Quando Pio XII fez o Esplendor da Verdade

Seria possível amar a Deus e ao próximo sem respeitar os Dez Mandamentos em todas as suas circunstâncias? Para os adeptos da chamada “moral de situação”, sim. Para o Magistério da Igreja, no entanto, a resposta sempre foi não.

“Os mandamentos de Deus, que estão escritos no coração do homem e fazem parte da Aliança, têm verdadeiramente a capacidade de iluminar as opções quotidianas dos indivíduos e das sociedades inteiras? É possível obedecer a Deus e, portanto, amar a Deus e ao próximo, sem respeitar em todas as circunstâncias estes mandamentos?”, perguntava-se, em 1993, o Papa São João Paulo II.

As perguntas formuladas não eram propriamente do Papa, mas de teólogos de seu tempo, e a resposta para elas não poderia ser diferente. Contra as teorias éticas heterodoxas em vigor, e em consonância com a Sagrada Escritura e a Tradição da Igreja, o Papa Wojtyla reafirmou a existência de “normas morais que proíbem sem exceção os atos intrinsecamente maus”; lembrou o dever que todos têm de formar retamente a própria consciência; e garantiu: “As circunstâncias ou as intenções nunca poderão transformar um ato intrinsecamente desonesto pelo seu objeto, num ato ‘subjetivamente’ honesto ou defensível como opção.”

Muito antes, porém, de o Papa polonês fulminar com a encíclica Veritatis Splendor os perigosos postulados da chamada “moral de situação”, outro Pontífice já havia condenado essa “nova ética”, e mais de uma vez, ao longo de seu pontificado.

Tratava-se do venerável Papa Pio XII, que governou a Igreja durante os turbulentos anos da Segunda Guerra Mundial. Qual fosse a nota distintiva desta “nova ética” é ele mesmo quem explicava: ” Ela não se baseia nas leis morais como, por exemplo, os Dez Mandamentos, mas nas condições e circunstâncias reais e concretas em que se deve agir e segundo as quais a consciência individual tem de julgar e escolher.”

Na alocução que disponibilizamos a seguir, em nova tradução para a língua portuguesa, deixamos as orientações oportuníssimas do Papa Pio XII a respeito dessa “nova moral”, “tão alheia à fé e ao princípios católicos, que mesmo uma criança que conheça o seu catecismo se dará conta disso”.

Com muita clareza, o Papa Pacelli ensina que “pode haver situações em que o homem, e especialmente o cristão, não pode ignorar que deve sacrificar tudo, inclusive a própria vida, a fim de salvar a própria alma”, recordando para isso o testemunho dos mártires, que preferiram a “morte sangrenta” a cometer um único pecado mortal.

Dada a extensão desse discurso, destacamos abaixo apenas o seu começo, sendo necessário, para se proceder à sua leitura integral, acessar o documento em formato PDF aqui.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere
Tags: Moral Cristã, Relativismo, Papa João Paulo II, Papa Pio XII, Verdade

Virtudes cardeais: o que são? Para que servem?

Conheça as virtudes que estão dentro de você e transforme-as em hábitos

Santo Tomás de Aquino, citando Aristóteles, diz: a pedra nunca se acostuma a ser dirigida para cima (in II Ethic.lect. I). Com isso, o Doutor Angélico quer evidenciar que a nossa natureza necessita por excelência participar da natureza divina, porque Deus cria o homem para participar de Sua Vida, e, para tanto, não pode fazer o caminho inverso ou diferente daquele que é definido por Deus para que possa fazer da vida humana uma vida que participa da divindade.

A natureza humana possui forças habituais, enraizadas pelo ato da criação ou adquiridas pela repetição constante e regular de atos bons ou maus. Uma pessoa que pratica o bem fará de suas ações uma correspondência do bem; de outra monta, uma pessoa que pratica o mal irá fazer de suas ações a correspondência ao mal que ela deseja praticar. As forças que habitam a natureza humana criada são chamadas de habitus, e tais podem ser boas ou más, podem nos levar para Deus ou nos afastar d’Ele na medida em que praticamos o mal ou o bem com nosso esforço próprio e com o auxílio divino. Todo bom hábito é chamado de virtude e todo mau hábito é conhecido por vício. Para melhor definir, a virtude é, segundo Santo Agostinho, a disposição para o amor, compreendida como a essência e finalidade suprema do espírito humano, ou, ainda, segundo o já citado Aristóteles, é uma característica própria e definidora do ser humano, cuja realização consuma a excelência ou perfeição deste ser.

Esses bons hábitos (ou virtudes) são inerentes à natureza humana, e são comuns a todos os homens indistintamente, pois são naturais assim como o homem é natural, porém sem esquecer que é o Próprio Deus que mantém e sustenta a ordem natural que Ele criou. As virtudes, então, por serem próprias da humanidade, quando praticadas irão nos levar a viver retamente e evitaremos todo o mal, mas quando não são praticadas ou são esquecidas, iremos fazer de nossas ações um grupo imenso de vícios, ou seja, de maus hábitos que nos levam ao pecado. Estas virtudes boas, bons hábitos, essas forças de nossa natureza que estão presentes na alma, são chamadas de virtudes cardeais, quais sejam a: Prudência, Justiça, Temperança e Força.

I – A Prudência

A prudência nos leva a escolher entre o bem e o mal. É dela que Nosso Senhor Jesus Cristo ensina ao dizer: “Eis que vos mando como ovelhas no meio de lobos. Sêde, pois, prudentes como a serpente e simples como as pombas” (Mt 10, 16). Cristo proclama esse ensinamento de forma profética, ou seja, deixa claro para os apóstolos e para aqueles que seguiriam o Cordeiro de Deus pela pregação apostólica que, no decorrer de toda a história da Igreja, seria árduo que o mundo compreendesse quais são os caminhos de Deus e Seus propósitos para a humanidade. Assim, seguir o Cristo não seria nada além do que à custa de suor e labor, pois o próprio Cristo foi sinal de contradição, e sendo Ele assim, aqueles que o seguem seriam emissários da contradição. Quando, na vida de um cristão, não há contradição, é o sinal evidente de que o cristão se mundanizou (Cf. Bíblia de Navarra, Vol I, pg. 231). Por isso, na escolha entre o bem e o mal, que nos será possível escolher através da prudência, não será suscetível ao cristão transigir, transacionar, alienar a vida cristã por nenhuma manifestação mundana, por mais que seja aprazível ao corpo o que esteja em moda (cf. Idem, pg. 232). “A vida cristã levará consigo, necessariamente, uma inconformidade diante de tudo o que atente contra a fé e a moral (cf. Rom 12, 2). Não se pode estranhar que a vida do cristão se mova, não poucas vezes, entre o heroísmo e a traição. Perante estas dificuldades não se deve ter medo: não estamos sós, contamos” (cf. Ibidem, pg 232).

II – A Justiça

É a virtude que nos faz entender a criação, pois nos auxilia na prática de dar a cada um o que lhe é devido, proteger o que nos pertence e dar a Deus que Ele mesmo nos pede: a vida gratuitamente dada sendo devolvida ao Seio divino sem qualquer reserva, como prova de amor que é meio necessário para a salvação. Quando os seres humanos vivem entre si reto sentido da justiça, a vida será uma perfeita manifestação da divindade; assim, quando compramos algo, pagamos o seu valor; quando tomamos emprestado, gera-se o dever de restituir; quando contraímos uma obrigação, cabe-nos cumpri-la, tal como o matrimônio e o juramento livre dado como manifestação da verdade a outrem que confia na palavra dada, a promessa livre de uma vida reta diante de Deus; bem como o dever dos sacerdotes de administrar os sacramentos a quem legitimamente os pede. Quando se peca contra a justiça, o arrependimento e a confissão não bastam, a lesão deve ser reparada a todo custo para que o estado de justiça anterior seja restabelecido.

O conceito de justiça, enquanto virtude, é essencialmente religioso, pois justo para Deus é aquele que se esforça com sincero labor para cumprir a Vontade do Pai, o que se manifesta de três formas: no cumprimento dos mandamentos, nos deveres de estado leigo, sacerdotal e matrimonial e na luta para manter a alma unida à Santíssima Trindade através da graça santificante. Justiça, portanto, está essencialmente ligada à santidade. São Jerônimo, Doutor da Igreja dirá sobre a justiça:

” não exige somente um simples desejo vago de justiça, mas ter fome e sede dela, isto é, amar e buscar com todas as forças aquilo que torna justo o homem diante de Deus. O que de verdade quer a santidade cristã tem de amar os meios que a Igreja, instrumento universal de salvação, oferece e ensina a viver todos os homens, ou seja, freqüência aos sacramentos, convivência íntima com Deus na oração, fortaleza para cumprir os deveres de família, profissionais e sociais”.

