Oito dias de indulgência

Solícita pelos que já morreram, a Igreja nos concede de hoje até o dia 8 de novembro a oportunidade de sufragar, com uma indulgência plenária por dia, as benditas almas do Purgatório.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
(Lc 13, 31-35)

Naquela mesma hora, alguns fariseus chegaram perto de Jesus para lhe dizer: “Parte, some daqui, porque Herodes quer matar-te”. Ele respondeu: “Ide dizer a essa raposa que eu fico expulsando demônios e curando, hoje e amanhã; e no terceiro dia levarei a cabo a minha obra. Entretanto, devo continuar meu caminho hoje, amanhã e no dia seguinte, porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os mensageiros de Deus, quantas vezes quis reunir teus filhos, como a galinha a sua ninhada sob suas asas… e não o quiseste. Eis que vossa casa será deixada deserta para vós. Sim, eu vos garanto: não me vereis mais até (o tempo em) que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor!”

Hoje, dia 1.º de novembro, a Igreja celebra ao redor do mundo inteiro a solenidade de todos os santos. Aqui no Brasil, contudo, a celebração é transferida para o domingo seguinte, para facilitar a participação dos fiéis na Santa Missa. Em todo caso, a Igreja nos concede a partir de hoje um período de oito dias para lucrarmos uma série de indulgências plenárias em sufrágio das almas dos fiéis falecidos. Lembremos, antes de tudo, que condições impõe a Igreja para que possamos obter qualquer indulgência plenária: a) em primeiro lugar, é preciso confessar-se, sendo que uma só confissão basta para esses oito dias, a não ser que se cometa entrementes algum pecado mortal; b) em segundo, é necessário receber a Sagrada Comunhão; c) por fim, deve-se rezar pelas intenções do Santo Padre, bastando para isso recitar um Pai-Nosso e uma Ave-Maria. Lembremos ainda que só se pode ganhar uma única indulgência plenária por dia, de sorte que para lucrar diversas indulgências plenárias se requerem, para cada uma delas, uma Comunhão distinta e uma nova oração nas intenções do Sumo Pontífice. Cumpridas estas condições, teremos de 1 a 8 de novembro a oportunidade de obter uma indulgência plenária, aplicável apenas às almas do Purgatório, sempre que visitarmos devotamente um cemitério e rezarmos, mesmo em espírito, pelos defuntos. Não é necessário, além disso, que a pessoa pela qual quisermos rezar esteja enterrada no cemitério visitado. Vale lembrar, por fim, que no dia de 2 novembro, comemoração dos fiéis defuntos, a Igreja não nos obriga a visitar nenhum cemitério: trata-se de um piedoso costume, mas a norma estabelece apenas que, neste, é suficiente cumprir as condições de costume e visitar piedosamente uma igreja ou oratório para receber a indulgência [1].

Referências

  1. Cf. Manual das Indulgências. Trad. port. da CNBB, 1986, nn. 13 e 67.

Viver mais alguns anos ou ir para o Purgatório?

Ressuscitado milagrosamente por um santo, este homem preferiu voltar ao Purgatório a viver novamente sobre a terra. A razão? Nesta vida estamos expostos ao perigo de nos perdermos; no Purgatório, não mais.

Em meio aos mais intensos sofrimentos, as almas do Purgatório vivem contentes, e isso não se pode explicar senão pelas divinas consolações que o Espírito Santo lhes concede. Esse divino Espírito, por meio da fé, da esperança e da caridade, dispõe-nas como a uma pessoa doente que tem de se submeter a um tratamento muito doloroso, cujo efeito, todavia, é restaurar-lhe completamente a saúde. Essa pessoa enferma sofre, mas ama o seu sofrimento, pois é um sofrimento que a salva.

O Espírito Santo Consolador dá um contentamento similar às santas almas. Disso nós temos um impressionante exemplo na história de um homem, chamado Pedro de Piotravin, ressuscitado dos mortos por Santo Estanislau da Cracóvia, e que preferiu voltar ao Purgatório a viver novamente sobre a terra [1].

O aclamado milagre dessa ressurreição deu-se no ano de 1070, e é assim relatado nos Acta Santorum, em 7 de maio [2].

Santo Estanislau era bispo de Cracóvia quando o duque Boleslau II governava a Polônia. O santo bispo não deixava de lembrar o príncipe de seus deveres, os quais, no entanto, ele escandalosamente violava diante de todo o povo.

Como se irritasse com o santo destemor do prelado, Boleslau decidiu vingar-se dele, levantando contra o bispo os herdeiros de um certo Pedro de Piotravin, que morrera três anos antes, tendo vendido uma porção de terra para a igreja da Cracóvia. Os herdeiros acusaram o santo de ter se apossado indevidamente do terreno, sem tê-lo pagado ao dono. Estanislau declarou que havia pagado pela terra, mas, como as testemunhas que deviam defendê-lo tinham sido ou subornadas ou intimidadas, o bispo foi denunciado como usurpador da propriedade de outrem e condenado a restituir a terra.

Vendo que nada podia esperar da justiça humana, o santo bispo elevou então o seu coração a Deus, de quem recebeu uma inspiração repentina. Ele pediu um prazo de três dias, prometendo fazer Pedro de Piotravin aparecer pessoalmente para atestar a aquisição legal e o pagamento do terreno. O tempo foi-lhe concedido como escárnio.

Destaque de uma pintura de Bernardino Cervi retratando o Purgatório (1625).

