A permissividade moral não torna os homens felizes

“O ser humano só se realiza”, lembra-nos o Papa São João Paulo II, “na medida em que sabe aceitar as exigências que provêm da sua dignidade de ser criado à imagem e semelhança de Deus.”

Papa São João Paulo II,  Santa Sé

Tradução:  Senza Pagare/Equipe CNP

7 de Novembro de 2017

O pequeno texto que disponibilizamos a seguir faz parte de um discurso do Papa São João Paulo II a jovens holandeses, durante sua visita de 1985 aos Países Baixos. Nele, Sua Santidade lança à juventude católica do mundo inteiro o desafio do amor.

Por que destacar esta pregação agora? Porque ela contém o mesmo ensinamento que o Padre Paulo Ricardo tem reforçado em suas pregações de cunho moral: os Mandamentos, o chamado da Igreja à perfeição, não são um “moralismo”, mas um convite à entrega, generosa e abnegada, de quem se sabe amado por Deus e deseja retribuir-lhe o amor.

No site da Santa Sé, esse discurso se encontra somente nas línguas italiana e holandesa. Servimo-nos em grande parte da tradução oferecida pelo site português “Senza Pagare” — ao qual agradecemos — e acrescentamos ao fim, também, uma outra parte do discurso que achamos conveniente traduzir.

Queridos jovens, fizestes-me saber que muitas vezes considerais a Igreja como uma instituição que apenas promulga regulamentos e leis. E concluís que há um profundo hiato entre a alegria que emana da palavra de Cristo e o sentimento de opressão que suscita em vós a rigidez da Igreja.

Mas o Evangelho apresenta-nos um Cristo muito exigente, que convida a uma conversão radical do coração, ao abandono dos bens da Terra, ao perdão das ofensas, ao amor para com o inimigo, à paciente aceitação das perseguições e mesmo ao sacrifício da própria vida por amor ao próximo.

O jovem Karol Wojtyla.
No que diz respeito ao domínio particular da sexualidade, é conhecida a posição firme que Jesus tomou em defesa da indissolubilidade do matrimônio e a condenação que pronunciou até a propósito do simples adultério cometido no coração. Poderá alguém não ficar impressionado diante do preceito de arrancar um olho ou de cortar uma mão se esses órgãos forem ocasião de escândalo?

A permissividade moral não torna os homens felizes. Tal como a sociedade de consumo não traz alegria ao coração. O ser humano só se realiza na medida em que sabe aceitar as exigências que provêm da sua dignidade de ser criado “à imagem e semelhança de Deus” (Gn 1, 27). Por isso, se hoje a Igreja diz coisas que não agradam, é porque se sente obrigada a fazê-lo. Ela o faz por dever de lealdade.

Mas então não é verdade que a mensagem evangélica é uma mensagem de alegria? Pelo contrário, é absolutamente verdade! E como é isso possível? A resposta encontra-se numa palavra, numa só palavra, numa palavra curta mas com um conteúdo vasto como o mar. Essa palavra é: amor. O rigor do preceito e a alegria do coração podem perfeitamente conciliar-se. Quem ama não receia o sacrifício. Antes procura no sacrifício a prova mais convincente da autenticidade do seu amor.

Se hoje a Igreja diz coisas que não agradam, é porque se sente obrigada a fazê-lo. Ela o faz por dever de lealdade.
Não é esta porventura a experiência que vós mesmos fazeis em relação à pessoa que amais? Por mais exigentes que sejam as demandas que ela vos propõe, vós não experimentais fadiga em cumpri-las, e o próprio sacrifício que tal cumprimento vos custa se converte para vós em fonte mesma de alegria.

Eis o segredo, caríssimos jovens, de uma vida cristã ao mesmo tempo coerente e alegre: o segredo está em um amor sincero, pessoal e profundo a Cristo. O meu desejo é que cada um de vós descubra um amor semelhante, porque assim os valores que se encontram na base da norma ser-vos-ão revelados em sua própria verdade e as dificuldades que encontrais em praticá-la tornar-se-ão mais leves. Diz Agostinho: Nam in eo, quod amatur, aut non laboratur, aut et labor amatur, isto é, “Naquilo que se ama, ou não se cansa, ou se ama o próprio cansaço” (De Bono Viduitatis, 21, 26).

Jovens, esta é, portanto, a minha resposta: amai a Cristo e aceitai as exigências que a Igreja em seu nome vos coloca, porque são as exigências que provêm de Deus, Criador e Redentor do homem. Aceitai estas exigências na vossa vida e descobri-lhes o valor. Para tanto, faz-se necessário que escuteis sempre a palavra de Deus e que encontreis com frequência o Ressuscitado na Eucaristia. Aconselho-vos ainda a não subestimar, nesse sentido, o valor do sacramento da Confissão. Deste modo podereis viver com força as exigências que haveis assumindo recebendo a Crisma.

Referências

Retirado do “Discurso durante encontro com os jovens holandeses em Amersfoort”, de 14 de maio de 1985.