Na ordem das bem-aventuranças, a justiça é seguida da misericórdia, no participar do coração amoroso do Pai, o que não é somente em dar o que é devido, mas compreender com esforço cristão os defeitos que podem ter quem nos rodeia, com o perdão devido, pois tem Deus mais nos perdoado antes, no auxílio para que os defeitos de outrem sejam superados e principalmente em amar aquele que se apresenta como cheio de defeitos diante de nós. Isso nos leva ao Pai-Nosso: “perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.

III – A Temperança

A virtude que nos oferece a resposta para as exigências da vida cristã. A temperança, de acordo com o ensinamento da Igreja, é “a virtude moral que modera a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados” (Catecismo da Igreja Católica, 1809). Segundo este mesmo ensinamento, aquele que possui esta virtude tem domínio da vontade sobre os instintos e seus desejos não ultrapassam os limites da honestidade, com que deve portar-se todo ser humano. Por isso, no Novo Testamento esta virtude é chamada também de “moderação”, “sobriedade”, como em Tt 2,12, onde Paulo diz que devemos “viver com moderação, justiça e piedade neste mundo”.

Assim, como fruto desta virtude, tem-se a moderação nos prazeres sensíveis e a busca pelo equilíbrio no uso dos bens que Deus nos dá. Portanto, na virtude da temperança inclui-se a virtude da castidade, já que a temperança “tem em vista fazer depender da razão a paixões e os apetites da sensibilidade humana” (Catecismo da Igreja Católica, 2341). Inclui-se ainda tal proceder que evita os abusos no comer e no beber, a modéstia no vestir, a cautela ao frequentar lugares que podem não ser próprios a um cristão, etc. Assim, o homem seguirá aquilo que as Sagradas Escrituras pedem:”Não te deixes levar por tuas paixões e refreia os teus desejos” (Eclo 18,30).

“O homem temperante é aquele que é senhor de si mesmo; aquele em que as paixões não tomam a supremacia sobre a razão, sobre a vontade e também sobre o coração. Entendamos portanto como a virtude da temperança é indispensável para que o homem seja plenamente homem, para que o jovem seja autenticamente jovem. O triste e aviltante espetáculo dum alcoólico ou dum drogado faz-nos compreender claramente como ‘ser homem’ significa, antes de qualquer outra coisa, respeitar a própria dignidade, isto é, deixar-se alguém conduzir pela virtude da temperança. Dominar-se a si mesmo, as próprias paixões e a sensualidade não significa de maneira nenhuma tornar-se alguém insensível ou indiferente; a temperança de que falamos é virtude cristã, que aprendemos com o ensino e o exemplo de Jesus, e não com a chamada moral ‘estoica’”; (Sua Santidade, o Papa João Paulo – Discurso durante o Encontro com os Jovens na Basílica Vaticana).

IV – Fortaleza

A virtude da fortaleza é aquela que nos dota de segurança em tudo que fazemos, principalmente nos momento que mais precisamos, nas dificuldades e contrariedades, ajudando-nos a vencer o medo, como Cristo sempre pediu, em diversos momentos: “Não tenhais medo” (como em Mt 14,27). Esta virtude dá-nos, ainda, suporte e constância na procura do bem, firmando uma resolução de resistir às tentações e superar os obstáculos na vida moral (Cf. Catecismo da Igreja Católica, 1808).

A força, deve ficar claro a todos, não é virtude apenas dos heroicos, que expõe sua vida em favor de outro. A fortaleza está em cada atitude, escolha feita pelo homem, nos atos heroicos que passam despercebidos em nosso dia a dia.

“Segundo a doutrina de São Tomás, a virtude da fortaleza encontra-se no homem: que está pronto a “aggredi pericula”, isto é, a afrontar o perigo; que está pronto a “sustinere mala”, isto é, a suportar a adversidade por uma causa justa, pela verdade, pela justiça, etc. A virtude da fortaleza requer sempre alguma superação da fraqueza humana e sobretudo do medo. O homem, de fato, por natureza teme espontaneamente o perigo, os dissabores e os sofrimentos. preciso, por isso, procurar os homens corajosos não só nos campos de batalha, mas também nas salas dum hospital ou num leito de dor. Tais homens podiam-se encontrar muitas vezes nos campos de concentração e nos locais de deportação. Eram autênticos heróis” (Sua Santidade o Papa João Paulo II, Audiência Geral de 15/11/1978).

(Comunidade Shalom)

O que é Transverberação

O fenômeno da transverberação ficou conhecido principalmente por causa da famosa escultura de Gian Lorenzo Bernini, chamada “O Êxtase de Santa Teresa”, que está na Igreja de Santa Maria della Vittoria, em Roma. Essa magnífica obra barroca retrata uma experiência relatada pela própria Santa Teresa de Jesus, em sua autobiografia:

“Quis o Senhor que eu tivesse algumas vezes esta visão: eu via um anjo perto de mim, do lado esquerdo, em forma corporal, o que só acontece raramente. Muitas vezes me aparecem anjos, mas só os vejo na visão passada de que falei. O Senhor quis que eu o visse assim: não era grande, mas pequeno, e muito formoso, com um rosto tão resplandecente que parecia um dos anjos muito elevados que se abrasam. Deve ser dos que chamam querubins, já que não me dizem os nomes, mas bem vejo que no céu há tanta diferença entre os anjos que eu não os saberia distinguir.

Vi que trazia nas mãos um comprido dardo de ouro, em cuja ponta de ferro julguei que havia um pouco de fogo. Eu tinha a impressão de que ele me perfurava o coração com o dardo algumas vezes, atingindo-me as entranhas. Quando o tirava, parecia-me que as entranhas eram retiradas, e eu ficava toda abrasada num imenso amor de Deus. A dor era tão grande que eu soltava gemidos, e era tão excessiva a suavidade produzida por essa dor imensa que a alma não desejava que tivesse fim nem se contentava senão com a presença de Deus. Não se trata de dor corporal; é espiritual, se bem que o corpo também participe, às vezes muito. É um contato tão suave entre a alma e Deus que suplico à Sua bondade que dê essa experiência a quem pensar que minto.”[1]

De acordo com a descrição de Santa Teresa, está a se falar, sobretudo, de uma experiência extraordinária do amor de Deus. Como muitos não acreditaram no que ela relatou – a própria santa faz referência “a quem pensar que minto” –, o próprio Deus fez questão de mostrar a veracidade do que ela dizia. Em 1591 – dez anos após a sua morte e vinte após a sua transverberação –, exumaram o seu corpo e perceberam que estava incorrupto. Então, a pedido de um bispo, o coração de Teresa foi retirado, a fim de que fosse exposto na cidade de Alba de Tormes, onde ela morreu. Para espanto geral, havia em seu coração uma ferida cicatrizada, com sinais de cauterização – o que se encaixa perfeitamente com a experiência da transverberação, quando foi penetrada por um “dardo de ouro comprido” em cuja ponta de ferro “parecia que tinha um pouco de fogo”: o atestado divino de que esse fenômeno é verdadeiro e a santa não estava mentindo.

A própria Igreja, porém, tem critérios muito rigorosos para aprovar esses tipos de milagres. O padre Quevedo, no livro “Os Milagres e a Ciência”, fala, por exemplo, do cardeal Prospero Lambertini – Papa Bento XIV –, que, com bastante cuidado científico, investigou o caso da transverberação de Santa Teresa e defendeu a fé católica contra embustes e falsificações, aprovando esse fato extraordinário.