O santo jejuou, fez vigílias e suplicou a Deus que defendesse sua causa. No terceiro dia, depois de haver celebrado a Santa Missa, ele saiu, acompanhado de seu clero e de muitos dos fiéis, ao lugar onde Pedro fora enterrado. A suas ordens o túmulo foi aberto, no qual nada havia senão ossos. Ele os tocou, então, com seu báculo e em nome daquele que é a ressurreição e a vida, ordenou ao homem morto que se levantasse. Subitamente os ossos se reuniram, revestiram-se de carne e, à vista do povo estupefato, o homem morto foi visto tomando o bispo pela mão e caminhando rumo ao tribunal.

Boleslau, com sua corte e uma imensa multidão de pessoas, estava esperando o resultado com ansiosa expectativa. “Olhai para Pedro”, disse o santo a Boleslau. “Ele veio, príncipe, para dar testemunho diante de vós. Interrogai-o, ele vos responderá”. Impossível era descrever o estupor do duque, de seus conselheiros e de toda a assembleia ali reunida. Pedro afirmou que tinha recebido o pagamento pela terra; voltando-se para seus herdeiros, ele repreendeu-os por ter acusado injustamente o santo prelado; e exortou-os, por fim, a fazer penitência por um pecado tão grave. Foi assim que a iniquidade, já estimando seu sucesso, foi confundida.

Eis que se dá, então, a circunstância que diz respeito ao nosso assunto, e à qual gostaríamos de nos referir. Desejando completar esse grande milagre para a glória de Deus, Estanislau propôs ao falecido que, se ele desejasse viver mais alguns anos, ele obter-lhe-ia esse favor da parte de Deus. Mas Pedro replicou que não tinha tal desejo. Ele estava no Purgatório, mas preferiria retornar para lá imediatamente e suportar-lhe as penas do que expor-se à condenação nesta vida terrestre. O homem só suplicou ao santo que implorasse de Deus abreviar o tempo de seus sofrimentos, a fim de que ele pudesse entrar o quanto antes na morada dos bem-aventurados.

Depois disso, acompanhado do bispo e de uma vasta multidão, Pedro retornou a seu túmulo, deitou-se, seu corpo se desfez em pedaços e seus ossos retornaram ao mesmo estado em que haviam sido achados. Temos razão para acreditar que o santo obteve rapidamente a libertação dessa alma.

Mas o mais extraordinário nesse exemplo, e que mais nos deve atrair a atenção, é uma alma do Purgatório, tendo experimentado tormentos os mais excruciantes, preferir esse estado à vida deste mundo; e a razão dada a essa preferência é que nesta vida mortal estamos expostos ao perigo de nos perdermos e termos como destino último a condenação eterna.

Notas

  1. Como conciliar essa revelação particular com a do frei Daniele Natale, publicada também aqui, segundo a qual nenhum sofrimento desta vida se compara em dureza às penas do outro mundo? A resposta encontra-se na profundidade da conversão de cada pessoa: de fato, para uma alma que está ainda nos primeiros degraus da vida espiritual, ver-se livre da possibilidade de condenar-se eternamente conta muito mais do que o desejo de aumentar a própria glória no Céu; é a mesma distância que separa o temor do amor (Equipe CNP).
  2. Essa história encontra-se nos Acta Sanctorum de maio, t. II, p. 276c: “Em honra do Deus altíssimo. A Pedro de Piotravin, ginete, morto duas vezes. Venera, ó visitante, este cidadão do céu, que, depois de estar por três anos no purgatório expiando as culpas desta vida que lhe retardavam o eterno descanso, foi chamado das sombras <da morte> por Santo Estanislau, Bispo, e, unido outra vez à própria carne, aduzido como testemunha da legítima propriedade deste contra uns sacrílegos usurpadores. Admiras-te do milagre? Pois aprende a admirar antes a imortalidade da alma, a ressurreição dos corpos, as chamas que purgam do pecado, o direito sacrossanto das posses da Igreja e, por último, a santidade de vida do prelado Estanislau, que com o auxílio de Deus realizou tamanho prodígio. Simão Koludzki, prelado de Gniezno […].  Ano da graça de 1660” (tradução nossa).

O purgatório é uma invenção medieval?

Desde quando os católicos rezam pelas almas do purgatório? Essa realidade é uma mera invenção da Idade Média ou faz parte da fé recebida dos apóstolos? Assista a este vídeo e descubra, além disso, por que os protestantes não acreditam no purgatório.

 

O purgatório é uma invenção da Idade Média? Infelizmente, muitos pregadores católicos e professores de teologia têm repetido essa afirmação absurda, ignorando que o purgatório é um dogma – estabelecido pelos Concílios Ecumênicos de Florença e de Trento [1] – e que, portanto, está enraizado na própria fé dos apóstolos. Se é verdade que a existência do purgatório não está explicitamente consignada na Bíblia, é preciso recordar que esta não é a única fonte de fé da Igreja. Não é necessário, portanto, que todos os dogmas estejam claramente nas Escrituras, mas sim na fé apostólica, que é o fundamento da própria Bíblia.De fato, de muito cedo vem o costume de rezar pelos falecidos. Atesta-o o Segundo Livro dos Macabeus, que indica como os judeus piedosamente suplicavam por seus entes queridos [2]. Atestam-no as catacumbas dos primeiros cristãos, cheias de inscrições com orações pelas almas dos mortos. Atesta-o, enfim, o testemunho de todos os fiéis, de todos os séculos e de todos os lugares (quod semper, quod ubique, quod ab omnibus). Como afirma Santo Tomás de Aquino, é inútil rezar tanto pelas almas que estão no Céu, tanto pelas que estão no inferno, já que ambas estão em seu destino definitivo. Se a Igreja sempre rezou pelas almas dos mortos, então, é porque sempre creu que, após a morte, nem todas as pessoas salvas estão prontas para contemplar Deus face a face.Foi Martinho Lutero, no século XVI, quem, não querendo aceitar o purgatório, chegou a rejeitar os próprios Livros dos Macabeus do Cânon das Escrituras. É que o purgatório não cabe na religião protestante, cuja doutrina não aceita a santidade humana. Para eles, todos os homens são profundamente pecadores e irão entrar no Céu ainda profundamente pecadores, com Deus olhando tão somente para a sua fé. Com isso, o protestantismo “sacramentou” teologicamente a dificuldade piscológica de Lutero, um homem que, atormentado por seus escrúpulos, não conseguia viver a santidade.Na Igreja Católica, porém, existem numerosos exemplos de santos que, mesmo convertidos e livres dos pecados mortais, continuavam a fazer penitência, pois sabiam que precisavam purificar-se dos “resquícios” dos pecados cometidos (reliquie peccati) que ainda ficavam em sua alma. Para detectar isso, basta olhar para dentro de si mesmo e perceber que aí existe uma desordem. O que a Igreja diz – e que é bastante lógico – é que essa desordem não pode entrar no Céu.O fato de a reflexão teológica a respeito do purgatório se ter desenvolvido plenamente na Idade Média não quer dizer que o purgatório foi inventado nessa época. Se a palavra própria para designar o estado de purificação das almas depois da morte só veio em tempos medievais, isso não significa que só na Idade Média os cristãos começaram a crer nessa realidade. Assim como nós já existíamos, antes mesmos de os nossos pais nos darem um nome.

