada em seu
favor: são exatamente os instrumentos bons os que são mais aptos de
produzir danos enormes quando mal utilizados. Uma faca extremamente
afiada é um instrumento soberbo para um bom churrasco, mas é também
uma arma letal nas mãos de um assassino. Há uma confusão básica –
também no campo da educação – entre ética e técnica, como se o avanço
técnico da ciência pudesse influir diretamente, ou mesmo determinar,
as fronteiras da ética.

Neste ponto, há que se frisar: nenhum governo autoritário do Brasil
jamais dispôs de um instrumento tão completo, abrangente e eficaz, no
plano do controle ideológico, como é o ENEM. Para o bem ou para o mal.
Trata-se, como disse, de condicionar o acesso a todo o ensino superior
à porta única de entrada que é este exame. E que, é claro, submete-se
(potencialmente ao menos, senão em ato) a um grande controle
ideológico sob o ângulo de certos consensos acadêmicos e midiáticos
que estão bem estabelecidos, hoje, no nosso país e no mundo.

Dou um exemplo: há uma grande discussão, hoje, sobre a verdadeira
noção de “identidade sexual”. Tradicionalmente, sempre se entendeu que
a “identidade sexual” do ser humano é binária: somos homens e
mulheres, e as exceções clínicas, raríssimas, somente confirmavam a
regra. Há, é claro, (e tradicionalmente se entendia assim) o campo das
tendências, inclinações, desejos e opções sexuais, mas estes não
faziam parte da própria identidade sexual, da substância da pessoa
humana, senão do campo dos condicionamentos e das escolhas, das opções
e vivências culturais e pessoais, na riqueza da sexualidade humana.
Compreendia-se que havia homens e mulheres, e que havia diversas
maneiras e modos de se viver na prática a sexualidade, sem que tais
maneiras e modos passassem a integrar a própria noção de identidade
sexual. É assim que a Declaração Universal de Direitos Humanos, já nos
seus “consideranda”, fala em “dignidade e valor do ser humano e na
igualdade de direitos entre homens e mulheres”, ou em vedação de
“distinção de sexo”, já no seu artigo 2º. É assim, também, que no seu
art. 16, reconhece-se que “Os homens e mulheres de maior idade, sem
qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito
de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos
em relação ao casamento, sua duração e sua dissolução”. Para a
Declaração Universal dos Direitos Humanos, portanto, a questão de uma
“identidade sexual” diversa do sexo das pessoas nem sequer se
colocava. Éramos, e sempre fomos, homens e mulheres. Ponto. Todo o
resto estava no campo dos condicionamentos, das escolhas, das
tendências e desvios, alguns publicamente reprimidos, como a
pedofilia, alguns simplesmente tolerados, como a promiscuidade, outros
estimulados, em função do seu interesse para todos, como a formação de
famílias complementares e fecundas. E as coisas foram assim até pelo
menos os anos setenta.

O advento da ideologia do gênero.

De repente, embalados por estudos pretensamente científicos e suas
interpretações filosóficas ou pseudoéticas, de pensadores como Wilhelm
Reich, Marcuse, Simone de Beauvoir, Foucault, Shulamith Firestone ou
Judith Butler, só para citar alguns, a “identidade sexual” passou a
incorporar em si não somente a condição de homens e mulheres, mas as
próprias tendências, escolhas, condicionamentos ou desvios, fazendo
com que o lado estritamente subjetivo da sexualidade humana
prevalecesse sobre a objetividade da convivência pública, e inserindo
no campo da dignidade da pessoa humana a ser tutelada pelo Estado
aquilo que, anteriormente, estava no âmbito da estrita variabilidade
pessoal, com todo o grau de conforto ou desconforto que as situações
concretas determinavam.

Assim, ser, digamos, somente para exemplificar, um pedófilo, um
estuprador, um heterossexual promíscuo, ou mutilar-se física e
hormonalmente com o fito de simular um sexo biológico diverso daquele
que sua pessoa recebeu pelo nascimento, dentre outras tendências
sexuais possíveis, tudo isto transportou-se de onde estava
originalmente (do plano das tendências, dos condicionamentos e das
escolhas comportamentais) para o campo da própria identidade sexual
substancial da pessoa humana, a ser pretensamente tutelada pela
legislação que protege a dignidade da pessoa humana. E sob as penas de
criminalizar-se como homofóbico o pensamento de quem insiste na
concepção histórica e consentânea com a própria Declaração Universal
dos Direitos Humanos da ONU de que a identidade sexual, quanto à
substância da pessoa humana, diz respeito apenas à condição de sermos
homens e mulheres. Tudo o mais tem, é certo, reflexos importantes na
tutela da pessoa humana, mas não definiria, conforme sempre se pensou
até a instalação hegemônica do pensamento contrário no âmbito de um
certo “consenso acadêmico” e “jurídico”, identidade substancial de
ninguém.