Mas, em que consiste, de fato, a transverberação? Trata-se de uma experiência que, antes de qualquer coisa, acontece na alma. Santa Teresa mesma diz que a dor causada pelo dardo místico do anjo “não é dor corporal, mas espiritual”. No caso dela, bem como no caso de São Pio de Pietrelcina e de São Francisco de Assis, a transverberação teve efeitos também corporais. Mas eles não são necessários, como explica São João da Cruz:

“Se Deus, por vezes, permite que se produza algum efeito exterior, nos sentidos, semelhante ao que se passou no espírito, aparece a chaga e ferida no corpo. Assim aconteceu quando o serafim feriu a São Francisco: chagando-o de amor na alma com as cinco chagas, também se manifestou o efeito delas no corpo, ficando as chagas impressas na carne, tal como foram feitas na alma ao ser chagada de amor. Em geral, não costuma Deus conceder alguma mercê ao corpo, sem que primeiro e principalmente a conceda no interior, à alma.”[2]

No processo de santificação, o mais importante é o que acontece no espírito, não no corpo. Por isso, adverte ainda São João da Cruz, “quanto mais intenso é o deleite, e maior a força do amor que produz a chaga dentro da alma, tanto maior é também o efeito produzido na chaga corporal, e crescendo um, cresce o outro”[3]. Ou seja, a medida verdadeiramente extraordinária desse fato não está senão no interior, no que acontece à alma.

Santa Teresinha do Menino Jesus também passou por essa realidade mística, mas sem receber chagas corporais. Em um relato do dia 7 de julho de 1897, recolhido no “Caderno Amarelo”, de Madre Inês de Jesus, é possível ler:

“Começava a minha Via Sacra quando, de repente, fui tomada por um amor tão violento pelo Bom Deus, que não posso explicar isso senão dizendo que era como se me tivessem mergulhado toda no fogo. Oh! Que fogo e que doçura ao mesmo tempo! Eu ardia de amor e sentia que um minuto, um segundo a mais, e não conseguiria mais suportar tal ardor sem morrer. Compreendi, então, o que dizem os Santos sobre esses estados que eles experimentaram tantas vezes.”[4]

Mas, afinal, o que acontece à alma transverberada? Ela é completamente invadida pelo amor divino. É Deus mesmo quem age na alma para aumentar nela a caridade.

Isso é feito no sentido de aumentar a comunhão da alma com Deus. Algumas pessoas têm uma visão equivocada de santidade: acham que é um “moralismo”, em que se seguem os mandamentos e, com as próprias forças, se chega à perfeição. Mas a santidade não é isso. Ela é, ao invés, o progresso no amor: Deus derrama em nossos corações o Seu Espírito e purifica o nosso amor, até chegarmos à caridade perfeita, às últimas moradas do nosso “castelo interior”.

Como se dá esse processo? Primeiro, acontece a conversão, quando se deixa a vida de pecado e se trilha a “via purgativa”, com oração e mortificações. Então, não havendo mais o que se purificar ativamente, Deus prova a alma pela “noite escura dos sentidos” e pela “noite escura da alma”, depois das quais ela se encontra em um estágio elevado de santificação.

Santa Teresa recebeu o dom da transverberação quando estava na sexta morada. Tendo passado pela “união árida” (também chamada “noite escura”), não tinha ainda chegado à perfeição. Ela encontrava-se em um estágio intermediário, chamado de “união extática”, em que alma recebe os fenômenos extáticos, é tocada pelo amor, mas ainda existem muitos altos e baixos. Faltava-lhe passar pela “união transformante”, na qual a alma se configura definitivamente a Cristo – o que aconteceu quando ela entrou na sétima morada.

São João da Cruz, ainda em seu “Chama Viva de Amor”, descreve com detalhes a transverberação:

“Acontece-lhe, então, sentir que um serafim investe sobre ela, com uma flecha ou dardo todo incandescente em fogo de amor, transverberando esta alma que já está inflamada como brasa, ou, por melhor dizer, como chama viva, e a cauteriza de modo sublime. No momento em que é cauterizada assim, e transpassada a alma por aquela seta, a chama interior impetuosamente irrompe e se eleva para o alto com veemência, tal como sucede num forno abrasado ou numa fogueira quando o fogo é revolvido e atiçado, e se inflama em labareda. A alma, então, ao ser ferida por esse dardo incendido, sente a chaga com sumo deleite. Além de ser toda revolvida com grande suavidade, naquele incêndio e impetuosa moção que lhe causa o serafim, provocando nela grande fervor e amoroso desfalecimento, ao mesmo tempo sente a ferida penetrante e a força do veneno com que vivamente estava ervada aquela seta, qual uma ponta afiada a enterrar-se na substância do espírito, a traspassar-lhe o mais íntimo da alma.”[5]

Em resumo, a transverberação é Deus agindo na alma para purificar o amor humano e levar à paz definitiva com Cristo já nesta terra. Assim conduzida, a alma santificada pode finalmente dizer: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim”[6].

Referências bibliográficas

  1. O Livro da Vida, capítulo 29, n. 13
  2. Chama Viva de Amor, canção II, n. 13. In Obras Completas, volume II, p. 131
  3. Ibidem
  4. Santa Teresinha do Menino Jesus, Obras completas escritos e últimos colóquios. São Paulo: Paulus, 2002. p. 897
  5. Chama Viva de Amor, canção II, n. 9. In Obras Completas, volume II, p. 130
  6. Gl 2, 20

    Padre Paulo Ricardo

“Padre, o que você acha da comunhão aos divorciados que voltaram a casar?”

Um sacerdote responde às dúvidas e perguntas de alguns paroquianos sobre o tema de grande atualidade, à luz do Magistério da Igreja

Por Pe. Antonio Grappone

ROMA, 11 de Setembro de 2014 (Zenit.org) – O divorciados recasados não podem receber a comunhão porque são mais pecadores do que os outros?

Não, o problema é a dimensão pública: o divorciado recasado vive publicamente em contradição com o sacramento do matrimônio. Todos os sacramentos, e a Comunhão em especial, manifestam (tornam pública) a plena adesão à Cristo e à Igreja; o divorciado recasado de fato nega publicamente esta comunhão, independentemente das intenções subjetivas que tenha, porque vive em contradição com o sacramento que ele mesmo, livremente, celebrou: esta contradição depende exclusivamente dos seus comportamentos e não de qualquer ação disciplinar da Igreja. Conceder os sacramentos nestas condições resultaria uma negação da missão salvífica da Igreja, que é necessariamente pública. Porém, isso não exclui de nenhuma forma os divorciados recasados de todos aqueles atos que não envolvam um compromisso público na comunidade cristã, nem constitui um juízo sobre o estado de sua alma.

Portanto, o sacerdote não pode absolver um divorciado recasado que se confessa?

Com certeza deve absolve-lo se o penitente decidiu viver com o novo “cônjuge” como irmão e irmã, não mais como marido e mulher, e isso também com eventuais quedas por fraqueza, porque é a intenção que conta. Além do mais deve ser absolvido também se manifesta sinais de autêntico arrependimento com relação ao segundo casamento, embora ainda não se sinta capaz de tomar a decisão acima, porque está abrindo-se à graça e, portanto, deve ser apoiado. O papel do confessor é importante: por um lado deve avaliar a força do arrependimento, por outro, com sua caridade e uma palavra esclarecedora, pode levar o pecador ao arrependimento. Os santos confessores são capazes de absolver quase sempre, não porque sejam “laxistas”, mas porque sabem suscitar a dor pelos pecados.

Os divorciados que voltaram a casar nunca mais poderão receber a comunhão?

Podem recebe-la se receberam a absolvição sacramental, como nos casos mencionados anteriormente, especialmente quando decidiram viver como irmão e irmã, por amor a Cristo, o que é desejável e totalmente possível com a ajuda da graça. Neste caso, longe de ser raro ou impossível, a sua própria relação se tranquiliza e se tornam um exemplo edificante para os próprios filhos. Para evitar criar confusão entre o povo de Deus, é importante que eles frequentem os sacramentos nas comunidades onde a situação de divorciados recasados não seja conhecida.

O sacerdote pode negar a Comunhão a quem se apresenta publicamente para recebê-la?

Não. Só se nega a Comunhão quando haja um julgamento público que exclui a possibilidade de receber os sacramentos (excomunhão, interdito), e o sacerdote tem certeza de que não tenha sido revogada, ou também quando aquele que se apresenta para receber o faz abertamente para ridicularizar ou como desafio da comunidade cristã. Aproximar-se ou não da Eucaristia, na verdade, depende da consciência de quem comunga: um divorciado casado de novo que não se arrependeu deveria avaliar por ele mesmo a inadequação de receber os sacramentos. O sacerdote não deveria tomar o lugar da consciência dos fieis; não sabe se houve um arrependimento sério (contrição) e de qualquer forma deve evitar ferir publicamente um pessoa, uma vez que resultaria em um dano espiritual maior.

Então, o que pode fazer um sacerdote para evitar que um divorciado recasado não arrependido receba a comunhão?