Referências

Bibliografia

  1. Cf. Catecismo da Igreja Católica, 1030; Concílio de Florença, Decr. pro Graecis: DS 1304; Concílio de Trento, Sessão 25ª, Decretum de purgatorio: DS 1820: Sess. 6ª. Decr. de iustificatione, canon 30: DS 1580
  2. Cf. 2 Mc 12, 39-45

A queda do homem

Ora, Deus tinha criado o homem para que o amasse e vivesse unido a Ele, desfrutando de sua presença e deu ordens para multiplicarem-se, encherem a terra, submeterem-na e ainda, que não tocassem na árvore da ciência do bem e do mal – símbolo da soberania e autonomia moral que só pertencia ao Criador. No dia que o fizessem, morreriam indubitavelmente .

O que se pode dizer é que, pela queda original, o homem perdeu esse belo equilíbrio que Deus lhe tinha dado, e que, relativamente ao estado primitivo, ele é agora um ente ferido e sem inteiro equilíbrio, como podemos ver pelo estado presente de nossas faculdades.

Para o profundo conhecimento e crescimento em seu plano de amor, Deus tinha dado ao homem os dons preter-naturais:

• Domínio das paixões, que o animavam. Capacidade de controlar os sentimentos, emoções, afetos.
• Ciência infusa, ou seja, o profundo conhecimento de tudo o que se referia a pessoa de Deus.
• Imortalidade corporal, que privava o homem da doença e da morte.
• E ainda cinco áreas de seu ser que contribuía para amá-lo ainda mais, a saber:

• Memória
• Vontade
• Afetividade
• Imaginação
• Inteligência

Sabemos, então, que a serpente sendo muito astuta, aproxima-se de Eva, mente, põe em dúvida, a mentira distorcida da palavra de Deus e depois a nega . A mulher confundida, achando agora que o mal é bem e o bem é mal, por confiar mais na criatura, que no criador é agora impulsionada a não mais querer se submeter a Deus e leva o homem também a provar deste fruto da insubmissão, desobediência e orgulho.

AS CONSEQÜÊNCIAS DO PECADO

O homem perde os três dons preter-naturais:
1. Perdendo o domínio das paixões fica sujeito a ferir e ser ferido;
2. A mortalidade corporal fica sujeito a morte e a doença e a;
3. Ciência infusa, a buscar outros deuses e outros caminhos para Deus.

A imaginação, memória e afetividade são corrompidas e logo em seguida vemos o fruto de tudo isso, o homem:

• Perde a pureza , ou seja, o equilíbrio consigo mesmo;
• Perde a intimidade com Deus ;
• Perde a intimidade com o próximo – a mulher que puseste junto de mim, me deu da árvore e comi.
O homem, então fica sujeito a traumas, enfermidades e desordens espirituais.

OS ATAQUES SÃO
• Ao corpo;
• À alma;
• Ao espírito.

Ao Corpo – Luxúria, cobiça da carne “Caríssimos, rogo-vos que, como estrangeiros e peregrinos, vos abstenhais dos desejos da carne, que combatem contra a alma.” .

À Alma – há 5 áreas chaves no ataque à alma, à vontade, a afetividade, o intelecto, a imaginação e a memória.

a) A Vontade – Deus criou o homem com uma vontade. Ele não criou “robôs”, mas filhos. É a nossa vontade que escolhe o céu ou o inferno. Deus não é culpado de nossas decisões; somente nós. Quando nossa vontade é obediente á Palavra e ao Espírito de Deus, o resto da alma logo segue.

O objetivo do inimigo é roubar nossa vontade. Como a vontade do homem fica sob o ataque demoníaco? Pela passividade e letargia. São os maiores aniquiladores da vida espiritual, tornando preguiçoso, descuidados e indolentes.

A indecisão se torna o fator predominante em nossas vidas. Não vemos (ou não
queremos ver) o que é certo ou errado. Descansamos sobre as opiniões alheias. O que os outros dizem tem mais importância para nós do que pensamos. Ficamos descuidados, confusos, balançados por qualquer opinião.
Como pode o inimigo causar passividade na vontade humana? Pela importunação molesta até a impaciência. Pelo cansaço sobre aquilo que mais significa nossa fraqueza, nosso “calcanhar de Aquiles”, até que nos rendamos. Não temos força de vontade suficiente para lutar o combate espiritual sem termos a força de Deus.