Quais as consequências sociais dessa ideologia.

As consequências práticas estão aí, e tornam impossível adotar a
postura do “viva e deixe viver” que a maior parte dos pais,
educadores, operadores e mesmo pessoas religiosas estão adotando. Não
se trata de dizer: “ora, se você não concorda com isso, viva a sua
vida e deixe que os outros vivam, afinal esta é uma sociedade
democrática e plural”. Não é tão simples assim: definir que tendências
e inclinações sexuais definem a própria identidade sexual para fins de
tutela da dignidade da pessoa humana significa dizer, entre outras
coisas, que os banheiros públicos já não terão mais, como critério de
uso, a fisiologia excretora dos usuários, mas a sua “identidade
sexual” definida pela “tendência” ou “inclinação” que ele escolhe ou
encontra em si mesmo. Assim, em vez de usar um banheiro público
conforme ao seu aparelho excretor, ele o usará conforme a sua
“identidade sexual”, num grande quiproquó: o banheiro não será mais
espaço de atendimento de necessidades fisiológicas determinadas pela
biologia, mas espaço de afirmação de tendências ou inclinações sexuais
elevadas ao grau de dignidade da pessoa humana. Não se trata, pois, de
construir mais banheiros, digamos, terceiros ou quartos banheiros,
para aqueles cuja escolha identitária sexual não coincide com a
fisiologia excretora, por nascimento ou por mutilação cirúrgica, mas
de compelir a todos, mesmo aqueles que ainda acreditam no texto
original da Declaração dos Direitos Humanos da ONU, a dividir o
banheiro não pelo critério da conformação excretora, mas da tendência
ou inclinação sexual, inclusive e principalmente quando esta não
coincidir com o aparelho excretor. A proposta, portanto, é de
reeducação global impositiva estatalmente, inclusive por meios
criminais, para tornar hegemônico aquilo que certo consenso acadêmico
e jurídico vê como avanço social e civilizatório, tornando impossível
sequer manifestar opinião contrária. Que seria, segundo eles,
afrontosa aos direitos humanos e à dignidade da pessoa, e portanto,
uma opinião que até outro dia fazia parte do próprio texto da
Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU passa a ser quase uma
opinião bandida.E banida.

Os reflexos práticos das opções estatais nas liberdades públicas.

Imaginemos, agora, uma ação judicial coletiva que vise forçar as
escolas confessionais do país inteiro a permitir, ou mesmo a impor,
que suas crianças, meninos ou meninas, dividam o banheiro com pessoas
adultas cuja “inclinação” ou tendência” não coincida com o respectivo
aparelho excretor. Isto simplesmente inviabilizaria, no limite, a
própria existência de espaços confessionais abertos ao público,
remetendo a religiosidade humana exatamente para onde estes mesmos
ideólogos sempre propuseram que ela deveria estar: no âmbito do
estritamente privado e fechado. E onde estamos? Basicamente calados.

Ora, o que se vê, mesmo, digamos, em certos âmbitos educacionais e
confessionais, não é simplesmente uma preparação para conviver – e
formar nossos filhos para conviver – com uma sociedade
majoritariamente adversa. Trata-se de estar muitas vezes cegos para o
que parece ser um discurso de “direitos humanos” e “militância”
social, ou mesmo empolgados com tais perspectivas, promovendo-as até
mesmo como deveres para um cristão, jovem ou idoso. E vemos educadores
católicos, padres, bispos e entidades religiosas promovendo,
orgulhosos, encontros, debates e passeatas para promover a defesa
destas posições como se fossem a defesa de “oprimidos e
marginalizados”, numa postura pouco coerente. Mas parece que ainda
vivemos uma época, mesmo em certos âmbitos religiosos institucionais,
em que palavras de ordem valem mais do que a Bíblia e o Catecismo. Não
há nada mais importante do que ter critérios. E é exatamente de
critérios que estamos nos tornando paupérrimos.

Voltemos então para o ENEM. Não é de estranhar que Simone de Beauvoir
tenha sido tema no último exame. Nem quero imaginar o que ocorreria
com os estudantes que ousassem lê-la, na prova, de maneira diversa dos
tais “consensos acadêmicos”. Muito poucos, é certo, conseguiriam,
porque já foram devidamente doutrinados para fazer o exame, e nem
sequer sabem que há a possibilidade de uma leitura diversa daquela que
o Exame espera deles. Mas e quanto aos que pensam diversamente?
Dobram-se à ideologia vigente ou estão fora do mundo do ensino
superior de qualidade. É uma arma poderosa.

(27 de Outubro de 2015) © Innovative Media Inc.