De momento, nada. Se conhece a pessoa pode, na forma adequada e oportuna, instruí-lo sobre a disciplina da Igreja, que é exercício de misericórdia também quando tem que dizer não.

Que sentido faz a comunhão de um divorciado recasado não arrependido?

Não faz sentido, e é espiritualmente prejudicial. Recebemos os sacramentos para viver como filhos de Deus, na santidade, ou, pelo menos, para irmos naquela direção; não se trata de um direito subjetivo, nem serve para nos confirmar em nossas escolhas, como uma espécie de atestado de boa conduta (“o que faço de errado?”), e muito menos para atender às necessidades “místicas.” Tal atitude desvaloriza os sacramentos, reduzindo a vida cristã à dimensão das misérias humanas e nada mais, e os sacramentos a um “consolo” só psicológico que cobre as feridas sem curá-las: um pietismo ilusório que termina roubando a esperança de uma vida nova.

Então, por que se criou o debate sobre a comunhão para os divorciados recasados?

Porque existem problemas reais. A causa principal deve ser reconhecida no fato incontestável de que estamos celebrando muitos matrimônios nulos: “cerimônias” na igreja, não um verdadeiro sacramento, porque os esposos, que são os celebrantes, muitas vezes, no atual contexto cultural, não amadureceram a consciência mínima do que seja o matrimônio. Bento XVI, em 2011,  apontou este problema, mas até agora foi ignorado. Assim, muitas vezes, tem-se a situação paradoxal de quem se casou na Igreja de forma só aparente e, em seguida, realizou um matrimônio civil, dessa vez sim com as intenções certas, mas, obviamente, sem a forma canônica, portanto, permanecendo excluído dos sacramentos. O recurso aos tribunais eclesiásticos hoje é a única solução, mas não deveria ser o caminho normal, o caminho da maioria! De fato, nesse caso só a lei eclesiástica impede de receber os sacramentos. A forma canônica é uma obrigação introduzida pelo Concílio de Trento para evitar os abusos de então, hoje, porém, não raro, a lei acaba estando em desacordo com a realidade. Por isso é urgente repensar toda a questão.

A luta de Satanás contra os Sacerdotes

Para fazer reinar Jesus Cristo no mundo, nada é mais necessário do que um clero santo, que seja, com o exemplo, com a palavra e com a ciência, guia dos fiéis” [1]. Estas são palavras que os Santos Padres não se cansam de repetir ao orbe católico, desde que foram pronunciadas, pela primeira vez, pelo papa São Pio X. De fato, o testemunho de um bom sacerdote é capaz de arrastar centenas de fiéis à Igreja de Cristo, quer por meio da pregação, quer por meio da administração dos sacramentos, quer por meio da obediência às normas eclesiais, como o celibato.

A missão do sacerdote resume-se àquela regra máxima da Igreja, de que falam os santos: Salus animarum suprema Lex – a lei suprema é a salvação das almas. Por isso o Papa Bento XVI, na proclamação do Ano Sacerdotal, em 2009, exortou o clero católico a redescobrir a dimensão eclesial de seu ministério. Somente na comunhão com a Igreja o sacerdote pode atingir aquela santidade necessária “para fazer reinar Jesus Cristo no mundo”. Explica-nos o Papa Emérito: “a missão é eclesial, porque ninguém se anuncia nem se leva a si mesmo, mas, dentro e através da própria humanidade, cada sacerdote deve estar bem consciente de levar Outro, o próprio Deus, ao mundo” [2].

Essa realidade não é desconhecida pelo diabo, tampouco por aqueles que fazem as suas vezes na terra, disseminando o joio no meio do trigo. Não é para admirar, por conseguinte, que, no combate à Igreja, o primeiro alvo seja o sacerdócio. “Quando se quer destruir a religião” – observava o santo Cura d’Ars –, “começa-se por atacar o padre” [3]. Com efeito, a primeira tentação demoníaca contra os sacerdotes é a de afastá-los da comunhão eclesial, incentivando-os à dissidência, aplaudindo hereges e ridicularizando aqueles que se submetem de bom grado à autoridade do Santo Padre. Trata-se do primeiro non serviam demoníaco: o não à Igreja.

Os argumentos – ou, no caso, as mentiras – são os mesmos de sempre: o celibato é transformado em símbolo de castração, que fere o direito à sexualidade e leva à pedofilia; o hábito eclesiástico é tachado de indumentária antiquada, que afasta o clero do povo; o padre passa a ser somente o “presidente” da celebração; a obediência a Roma é considerada clericalismo; as normas litúrgicas são suprimidas em nome de uma falsa criatividade; o padre, é dito, não pode ficar preso a “regras de orações medievais”; isto, outros reclamam, não está de acordo com o Concílio Vaticano II; o padre não é sacerdote, mas presbítero; ele tem uma mentalidade pré-conciliar etc. Repetidas ad nauseam pela mídia – e por uma porção de maus teólogos que agem em conluio com ela –, essas ideias perniciosas vão aos poucos minando a identidade do sacerdote, até ao ponto de levá-lo a proclamar o segundo non serviam do diabo: o não a Cristo.

Não é preciso gastar muita tinta, porém, para explicar os erros contidos nestes sofismas. Muito mais sabiamente responderam os santos padres – vivendo a sua vocação de maneira exemplar –, como também o Magistério da Igreja – seja nas encíclicas papais, sejo nos outros inúmeros documentos já publicados a esse respeito. O que é preciso ter em conta é que a luta que se trava contra o sacerdócio é, na verdade, uma luta contra a Pessoa de Jesus Cristo. O padre, não nos esqueçamos, é um Alter Christus (Outro Cristo), dado o caráter impresso em sua alma pelo sacramento da ordem. Por isso, é compreensível a raiva do diabo pela castidade dos sacerdotes – “o mais belo ornamento de nossa ordem”, como elogiava São Pio X –, pois ela remete à virgindade de Cristo, que também foi guardada até a morte na cruz [4]. É compreensível o ódio do diabo à batina negra – a “heroica e santa companheira” de Dom Aquino Correa –, porque o luto recorda o sacrifício redentor da cruz, pelo qual a morte foi vencida [5].

O remédio às insinuações diabólicas, por conseguinte, não pode ser outro senão aquele prescrito por Bento XVI, durante o Ano Sacerdotal [6]:

É importante favorecer nos sacerdotes, sobretudo nas jovens gerações, uma correta recepção dos textos do Concílio Ecuménico Vaticano II, interpretados à luz de toda a bagagem doutrinal da Igreja. Parece urgente também a recuperação desta consciência que impele os sacerdotes a estar presentes e ser identificáveis e reconhecíveis quer pelo juízo de fé, quer pelas virtudes pessoais, quer também pelo hábito, nos âmbitos da cultura e da caridade, desde sempre no coração da missão da Igreja.

Enfim, não se há de esquecer a mediação de Nossa Senhora, mãe solícita dos sacerdotes e a inimiga de todas as heresias. Na sua viagem a Fátima, em 2010, o Santo Padre não perdeu a oportunidade de confiar à Virgem, “os filhos no Filho e seus sacerdotes”, consagrando-os ao seu Coração Materno, para que cumprissem fielmente a Vontade do Pai [7]. Neste ato, o Papa Bento XVI ensinava ao clero do mundo inteiro que o melhor caminho de santidade e escudo contra o demônio é a intercessão de Nossa Senhora. É também o ensinamento dum outro padre que, não por acaso, muito se assemelha às palavras de São Pio X, ao início deste texto: “foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por Ela que deve reinar no mundo” [8].

Por Christo Nihil Praeponere

Nossa Senhora do Bom Sucesso

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo Lucas

(Lc 2, 22-40)

Celebramos com muita alegria neste domingo, 02 de fevereiro, quarta semana do Tempo Comum, a festa da apresentação do Senhor. As cenas narradas no Evangelho levam-nos até o Templo Santo de Jerusalém, onde estão reunidos José, Maria e Jesus para a sua apresentação ao Senhor e purificação de sua mãe. A oportunidade, coincidentemente, também nos concede a chance de celebrar alguns dos belíssimos títulos atribuídos à Virgem Santíssima, a saber: Nossa Senhora da Apresentação, Nossa Senhora das Candeias ou Nossa Senhora da Candelária. Neste Testemunho de Fé, optamos por meditar as mensagens de Nossa Senhora do Bom Sucesso, um título que, apesar de não ser tão conhecido quanto os demais, possui em seu núcleo uma mensagem extraordinariamente atual para nossa época[1].