O demônio não pode influir diretamente sobre nossas faculdades superiores, inteligência e a vontade. Deus reservou para si este santuário: só Deus pode penetrar no centro de nossa alma e mover as energias da nossa vontade sem nos fazer violência.

O demônio, pode influir diretamente sobre o corpo, sobre os sentidos exteriores e interiores, em particular sobre a imaginação e a memória, bem como sobre as paixões, que residem no apetite sensitivo, e por essa via, influir indiretamente sobre a vontade que, se vencida, vem a dar o seu consentimento.
Não importa a quantidade de dons que tenhamos. O exemplo de Salomão é diferente do exemplo de José , que preferiu fugir.

b) A Afetividade (Emoções) – Deus nos deu vontade e também emoções. Nós sentimos coisas boas e más. Não é errado sentir emoções. Errado é ser controlado pelas emoções. Deus não nos impede ter emoções. Ele no-las deu. Tal como a cor dá vida a uma TV em branco e preto, assim as emoções colorem nossas vidas.
As emoções não devem nos regrar, mas realçar momentos de nossas vidas. Se somos controlados pelas nossas emoções não podemos manter comunhão com Deus.
Advertências: Uma oração não é respondida segundo a quantidade de emoção que existe nela. A oração é respondida quando brotada do coração do homem, segundo a vontade de Deus, na unção do Espírito de Deus.
As emoções têm que estar submetidas (como de resto a alma inteira) ao espírito do homem e este ao Espírito de Deus.

Algumas emoções daninhas: é a autopiedade, é um sinal do ataque demoníaco. Quando a autopiedade nos domina, nossa visão torna-se “empenada”, torta, turva. Achamos que todos estão contra nós e ninguém nos quer. Começamos a achar que todos estão errados, e nós, somente nós, estamos certos. Amargura, é outra perniciosa. Quando a amargura nos domina, cada ação nossa resulta em contenda, disputa. Vingança torna-se o nosso objetivo máximo.

Nossos olhos espirituais ficam turvos quando somos dirigidos pelas emoções, e passamos a ser dirigidos pelos nossos olhos naturais, isto é, pelo que olhamos e escutamos, e então, Satanás se encarregará de fazer com que olhemos e escutemos o bastante para afetar, pelas emoções, nossa alma.

c) O Intelecto, Inteligência – é maravilhosa obra de Deus. Ninguém pôde até hoje criar algo parecido. Para a ciência, a inteligência é inexplicável. Acontece que Deus vê o homem segundo o seu (dele,homem) coração, e não, segundo a sua (dele, homem) inteligência, intelecto.
Deus usa a inteligência do homem para se fazer entender: “… o seu sempiterno poder e divindade se tornam visíveis à inteligência…” .
A inteligência natural (“animal”, de “anima”) resiste a Deus. O homem quer colocá-la acima do seu espírito, mas é o espírito que deve nortear nossa inteligência. Como podemos desconfiar de que nossa inteligência está sendo atacada?
Quando o raciocínio começa a ser mais importante para nós do que o testemunho interior. A partir daí, a fé e a confiança em Deus começam a diminuir. Começamos a intelectualizar cada coisa que ouvimos, vemos ou lemos. Nosso pensar torna-se “superior” e “objetivo”. A morte interior acontece.

É importante contra-atacar logo: a) peça ao Espírito de Deus que se torne real para você; b) peça-lhe novos olhos e ouvidos para ver e ouvir suas obras e Sua Palavra; c) envolva-se com os interesses da sua Igreja; d) ordene que o espírito de descrença se afaste de você, em nome de Jesus; e) associe-se com pessoas crentes, de sua Igreja.

d) Imaginação – é algo extremamente poderoso. Nós temos a habilidade para imaginar além da nossa inteligência. Realizamos aquilo que antes esteve na nossa imaginação. O que chega ao plano concreto, existiu, antes, na imaginação.
Uma imaginação preguiçosa, fútil, não produz nada. O perigo com a imaginação está quando nos leva à exaltação própria.
Gn 3; 2Cor 10,5

e) Memória – seu futuro não está baseado nas feridas do passado. Não olhe para trás imaginando que se repetirá necessariamente, ou para culpar-se doentiamente. São Paulo diz: “não olhando para trás…”
Passos na Oração de Libertação:

1. Esclareça quanto aos problemas decorrentes de experiências e contatos do passado.
2. Faça com que as pessoas tomem uma decisão.
3. Realizar a renúncia.
4. Ordenar a libertação em nome de Jesus.
5. Pedir os frutos do Espírito Santo.

A verdadeira razão pela qual católicos não podem ser maçons

Padre Paulo Ricardo | Ago 31, 2017

Três séculos após a fundação da primeira Grande Loja Maçônica, os princípios dessa instituição continuam frontalmente incompatíveis com a doutrina católica

Por Ed Condon [*] — O antagonismo recíproco entre a Igreja Católica e a Maçonaria está bem firmado e é de longa data. Durante a maior parte dos últimos 300 anos, as duas instituições têm sido reconhecidas, mesmo pela mentalidade secular, como implacavelmente opostas uma à outra. Em décadas recentes, a animosidade entre elas tem-se apagado da consciência pública em grande medida, devido ao menor envolvimento direto da Igreja em assuntos civis e à derrocada dramática da Maçonaria, tanto em números quanto em importância. Mas, por ocasião dos 300 anos da Maçonaria, vale a pena rever o que sempre esteve no “núcleo” da absoluta oposição da Igreja a esse grupo. Aparentemente, a Maçonaria pode não passar de um clube esotérico masculino, mas ela já foi, e continua sendo, um movimento filosófico altamente influente — e que impactou de modo dramático, ainda que sutil, a sociedade e a política modernas no Ocidente.