Esse título de Nossa Senhora ficou alguns séculos escondido – cremos firmemente que por providência da Virgem Maria – justamente para que viesse à tona somente em nosso tempo. As mensagens referem-se diretamente aos séculos XIX e XX, períodos em que se destacaram a perseguição à Igreja e os crimes contra a fé. As previsões são realmente espantosas. É impressionante a maneira como Maria aparece, há quatro séculos, na cidade de Quito, Equador, revelando a uma irmã das redondezas os fatos que abalariam a vida dos católicos durante aqueles anos futuros. É verdade que se tratam de revelações privadas e que, por isso, “não pertencem ao depósito da fé”[2]. Nada nos impede de rejeitá-las, uma vez que não têm valor vinculante. Todavia, sob os cuidados do Magistério da Igreja, também somos chamados a “discernir e guardar o que nestas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja.”[3]

De fato, as previsões de Nossa Senhora do Bom Sucesso chegam a nos deixar perplexos, pois praticamente tudo o que se diz nelas já aconteceu ou está acontecendo. A sua meditação, portanto, muito nos interessa porque Maria anuncia para nós uma época em que a fé católica será restaurada, sobretudo em um mundo onde esta mesma fé já não existe mais.

Nossa Senhora do Bom Sucesso apareceu à serva de Deus Madre Mariana de Jesus Torres, uma irmã concepcionista de vida exemplar e verdadeiro modelo de santidade, em 1563, na cidade de Quito, no Equador. Madre Mariana foi desde cedo uma menina de hábitos piedosos. Nascida na Espanha, fez sua primeira comunhão aos nove anos de idade, tendo Cristo aparecido a ela para anunciar-lhe que seria sua esposa. Pouco tempo depois, sua tia, também concepcionista, recebe o convite para formar um convento em Quito, no Equador. Mariana, na época com apenas 12 anos, decide partir juntamente com a tia, a fim de se entregar à vida consagrada. Durante a viagem, no entanto, uma forte tempestade atinge a embarcação, quase lhe impedindo a chegada ao novo continente. Com isso, o demônio mostrava que não estava satisfeito com aquela missão. Já com 19 anos, mergulhada numa intensa vida de oração e penitência, Mariana tem a primeira visão da Virgem Santíssima, que lhe aparece dizendo: “Yo soy la reina de buenas victorias y la madre del buen suceso” (eu sou a rainha das boas vitórias e a mãe do bom sucesso). Dito isso, a Virgem Santíssima lhe revela fatos trágicos sobre o século XX, ponderando que aqueles que a invocarem sob o título de Nossa Senhora do Bom Sucesso terão uma assistência especial do céu.

A vida de Madre Mariana é um compêndio de fenômenos sobrenaturais. Embora não haja espaço para inumerá-los aqui, convém lembrar ao menos alguns casos interessantes como, por exemplo, as suas repetidas mortes e ressurreições. Madre Mariana morreu e ressuscitou duas vezes. E quando da sua derradeira morte, teve o corpo mantido incorrupto, o qual se encontra ainda hoje no Convento das Concepcionistas. Salta aos olhos a santidade dessa mulher. Somente o seu testemunho seria o suficiente para referendar a veracidade das mensagens de Nossa Senhora do Bom Sucesso, não fossem as incríveis evidências dadas por Maria nesta aparição, que já o fazem.

A mensagem de Nossa Senhora do Bom Sucesso fala sobre muitas coisas, inclusive da crise da Igreja nos dias de hoje. Para se ter uma ideia de seu conteúdo, vejamos o que diz a quarta aparição, do dia 21 de janeiro de 1610: “Ai dos meninos deste tempo! Dificilmente receberão o sacramento do batismo, nem o da confirmação.” Nossa Senhora está a falar sobre o futuro das escolas católicas, sobre as quais se abaterá uma seita contra a educação religiosa e moral das crianças, tendo por apoio “pessoas autorizadas”, isto é, gente de dentro da Igreja. Ainda mais: “o mesmo sucederá com a sagrada Comunhão” – diz a Virgem à Madre Mariana. Ela continua:

[…] Mas, ai! Quanto sinto ao te manifestar que haverá muitos e enormes sacrilégios, públicos e também ocultos, de profanações à sagrada Eucaristia! Muitas vezes, nessa época, os inimigos de Jesus Cristo, instigados pelo demônio, roubarão nas cidades as hóstias consagradas, com o único fim de profanar as eucarísticas espécies! Meu Filho santíssimo se verá jogado ao chão e pisoteado por pés imundos.

Quanto ao sacramento do matrimônio, as previsões não são menos chocantes. Pelo contrário, causa-nos tremor tamanha veracidade do que se diz nelas:

[…] Quanto ao sacramento do matrimônio, que simboliza a união de Cristo com a Igreja, será atacado e profanado em toda a extensão da palavra. O maçonismo, que então reinará imporá leis iníquas com o objetivo de extinguir esse sacramento, facilitando a todos o viverem mal, propagando-se a geração de filhos malnascidos, sem a bênção da Igreja. Irá decaindo rapidamente o espírito cristão, apagar-se-á a luz preciosa da fé até chegar a uma quase total e geral corrupção de costumes. Acrescidos ainda os efeitos da educação laica, isto será motivo para escassearem as vocações sacerdotais e religiosas.

Acaso podemos negar a verdade contida nestas poucas linhas ditadas por Nossa Senhora? Trata-se verdadeiramente de um script de nossa época; período em que, de fato, como lamentava-se Bento XVI aos bispos do Brasil, em 2007, “a vida social está atravessando momentos de confusão desnorteadora”[4]. A começar pela estrutura familiar, a qual se ataca impunemente, “iniciando-se por fazer concessões diante de pressões capazes de incidir negativamente sobre os processos legislativos”, vemos o avanço dos crimes contra a vida e contra a dignidade da pessoa humana “em nome dos direitos da liberdade individual”, como se já não bastasse a propagação da “ferida do divórcio e das uniões livres”[5]. De igual modo, dentro do sacerdócio, Nossa Senhora traça o terrível panorama da crise da pedofilia, relatando a astúcia do demônio em fazer com que muitos se percam e caiam em desgraça, a fim de escandalizar cristãos e não-cristãos, fazendo “recair sobre todos os sacerdotes o ódio dos maus cristãos e dos inimigos da Igreja católica apostólica romana”. Com efeito, a batina dos bons sacerdotes será manchada pelo pecado dos maus cristãos, de sorte que isso atrairá grandes sofrimentos ao clero santo e, em última análise, ao Papa. Diz a profecia:

[…] Com este aparente triunfo de Satanás, atrairão sofrimentos enormes aos bons pastores da Igreja, e à excelente maioria de bons sacerdotes e ao Pastor supremo e Vigário de Cristo na terra, que, prisioneiro no Vaticano, derramará secretas e amargas lágrimas na presença de seu Deus e Senhor, pedindo luz, santidade e perfeição para todo o clero do universo, do qual é rei e pai.

Neste sentido, vemos uma coincidência entre as mensagens de Quito e de Fátima, sobretudo no que diz respeito à figura do Santo Padre, perfeitamente aplicável à de Bento XVI, que tanto sofreu e foi injustiçado por esses crimes. Mas as coisas não param por aí. A 2 de fevereiro de 1634, Nossa Senhora faz nova aparição à irmã, enquanto esta rezava numa capela. Madre Mariana vê a luz do sacrário se apagar, e Nossa Senhora diz:

[…] A lamparina que arde diante do altar e que viste apagar-se, possui muitos significados”.

O primeiro é que no fim do século XIX, avançando por grande parte do século XX, várias heresias se propagarão nestas terras, então, República livre. E com o domínio delas, apagar-se-á nas almas a luz preciosa da fé, pela quase total corrupção dos costumes. Nesse período haverá grandes calamidades físicas e morais, públicas e privadas.

Essas heresias, por sua vez, trarão grandes dificuldades, perseguições e, em alguns casos, até martírios ao pequeno grupo de fiéis católicos que preservarão os ensinamentos da Santa Igreja.