A história da Franco-maçonaria preenche, por si só, vastas páginas. A sua gradual transformação de guildas de pedreiros medievais em uma rede de sociedades secretas, com uma filosofia e um rito gnósticos próprios, pode ser lida com grande interesse. A versão mais recente da Franco-maçonaria teve início com a formação da Grande Loja da Inglaterra, em 1717, em um bar chamado Goose & Gridiron, próximo à Catedral londrina de São Paulo Apóstolo. Nos primeiros anos, antes que a Igreja fizesse qualquer pronunciamento formal sobre o assunto, muitos católicos já faziam parte da associação e a “diáspora” dos católicos e jacobitas ingleses foi crucial para espalhar a Franco-maçonaria na Europa continental. Ela chegou a se tornar, em alguns lugares, tão popular entre os católicos que o Rei Francisco I da Áustria serviu de protetor formal da instituição.

Mesmo assim, a Igreja se converteu na maior inimiga das lojas maçônicas. Entre o Papa Clemente XII, em 1738, e a promulgação do primeiro Código de Direito Canônico, em 1917, oito papas ao todo escreveram condenações explícitas à Franco-maçonaria. Todas previam a mais estrita pena eclesiástica para quem se associasse: excomunhão automática reservada à Sé Apostólica.

Mas o que a Igreja entendia, e entende hoje, por Franco-maçonaria? Que características fizeram com que ela merecesse uma tal condenação?

É comum ouvirmos dizer que a Igreja se opôs à Franco-maçonaria por causa do caráter supostamente revolucionário ou sedicioso das lojas. Está relativamente difundida a ideia de que as lojas maçônicas eram células essencialmente políticas para republicanos e outros reformistas, e a Igreja se opunha a elas para defender o velho regime absolutista, ao qual ela estava institucionalmente atrelada. No entanto, embora a sedição política eventualmente se sobressaísse na oposição da Igreja à Maçonaria, essa não era, em hipótese alguma, a razão originária de sua rejeição. O que Clemente XII denunciou originalmente não era uma sociedade republicana revolucionária, mas um grupo que propagava o indiferentismo religioso: a ideia de que todas as religiões (e nenhuma delas) têm igual validade, e que na Maçonaria estão todas unidas para servirem a um entendimento comum e mais elevado da virtude. Os católicos, como membros, deveriam colocar sua adesão à loja acima de sua pertença à Igreja. Em outras palavras, a proibição rigorosa da Igreja devia-se não a motivos políticos, mas ao cuidado com as almas.

Desde o princípio, a preocupação primária da Igreja foi a de que a Maçonaria submete a fé de um católico à da loja, obrigando-o a colocar uma fraternidade secularista fundamental acima da comunhão com a Igreja. A linguagem legal e as penalidades aplicadas nas condenações à Franco-maçonaria eram, na verdade, muito similares àquelas usadas na supressão dos albigenses: a Igreja vê a Franco-maçonaria como uma forma de heresia. Ainda que os próprios ritos maçônicos contenham um material considerável que pode ser chamado de herético — e até de explicitamente anticatólico, em alguns casos —, a Igreja sempre esteve muito mais preocupada com a filosofia geral da Franco-maçonaria do que com a ostentação de seus rituais.

Ao longo dos séculos XVIII e XIX, a Igreja Católica e o seu lugar de privilégio no governo e na sociedade de muitos países europeus tornaram-se objeto de crescente oposição secular e até mesmo de violência. Existem, é verdade, poucas evidências históricas — se é que as há — de que as lojas maçônicas tenham desempenhado um papel ativo no início da Revolução Francesa. De qualquer modo, a causa dos horrores anticlericais e anticatólicos da Revolução pode ser encontrada na mentalidade secularista descrita pelas várias bulas papais que condenam a Maçonaria. As sociedades maçônicas foram condenadas não porque pretendessem ameaçar as autoridades civis e eclesiásticas, mas porque uma tal ameaça, na verdade, constituía a consequência inevitável de sua existência e crescimento. A revolução era o sintoma, não a doença.

A coincidência de interesses entre Igreja e Estado, e o ataque a elas empreendido por sociedades secretas revolucionárias, foram mais claros nos Estados Papais da Península Itálica, onde a Igreja e o Estado eram uma só coisa. Assim que começou o século XIX, ganhou notoriedade uma imitação da Franco-maçonaria, de caráter revolucionário explícito e oposição declarada à Igreja: eles se chamavam de Carbonari (“carbonários”, palavra italiana para “carvoeiros”) e, em sua campanha por um governo constitucional secular, praticavam tanto o assassinato quanto a insurreição armada contra os vários governos da Península Itálica, sendo identificados como uma ameaça imediata à fé, aos Estados Papais e à própria pessoa do Pontífice Romano.

A ligação entre a ameaça passiva da filosofia secreta maçônica e a conspiração ativa da Carbonária foi explicada na Constituição Apostólica Ecclesiam a Jesu Christo, do Papa Pio VII, promulgada em 1821. Mesmo tratando e condenando a oposição aberta e declarada dos Carbonari à governança temporal dos Estados Papais, ainda assim era claro que a mais grave ameaça colocada por essas células violentamente revolucionárias era a sua filosofia secularista.

Ao longo de todas as várias condenações papais à Franco-maçonaria, mesmo quando as lojas financiavam ativamente campanhas militares contra o papa, como fizeram com a conquista de Garibaldi e a unificação da Itália, o que sempre constituiu a primeira objeção da Igreja à Loja foi a ameaça que ela representava à fé dos católicos e à liberdade da Igreja de agir em sociedade. O fato de os ensinamentos da Igreja serem minados nas lojas, e a sua autoridade em matéria de fé e moral ser questionada, era repetidamente descrito como uma conspiração contra a fé, tanto nos indivíduos quanto em sociedade.