Diante desses fatos, podemos ser tentados a nos desesperarmos. Mas essa não deve ser a nossa atitude. A promessa de Nossa Senhora vai além desse “vale de lágrimas”, e isso nos motiva a ter esperanças na promessa de Cristo de que “as portas do inferno não prevalecerão”. Nossa Senhora também previu boas coisas: o dogma da Imaculada Conceição, o dogma da infalibilidade papal e o dogma de sua assunção aos céus. Toda essa crise passará, pois também ela estava no coração de Deus. E sendo Ele o princípio e o fim de todas as coisas, pode muito bem aproveitar da maldade que há no mundo para provar que é Senhor do Céu e da Terra, criando realidades ainda melhores e mais belas que as anteriores, pois “onde o pecado abundou, superabundou a graça” (Cf. Rm 5, 20).

Nossa Senhora anuncia a vinda de um prelado que guiará o povo por entre essas duras angústias. Todavia, a tibieza com que a Igreja estará submetida atrasará a chegada desse novo pastor, o que causará grandes sofrimentos. Por outro lado, ela também nos consola: “Será chegada, então, a minha hora em que eu, de forma maravilhosa, destronarei o soberbo e maldito Satanás, calcando-o debaixo dos meus pés e acorrentando-o no abismo infernal. Assim a Igreja e a Pátria estarão, por fim, livres de sua cruel tirania”.

Eis a providência divina. Seremos salvos pela graça de Deus, operada por mediação da Virgem Santíssima. Mas, enquanto esse dia não chega, somos chamados a sair da tibieza e avançar na busca pela santidade.

Busquemos o triunfo do Imaculado Coração de Maria, busquemos a graça de Nosso Bom Deus.

Amém!

Arquivo para baixar

  1. Profecias de Nossa Senhora do Bom Sucesso (Formato Word)
  2. Profecias de Nossa Senhora do Bom Sucesso (Formato PDF)

Referências:

  1. A fim de possibilitar o acesso a todo o conteúdo dessas profecias, disponibilizamos para download dois links com um excerto do livro Vida admirável da Rev. da Madre Mariana de Jesus Torres mística confidente de Nossa Senhora do Bom Sucesso.
  2. Cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 67
  3. Ibidem
  4. Bento XVI, Encontro e Celebração das Vésperas com os Bispos do Brasil, (11 de maio de 2007), n. 3
  5. Ibide

Quatro Constituições Conciliares (Parte II)

Mons. Vitaliano explica as quatro Constituições do Concílio Vaticano II

CRATO, segunda-feira, 24 de setembro de 2012 (ZENIT.org) – Publicamos a seguir a segunda parte do artigo que Mons. Vitaliano escreveu na sexta-feira, sobre as quatro Constituições do Vaticano II. Para ler a primeira parte clique aqui (http://www.zenit.org/article-31359?l=portuguese)

Constituição Dogmática sobre a Revelação: Dei Verbum, 18 de Novembro de 1965.

Documento de fundamental importância para a compreensão da Palavra de Deus e da relação com o Magistério da Igreja. Deus tem falado aos homens. O Cristo, Palavra (Verbo) de Deus, por quem todas as coisas foram criadas, é a plenitude da Revelação. A Constituição mostra como na Sagrada Escritura se encontra a Palavra de Deus fixada por escrito sob a inspiração do Espírito Santo, enquanto que a Palavra de Deus, confiada por Cristo aos Apóstolos, é transmitida pela Tradição integralmente aos sucessores dos apóstolos. A Hierarquia tem a tarefa de interpretar autenticamente a Palavra de Deus. Este aspecto é analisado no segundo capítulo (n. 7-10). O problema que mais ocupou a Assembleia Conciliar foi exatamente o das fontes da Revelação: só a Sagrada Escritura ou também a Tradição (a interpretação da Igreja ao longo dos séculos). O texto estabeleceu que existem duas fontes da Revelação: a S. Escritura e a Tradição da Igreja. Alguns passos fundamentais: “Relação entre a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura. A Sagrada Tradição, portanto, e a Sagrada Escritura estão intimamente unidas e compenetradas entre si. Com efeito, decorrente ambas da mesma fonte divina, fazem como que uma só coisa e tendem ao mesmo fim. A Sagrada Escritura é a palavra de Deus enquanto que foi escrita por inspiração do Espírito Santo; a Sagrada Tradição, por sua vez transmite integralmente aos sucessores dos Apóstolos a palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos Apóstolos…  Disso resulta que a Igreja não tira só da Sagrada Escritura a sua certeza a respeito de todas as coisas reveladas. Por isso, ambas devem ser recebidas e veneradas com igual espírito de piedade e reverência (n. 9). Relação de uma e outra com a Igreja e com o Magistério eclesiástico.  A sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito sagrado da palavra de Deus, confiado à Igreja…Porém, o encargo de interpretar autênticamente a palavra de Deus escrita ou contida na Tradição, foi confiado só ao magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo. Este magistério não está acima da palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido… É claro, portanto, que a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja, segundo o sapientíssimo desígnio de Deus, de tal maneira se unem e se associam que um sem o outro não se mantém, e todos juntos, cada um a seu modo, sob a ação do mesmo Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas”.  Finalmente, a Constituição enfatiza o papel fundamental que deve ter as Escrituras em toda a vida da Igreja.

Constituição sobre a Igreja no mundo do nosso tempo: Gaudium et Spes, 7 de Dezembro de 1965.

Esta Constituição está formada por uma primeira parte sobre a vocação do homem, e por uma segunda sobre alguns problemas mais urgentes. Uma introdução descreve primeiramente a condição do mundo de hoje, com as suas profundas transformações, as suas esperanças e os seus medos. A Igreja quer captar tudo o que seja sinal da presença e da vontade de Deus nos acontecimentos, nas exigências e aspirações dos homens. A primeira parte responde a algumas perguntas: o que a Igreja acha da dignidade do homem, o que se deve recomendar para a edificação da sociedade moderna, qual é o significado último da atividade humana. Finalmente, no último capítulo discute o papel que a Igreja quer desempenhar no mundo contemporâneo.

A segunda parte estuda sucessivamente a dignidade do matrimônio e da família, a promoção da cultura, da vida econômica e social, a vida da comunidade política, e por fim a paz e a promoção da comunidade das nações.

A Igreja em tudo isso, ainda que consciente de suas limitações, propõe-se a esta finalidade: ajudar com a sua luz onde for possível; ajudar com a sua esperança; a sua mão na mão dos homens, abertamente, para salvar o homem.

* Mons. Vitaliano Mattioli, nasceu em Roma em 1938, realizou estudos clássicos, filosóficos e jurídicos. Foi professor na Universidade Urbaniana e na Escola Clássica Apollinaire de Roma e Redator da revista “Palestra del Clero”. Atualmente é missionário Fidei Donum na diocese de Crato, no Brasil.

[Trad. TS]

Quatro constituições conciliares (Parte I)

Mons. Vitaliano explica as quatro Constituições do Concílio Vaticano II

Mons. Vitaliano Mattioli*

CRATO, sexta-feira, 21 de setembro de 2012 (ZENIT.org) – O Papa Bento XVI na Missa celebrada em Frascati (Itália) no dia 15 de julho de 2012 durante a homilia se expressou assim: “Os Documentos do Concílio contém uma riqueza enorme para a formação da nossa consciência”.

Com certeza o Concílio foi uma grande graça para a Igreja, mas ao longo destes 50 anos desde a sua abertura, nem sempre se ouviram vozes de acordo sobre a sua interpretação e atuação. Mais de uma vez o Vaticano foi apresentado como  uma linha de demarcação entre o pré e o pós-Concílio, ou seja numa linha de descontinuidade. Nada podia estar mais errado. Por isso Bento XVI poucos meses depois da sua eleição pontifícia considerou oportuno chamar a atenção sobre a correta interpretação com que se deve ler este Concílio. Aproveitou a ocasião de cumprimentos de Natal apresentando-lhes o Sagrado Colégio dos Cardeais, no dia 22 de dezembro de 2005.

Depois da primeira parte, começou a falar sobre o Concílio. Assim se expressou: “O último acontecimento deste ano, sobre o qual gostaria de me deter nesta ocasião, é a celebração do encerramento do Concílio Vaticano II, há quarenta anos. Tal memória suscita a interrogação: qual foi o resultado do Concílio? Foi recebido de modo correcto? O que, na recepção do Concílio, foi bom, o que foi insuficiente ou errado? O que ainda deve ser feito? Ninguém pode negar que, em vastas partes da Igreja, a recepção do Concílio teve lugar de modo bastante difícil… Surge a pergunta: por que a recepção do Concílio, em grandes partes da Igreja, até agora teve lugar de modo tão difícil? Pois bem, tudo depende da justa interpretação do Concílio ou como diríamos hoje da sua correcta hermenêutica, da justa chave de leitura e de aplicação. Os problemas da recepção derivaram do facto de que duas hermenêuticas contrárias se embateram e disputaram entre si. Uma causou confusão, a outra, silenciosamente mas de modo cada vez mais visível, produziu e produz frutos. Por um lado, existe uma interpretação que gostaria de definir “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”… Por outro lado, há a “hermenêutica da reforma”, da renovação na continuidade do único sujeito-Igreja, que o Senhor nos concedeu; é um sujeito que cresce no tempo e se desenvolve, permanecendo porém sempre o mesmo, único sujeito do Povo de Deus a caminho. A hermenêutica da descontinuidade corre o risco de terminar numa ruptura entre a Igreja pré-conciliar e a Igreja pós-conciliar”.

Para facilitar “Hermenêutica da Reforma,” Eu quero apresentar, ainda que de forma condensada, as 4 constituições conciliares. Em outra ocasião escrevi sobre os 9 documentos, clique aqui para ler.

A Constituição sobre a Sagrada Liturgia: Sacrosanctum Concilium, 4 de dezembro de 1963

A Constituição se limitou a definir as orientações para a reforma, cuja execução foi confiada em grande parte às Conferências episcopais (esta é a primeira atribuição de uma competência jurídica dada às Conferências Episcopais pelo Concílio). Esta Constituição fixa os princípios gerais da reforma e apresenta um caráter doutrinal. Faz ver como a liturgia é “o cume ao qual tenda a ação da Igreja, e ao mesmo tempo a fonte de onde mana a sua força” (n. 10). Fala sobre a participação ativa dos leigos: Discussão sobre a participação ativa dos leigos: “Os cristãos não assistam a este mistério de fé como estranhos ou expectadores mudos, mas participem na ação sagrada, consciente, piedosa e ativamente” (n. 48). Desenvolve claramente uma noção de Povo de Deus, no meio da qual a Hierarquia tem uma função de serviço. O Documento fala também da música sagrada, dos sacramentos, da liturgia das Horas, do ano litúrgico e da reforma do calendário. Paulo VI com o Motu Próprio ‘Sacram Liturgia’ (25 de Janeiro de 1964) deu início a uma primeira série de reformas. Com a Constituição Apostólica “Missale Romanum” (3 de Abril de 1969) entra em vigor a “Instrução Geral do Missal Romano e Introdução ao Lecionário”. Paulo VI, com a Carta Apostólica “Mysterii Paschalis” estabeleceu as normas para a reforma do calendário e do ano litúrgico.

A Constituição Dogmática sobre a Igreja: Lumen Gentium, 21 de novembro de 1964.

Este documento envolve toda a Igreja na sua estrutura e na sua atividade. O primeiro capítulo fala do mistério da Igreja que “é, no Cristo, como que o Sacramento, ou seja, o sinal e o meio da união íntima com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (n.1, e descreve a relação da Igreja de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. O segundo capítulo apresenta a Igreja como Povo de Deus, constituído pelo Batismo e do qual a cabeça é Cristo, a caminho através da história e destinado a reunir todos os homens. Lembra os laços entre a Igreja e os Cristãos não católicos, seus relacionamentos com os não-cristãos e afirma os caráter missionário do Povo de Deus. Apresenta em seguida os membros do Povo de Deus: a hieraquia (bispos, sacerdotes e diáconos) e os leigos. O terceiro, sobre a hierarquia, afirma a colegialidade do episcopado (os bispos sucessores dos apóstolos, ao redor do Papa sucessor de Pedro, seu chefe, receberam de Cristo a responsabilidade da Igreja universal) e decide que os Episcopados locais podem restaurar o diaconado como uma Ordem permanente, e conferir esta Ordem a homens casados. O capítulo quarto, sobre os leigos, mostra a eles a participação na vida e na missão da Igreja (culto, proclamação do Evangelho, orientação para o Cristo da vida e das atividades de toda a humanidade). O quinto capítulo fala da vocação à santidade por parte de todos os membros do Povo de Deus. O capítulo sexto, sobre os religiosos, explica a função da vida religiosa em relação à vida espiritual de todo o povo cristão. O sétimo capítulo apresenta a Igreja, peregrina na terra, para a vida eterna, em comunhão com a Igreja celeste. Finalmente o capítulo oitavo apresenta a função materna da Virgem Maria no mistério de Cristo e da Igreja. Está em sintonia com este texto que Paulo VI, no dia 21 de novembro de 1954, deu à Virgem o título de Mãe da Igreja, porque ela, em quanto mãe de Cristo, é também mãe de todo o Povo de Deus, seja dos fiéis como dos pastores.

Ao documento foi adicionado por vontade explícita de Paulo VI, uma “Nota Explicativa Prévia”, contendo alguns fundamentos sobre o texto para evitar interpretações erradas. Esta Nota deve ser considerada parte integral do mesmo Documento.

A segunda parte será publicada no dia 24 de Setembro.

Trad. TS

História do Concílio Vaticano II (Parte II)

Anunciado pelo Papa João XXIII no dia 25 de janeiro de 1959

Mons. Vitaliano Mattioli*

CRATO, sexta-feira, 17 de agosto de 2012 (ZENIT.org) – A quarta sessão: aberta no dia 14 de Setembro de 1965, terminou no dia 8 de dezembro de 1965, festa da Imaculada Conceição.

No discurso de abertura caracterizou dessa forma o Concílio: “Não parece difícil dar ao nosso Concílio Ecuménico o caráter de um ato de amor: de um grande e tríplice ato de amor: para com Deus, para com a igreja, para com a humanidade”.

Nesta sessão, no dia 4 de outubro de 1965, Paulo VI visitou a Assembléia das Nações Unidas em Nova York, oficialmente convidado para celebrar o vigésimo aniversário da ONU.

No dia 18 de novembro de 1965 Paulo VI, perto do encerramento do Concílio deu um discurso falando da atitude que se deveria ter no pós-concílio, quase que prevendo a confusão que aconteceria em seguida.  “Veneráveis Irmãos, não devemos tanto prestar atenção a essas reformas necessárias, mas sim àquelas morais e espirituais, que nos façam mais em conformidade com o nosso Divino Mestre e mais aptos para os deveres da nossa respectiva vocação. Devemos principalmente esperar isso: a nossa efetiva santificação e a real capacidade de difundir entre os homens do nosso tempo a mensagem evangélica”.

No dia 7 de dezembro de 1965, véspera do encerramento, celebrou-se a Santa Missa da última sessão. Paulo VI na homilia resumiu dessa forma todo o Concílio: “No rosto de cada homem deve-se ver o rosto de Cristo, e neles, aquele do Pai Celestial. Para conhecer a Deus é preciso conhecer o homem. Amar a Deus para amar o homem. Todo este Concílio resume-se no seu significado conclusivo religioso, como um poderoso convite à humanidade de hoje a encontrar, através do amor fraterno, a Deus”.

No final da celebração eucarística aconteceu um fato importante. Paulo VI com a Carta Apostólica Ambulate in Dilectione, aboliu a excomunhão imposta no dia 16 de julho de 1054 ao Patriarca de Constantinopla Miguel Cerulário. Ao mesmo tempo em Constantinopla (Istambul), o Patriarca Atenágoras, revogava a excomunhão do Seu predecessor ao Papa Leão IX. Assim a Carta de Paulo VI: “Queremos eliminar da memória da Igreja a sentença de excomunhão emitida então, tirá-la do caminho, e a queremos enterrada no esquecimento e apagada. Temos o prazer de que nos seja dada a oportunidade de realizar este ato de caridade fraterna aqui em Roma, ao lado do túmulo do Apóstolo Pedro, no mesmo dia em que o mesmo acontece em Constantinopla (Istambul), que é chamada de Nova Roma.” O Card. Johannes Willebrands leu a Declaração Conjunta da Igreja Católica Romana e da Igreja Ortodoxa de Constantinopla. Logo depois, o Cardeal Agostino Bea leu a carta citada Ambulate in Dilectione.