Na encíclica Humanum Genus, o Papa Leão XIII descreveu a agenda maçônica como sendo a exclusão da Igreja da participação em assuntos públicos e a perda gradual de seus direitos como um membro institucional da sociedade. Durante o seu tempo como papa, Leão escreveu um grande número de condenações à Franco-maçonaria, tanto no âmbito pastoral quanto no âmbito legislativo. Ele sublinhou em detalhes o que a Igreja considerava ser a agenda maçônica, agenda esta que, lida com um olhar contemporâneo, ainda é de uma relevância surpreendente.

Ele se referiu especificamente ao objetivo de secularizar o Estado e a sociedade. Ressaltou em particular a exclusão do ensino religioso das escolas públicas e o conceito de que “o Estado, que deve ser absolutamente ateu, tem o inalienável direito e dever de formar o coração e os espíritos de seus cidadãos” ( Dall’Alto dell’Apostolico Seggio, n. 6). Também denunciou abertamente o desejo maçônico de tirar da Igreja qualquer forma de controle ou influência sobre escolas, hospitais, instituições de caridade públicas, universidades e qualquer outra associação que servisse ao bem comum. Também deu um destaque específico ao impulso maçônico de repensar o matrimônio como um mero contrato civil, promover o divórcio e apoiar a legalização do aborto.

É praticamente impossível ler esta agenda e não reconhecer nela a base de quase todo o nosso discurso político contemporâneo. O fato de muitos de nossos principais partidos políticos, se não todos, apoiarem tranquilamente essas ideias, e o próprio conceito de Estado secular e suas consequências sobre a sociedade ocidental, incluindo a pervasiva cultura do divórcio e a disponibilidade quase universal do aborto, tudo isso é uma vitória da agenda maçônica. E isso levanta questões canônicas muito sérias sobre a participação católica no atual processo político secular.

Ao longo de séculos de condenações papais à Franco-maçonaria, era normal que cada papa incluísse nomes de novas sociedades que compartilhavam da filosofia e da agenda maçônicas e que, por isso, também deveriam ser entendidas pelos católicos, nos termos da lei canônica, como “maçônicas”. No século XX, isso chegou a incluir partidos políticos e movimentos como o comunismo.

Quando o Código de Direito Canônico foi reformado, após o Vaticano II, o cânon específico que proibia os católicos de aderirem a “seitas maçônicas” foi revisado. No novo código, promulgado em 1983 por São João Paulo II, a menção explícita à Franco-maçonaria foi retirada completamente. O novo cânon 1374 refere-se somente a associações “que maquine[m] contra a Igreja”. Muitos entenderam essa mudança como um indicativo de que a Franco-maçonaria não mais era considerada má aos olhos da Igreja. Na verdade, os membros do comitê responsável pela reforma esclareceram que eles queriam se referir não apenas aos franco-maçons, mas a muitas outras organizações; a conspiração da agenda secularista maçônica tinha-se espalhado para tão além das lojas que continuar usando um termo abrangente como “maçônico” seria confuso. O então Cardeal Ratzinger emitiu um esclarecimento da nova lei em 1983, no qual deixou claro que o novo cânon havia sido formulado para encorajar uma interpretação e uma aplicação mais abrangentes.

Dado o entendimento cristalino, no ensinamento da Igreja, do que a conspiração ou a agenda maçônica incluem — a saber, o matrimônio como um mero contrato civil aberto ao divórcio à vontade; o aborto; a exclusão do ensino religioso das escolas públicas; a exclusão da Igreja do provimento de bem-estar social ou do controle de instituições de caridade —, parece-nos impossível não perguntar: quantos de nossos partidos políticos no Ocidente não estariam agora sob a proibição do cânon 1374? A resposta talvez não agrade muito aqueles que querem ver um fim para a chamada “guerra cultural” dentro da Igreja.

Mais recentemente, o Papa Francisco tem falado repetidas vezes de sua grave preocupação com uma infiltração maçônica na Cúria e em outras organizações católicas. Ao mesmo tempo, ele alertou contra a Igreja se tornar uma mera ONG em seus métodos e objetivos — perigo que vem diretamente dessa mentalidade secularista a que a Igreja sempre chamou “filosofia maçônica”.

A infiltração maçônica na hierarquia e na Cúria tem sido tratada há muito tempo como uma espécie de versão católica do “bicho-papão” embaixo da cama, ou da paranoia macarthista com infiltrados comunistas. De fato, quando se conversa com pessoas que trabalham no Vaticano, rapidamente se descobre que, para cada dois ou três que riem dessa história, há pelo menos um que deparou diretamente com esse fato. Eu mesmo conheço pelo menos duas pessoas que, durante o tempo em que trabalharam em Roma, foram abordadas para se associarem. O papel das lojas maçônicas como ponto de encontros confidencial para pessoas com ideias e agendas heterodoxas mudou pouco desde a França pré-revolucionária até o Vaticano de hoje. 300 anos após a fundação da primeira Grande Loja Maçônica, o conflito entre a Igreja e a Franco-maçonaria nunca esteve tão vivo.

(Via Pe. Paulo Ricardo)

Igreja e comunismo: um século de embates

A Igreja Católica nunca se deixou enganar pelas trapaças do socialismo e do comunismo. Encíclicas atrás de encíclicas denunciaram, desde o princípio, a falsa ideologia de Marx e Hegel.

Brian Kranick,  Crisis MagazineTradução:  Equipe Christo Nihil Praeponere

13 de Novembro de 2017

Os últimos cem anos, de 1917 a 2017, têm sido como uma recapitulação do protoevangelho, quando Deus disse à serpente: “Porei inimizade entre ti e a mulher” (Gn 3, 15). Trata-se de uma guerra secular que representa o período mais acentuado desta inimizade. Tudo começou em 1917, com as revelações de Nossa Senhora de Fátima, de um lado, e a Revolução Russa, que levou à implantação do comunismo ateu, de outro. Quais seriam as chances de tamanha coincidência?

Ao longo dos últimos cem anos, a forma mais grotesca que o “corpo místico” do Anticristo já adotou é, sem sombra de dúvida, o materialismo ateu, incorporado mundo afora por governos socialistas e comunistas. A serpente tornou-se Leviatã. Antes da Revolução de Outubro, Maria já advertira, em julho de 1917, que a Rússia espalharia “os seus erros pelo mundo, provocando guerras e perseguições contra a Igreja”. O resto, como sabemos, é história.

As elites culturais do Ocidente e seus simpatizantes vêm há tempos forcejando por minimizar os males do marxismo.
Este centenário da Revolução de Outubro é uma grande oportunidade para trazer à memória o “horrendo flagelo” — como lhe chamou Pio XI (cf. Encíclica “Divini Redemptoris”, de 19 mar. 1937, n. 7) — que vergastou o mundo através das perversas armadilhas do socialismo e do comunismo. Isto é particularmente importante na medida em que as elites culturais do Ocidente e seus simpatizantes vêm há tempos forcejando por minimizar os males do marxismo, como parece ser a intenção do jornal The New York Times, com sua “série de apaixonadas e saudosas recordações dos bons e velhos tempos do comunismo do século passado” [1].

Talvez seja mesmo chegada a hora de passar em revista esses tempos felizes do “século vermelho” com uma relaxante leitura de O Livro Negro do Comunismo ou O Arquipélago Gulag, de Solzhenitsyn. Mas, afinal, o que poderia ser mais enriquecedor do que dedicar um tempo a ler sobre o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung? Melhor ainda: que tal estourar um saco de pipocas e assistir a’Os gritos do silêncio [2], um filme para divertir toda a família?

Alguns, porém, talvez se perguntem: “E quanto ao socialismo do século XXI?” Ora, basta dar uma rápida olhada nas notícias que chegam da Venezuela. Há não muito tempo, a Venezuela era uma país próspero, abundante em petróleo; numa palavra, um milagre socialista! Mas agora, após dezoito anos de marxismo, entre Chávez e Maduro, o país não passa de um inferno socialista. Muitos ali têm passado fome — uma especialidade comunista —, não lhes sobrando outra alternativa senão roubar ou comer animais de zoológico, prática na qual parecem ter especial predileção por carne de búfalo e porco-do-mato.

Isso, infelizmente, não é incomum às experiências socialistas; antes, pelo contrário, constitui a regra geral. A alimentação venezuelana, contudo, deve ainda assim ser mais agradável que a dieta à base de mato e casca imposta aos reclusos na prisão estatal da Coreia do Norte. Os fatos históricos revelam que os demagogos comunistas foram responsáveis pela morte de 140 milhões de pessoas [3], desde Lênin até Stalin, passando por Mao Tsé-Tung, Pol Pot, Kim Jong-un, Chávez, Che Guevara, Fidel Castro… e a lista poderia ir-se alongando. Lênin disse, no final das contas, que é preciso quebrar uns tantos ovos para fazer uma omelete: 140 milhões de ovos quebrados; eis aí uma omelete gigante!

A Igreja Católica nunca se deixou enganar pelas trapaças do socialismo e do comunismo.
A Igreja, por sua vez, nunca se deixou enganar pelas trapaças do socialismo e do comunismo. Encíclicas atrás de encíclicas denunciaram, desde o princípio, a falsa ideologia de Marx e Hegel. De fato, o Catecismo o afirma claramente: “A Igreja rejeitou as ideologias totalitárias e atéias, associadas, nos tempos modernos, ao ‘comunismo’ ou ao ‘socialismo’” (n. 2425). O Catecismo, porém, é curto e sucinto, ao passo que as encíclicas papais são ricas em detalhes e categóricas em suas condenações.

Em 1846, o Papa Pio IX promulgou a encíclica “Qui Pluribus”, sobre fé e religião, na qual já combatia vigorosamente as ideias de Marx, que em 1848 publicaria O Manifesto Comunista. Pio IX ali se referia à “nefanda doutrina do comunismo, contrária ao direito natural, que, uma vez admitida, lança por terra os direitos de todos, a propriedade e até mesmo a sociedade humana”. Ele advertia contra “as mais perversas criações de homens que, trajados por fora com peles de ovelha, por dentro não passam de lobos rapaces”.

Sua Santidade, o Papa Leão XIII.
Em 1878, o Papa Leão XIII escrevia sobre os males do socialismo na encíclica “Quod Apostolici Muneris”. O Pontífice começa a carta referindo-se à “praga mortífera que se tem difundido no seio mesmo da sociedade humana, conduzindo-a ao abismo da destruição”. Leão XIII aponta em seguida que “as facções dos que, sob diversas e quase bárbaras designações, chamam-se socialistas, comunistas ou niilistas, espalhados ao redor do mundo e unidos pelos laços estreitíssimos de uma perversa confederação, já não se põem ao abrigo da sombra de reuniões secretas, senão que, marchando aberta e confiadamente à luz do dia, ousam levar a cabo o que há muito tempo vêm maquinando: a derrocada de toda a sociedade civil”.

A encíclica também chamava a atenção para o projeto socialista de destruição do matrimônio e da família. Para os socialistas, com efeito, não pode haver maior fidelidade, nem mesmo a Deus e à família, do que a obediência ao Estado todo-poderoso. Leão XIII afirmava ainda que “os fundamentos da sociedade repousam, antes de tudo, sobre a união indissolúvel entre os esposos, conforme as exigências da lei natural”. E no entanto “as doutrinas socialistas aspiram por dissolver quase por completo os elos desta união”.