Os documentos conciliares são:

Quatro Constituições:

Sacrosanctum Concilium (sobre a Liturgia), 4 de dezembro de 1963 (2178 eleitores, 2159 placet)

Lumen Gentium (sobre a Igreja), 21 de novembro de 1964 (2145 eleitores, 1921 placet)

Dei Verbum (sobre a Revelação Divina), 18 de novembro de 1965 (2350 eleitores,  2344 placet)

Gaudium et Spes (sobre a Igreja no Mundo contemporâneo), 7 de dezembro de 1965 (2373 eleitores, 2309 placet)

Nove Decretos:

Inter Mirifica (sobre as ferramentas da comunicação social), 4 de dezembro de 1963 (2124 eleitores, 1960 placet)

Orientalium Ecclesiarum (sobre as Igrejas Orientais católicas), 21 de novembro de 1964 (2149 eleitores, 2110 placet)

Unitatis Redintegratio (sobre o Ecumenismo), 21 de novembro de 1964 (2148 eleitores, 2137 placet)

Christus Dominus (sobre os bispos), 28 de outubro de 1965 (2322 eleitores, 2319 placet)

Perfectae Caritatis (sobre os religiosos) 28 de outubro de 1965 (2325 eleitores, 2321 placet)

Optatam totius (sobre a formação sacerdotal) 28 de outubro de 1965 (2321 eleitores, 2318 placet)

Apostolicam Actuositatem (sobre o apostolado dos Leigos) 18 de novembro de 1965 (2342 eleitores, 2340 placet)

Ad Gentes (sobre a atividade missionária), 7 de dezembro de 1965 (2399 eleitores, 2394 placet)

Presbyterorum Ordinis (sobre o ministério e a vida dos Presbíteros), 7 de dezembro de 1965 (2394 eleitores, 2390 placet)

Três declarações:

Gravissimum Educationis (sobre a educação cristã), 28 de outubro de 1965 (2096 eleitores, 1912 placet)

Nostra Aetate (sobre a relação com as Religiões não-cristãs), 28 de outubro de 1965 (2312 eleitores, 2221 placet)

Dignitatis Humanae (sobre a liberdade religiosa), 7 de dezembro de 1965 (2386 eleitores, 2308 placet)

Em 1966, o jornalista italiano Alberto Cavallaria escreveu em um livro-entrevista: “O verdadeiro significado do Concílio Vaticano II só será reconhecido depois de muitas décadas e toda conclusão rígida torna-se imprudente” (Il Vaticano che cambia, Mondadori, p. 27).

Hoje, após 50 anos desde o início do Concílio, essa reflexão aparece verdadeira.

(Para ler a primeira parte do artigo clique aqui)

* Mons. Vitaliano Mattioli, nasceu em Roma em 1938, realizou estudos clássicos, filosóficos e jurídicos. Foi professor na Universidade Urbaniana e na Escola Clássica Apollinaire de Roma e Redator da revista “Palestra del Clero”. Atualmente é missionário Fidei Donum na diocese de Crato, no Brasil.

[Tradução do Italiano por Thácio Siqueira]

História do Concílio Vaticano II (Parte I)

Anunciado pelo Papa João XXIII no dia 25 de janeiro de 1959

Mons. Vitaliano Mattioli*

Em 25 de janeiro de 1959 o Papa João XXIII, depois de um pontifical solene na Basílica de São Paulo, anunciou aos Cardeais o projeto de realizar um novo Concílio.

A surpresa foi grande porque João XXIII tinha sido eleito Papa em 28 de outubro do ano anterior.

Mais tarde soube-se que já o seu predecessor, Pio XII, teve essa ideia e, em segredo, começou os trabalhos preparatórios. Mas depois pensou que o tempo ainda não estava maduro.

João XXIII começou os preparativos no mês de maio seguinte constituindo a Pontifícia Comissão Antepreparatória. Nomeou Mons. Pericle Felici secretário da mesma.

Em junho de 1960 com o Motu proprio Superno Dei  instituiu as 11 Comissões preparatórias: teologia, bispos e governo das dioceses, disciplina do clero e do povo cristão, religiosos, sacramentos, liturgia, seminários, igrejas orientais, missões, leigos.

Finalmente no dia 11 de outubro de 1962 foi aberto oficialmente o novo Concílio. O Papa escolheu esta data porque, então, nesse dia celebrava-se a festa de Maria, Teothokos, Mãe de Deus. De tal forma manifestou a intenção de colocar o desempenho do Concílio sob a proteção de Maria.

O discurso de Santa Missa de abertura, Gaudet Mater Ecclesia, apontou as diretrizes do Concílio e motivou a oportunidade de celebrar o novo Concílio. Disse que o objetivo principal do Concílio deve ser a apresentação, defesa e difusão do sagrado depósito da doutrina cristã: “5.1. O que mais interessa para o Concílio é que o sagrado depósito da doutrina cristã seja custodiado e ensinado da forma mais eficaz. Tal doutrina abraça o homem integral, composto de alma e de corpo, e a nós, que moramos nessa terra, nos manda buscar como peregrinos a pátria celeste … 2. O vigésimo primeiro Concílio Ecumênico … quer transmitir de forma integral, não falseada, não em parte, a doutrina Católica”.

Em seguida, se move sobre o modo de se comportar da Igreja em torno aos erros doutrinários: “Abrindo o Concílio Ecumênico Vaticano II, é claro mais do que nunca que a verdade do Senhor permanece para sempre. 2. Não houve tempo em que a Igreja não se opôs a estes erros; muitas vezes também os condenou, e as vezes com a maior severidade. Quanto ao tempo presente, a Esposa de Cristo prefere usar o remédio da misericórdia ao invés de usar as armas do rigor; pensa que deva-se atender as necessidades de hoje, expondo mais claramente o valor do seu ensino e não condenando.

O discurso de abertura termina expressando o desejo de promover a unidade na família cristã e humana porque: “Infelizmente toda a família cristã ainda não conseguiu plenamente essa unidade visível na verdade.”

A primeira sessão terminou no dia 8 de dezembro de 1962. Os trabalhos foram atualizados pelo mês de setembro do ano seguinte.

Enquanto isso, no dia 3 de junho de 1963 o Papa João XXIII morreu. Automaticamente com a morte do Papa, o Concílio foi suspenso. Corresponde ao sucessor continuá-lo ou não.

O novo Papa eleito no dia 21 de junho foi Giovanni Battista Montini, que tomou o nome de Paulo VI. Ele expressou imediatamente o desejo de continuar o Concílio.

A segunda sessão foi aberta no dia 29 de setembro de 1963 e terminou no dia 4 de dezembro de 1963.

Em seu discurso de abertura, Paulo VI apresentou os quatro objetivos do Concílio: “Resumiremos em quatro pontos, que são: a definição ou, se preferir, a consciência de Igreja, a sua reforma, a restauração da unidade entre todos os cristãos e o diálogo da Igreja com os homens contemporâneos”.

Em janeiro de 1964 Paulo VI fez a histórica visita à Terra Santa seja para retornar às origens do cristianismo, como para reacender as relações entre a religião hebraica e o Estado de Israel, ainda não reconhecido oficialmente pela Santa Sé. Mas também para fazer novas  alianças com a Igreja Ortodoxa. Comovente e único na história anterior foi o encontro e o abraço em Jerusalém entre Paulo VI e Atenágoras, Patriarca de Constantinopla.

“A terceira sessão foi a do 14 de setembro de 1964 a 21 de novembro. Em seu discurso de encerramento, Paulo VI proclamou Maria: Mãe da Igreja: “Por esta razão, parece-nos necessário que nesta sessão pública anunciemos publicamente um título com o qual seja honrada a Beata Virgem Maria, que foi solicitado por diversas partes do mundo católico e nos é especialmente caro e aceitável, porque com admirável síntese expressa a posição privilegiada que na Igreja este Concílio reconheceu ser própria da Mãe de Deus.

Por isso para a glória da Beata Virgem e para a nossa consolação declaramos Maria Santíssima Mãe da Igreja, ou seja de todo o povo cristão, seja dos fieis que dos Pastores, que a chamamos Mãe amadíssima; e estabelecemos que com este título todo o povo cristão a partir de agora honre ainda mais a Mãe de Deus e lhe dirija súplicas”.

(Para ler o primeiro artigo sobre o Concilio acesse aqui. Publicaremos a segunda parte desta matéria amanhã, 17 de agosto)

* Mons. Vitaliano Mattioli, nasceu em Roma em 1938, realizou estudos clássicos, filosóficos e jurídicos. Foi professor na Universidade Urbaniana e na Escola Clássica Apollinaire de Roma e Redator da revista “Palestra del Clero”. Atualmente é missionário Fidei Donum na diocese de Crato, no Brasil.

[Tradução do Italiano por Thácio Siqueira]