O socialismo ergue-se sobre as bases da cobiça, ou seja, uma transgressão do nono e décimo Mandamentos.
Treze anos depois, em 1891, Leão XIII voltou a escrever outra encíclica, “Rerum Novarum”, a respeito do trabalho, do capital e da classe operária. Trata-se do texto fundacional da doutrina social católica nos tempos modernos. Dizia o Pontífice: “Os socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida”. Isto, declarou a Igreja, “é sumamente injusto” e “o remédio proposto está em oposição flagrante com a justiça, porque a propriedade particular e pessoal é, para o homem, de direito natural”.

O socialismo ergue-se sobre as bases da cobiça, ou seja, uma transgressão do nono e décimo Mandamentos. Eis o que diz a “Rerum Novarum”: “A autoridade das leis divinas vem pôr […] o seu selo, proibindo, sob pena gravíssima, até mesmo o desejo do que pertence aos outros”. O socialismo se baseia, além disso, na falsa ideia da luta de classes. Também para dissipar este erro Leão XIII levantou a voz: “O erro capital na questão presente é crer que as duas classes são inimigas natas uma da outra, como se a natureza tivesse armado os ricos e os pobres para se combaterem mutuamente num duelo obstinado. Isto é uma aberração tal que é necessário colocar a verdade numa doutrina contrariamente oposta”.

Como já o fizera em encíclicas anteriores, Leão XIII insiste em defender contra as investidas socialistas as instituições familiar e matrimonial: “À família […] será forçosamente necessário atribuir certos direitos e certos deveres absolutamente independentes do Estado”. “Querer, pois, que o poder civil invada arbitrariamente o santuário da família é um erro grave e funesto.”

Sua Santidade, o Papa Pio XI.
Em 1931, o Papa Pio XI divulgou a carta “Quadragesimo Anno”, por ocasião do 40.ª aniversário da encíclica “Rerum Novarum”, à qual chamou a “Carta Magna” da doutrina social católica. Pio XI afirma sem rodeios: “Declaramos: o socialismo quer se considere como doutrina, quer como fato histórico, ou como ‘ação’ […] não pode conciliar-se com a doutrina católica”. O Pontífice foi ainda mais longe, ao dizer: “Se este erro, como todos os mais, encerra algo de verdade […], funda-se contudo numa concepção própria da sociedade humana diametralmente oposta à verdadeira doutrina católica. ‘Socialismo religioso’ e ‘socialismo católico’ são termos contraditórios: ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista”.

Mas o que pensar do socialismo mitigado? Também este fustigou-o o Papa de forma bastante sucinta: “Citamos novamente a juízo o comunismo e o socialismo, e vimos o quanto as suas formas, ainda as mais mitigadas, se desviam dos ditames do Evangelho”. Reiterá-lo-ia anos depois o Papa João XXIII, em sua encíclica “Mater et Magistra”, de 1961: “Entre comunismo e cristianismo, o Pontífice [Pio XI] declara novamente que a oposição é radical, e acrescenta que não se pode admitir de maneira alguma que os católicos adiram ao socialismo moderado”.

O comunismo é particularmente nocivo, já que “priva a pessoa humana da sua dignidade”.
E, para ser justo, Pio XI repreendeu também o “individualismo” e o capitalismo extremos por não respeitarem a dignidade humana do trabalhador, cuja atividade não pode ser vendida como um “um simples gênero comercial”. O Pontífice apontava ainda que o remédio mais necessário consiste, não na reação violenta dos socialistas em ordem ao desmantelamento do livre mercado, mas, antes de tudo, na “reforma dos costumes”. De fato, a postura da Igreja frente a esses problemas sempre foi ponderada, resguardando os direitos tanto do empregado quanto do empregador, mediante uma volta à caridade cristã e ao zelo pelo bem do próximo.

Sua crítica mais dura, no entanto, reservou-a Pio XI à “peste comunista”, cujas ações e intenções são desmascaradas nos seguintes termos: “guerra de classes sem tréguas nem quartel e completa destruição da propriedade particular”; “a tudo se atreve, nada respeita; uma vez no poder, é incrível e espantoso quão bárbaro e desumano se mostra”; “aí estão a atestá-lo as mortandades e ruínas”; “ódio declarado contra a Santa Igreja e contra o mesmo Deus”; “a impiedade e iniquidade do comunismo”; “doutrinas que porão a sociedade a ferro e fogo”; “abre caminho à subversão e ruína completa da sociedade.”

“O socialismo quer se considere como doutrina, quer como fato histórico, ou como ‘ação’, não pode conciliar-se com a doutrina católica.”
Mas o Papa não parou por aí. Em 1937, veio a lume outra de suas encíclicas, a “Divini Redemptoris”, a respeito do comunismo ateu. O Pontífice não poupou palavras. Exortou a que “os fiéis não se deixem enganar! O comunismo é intrinsecamente perverso e não se pode admitir em campo nenhum a colaboração com ele, da parte de quem quer que deseje salvar a civilização cristã”. É um “sistema cheio de erros e sofismas”. A encíclica tinha em mente o “perigo ameaçador” do “comunismo, denominado bolchevista e ateu, que se propõe como fim peculiar revolucionar radicalmente a ordem social e subverter os próprios fundamentos da civilização cristã.”

O comunismo é particularmente nocivo, já que “priva a pessoa humana da sua dignidade”. “Os direitos naturais […] são negados ao […] indivíduo para serem atribuídos à coletividade”. E é precisamente por isso que “qualquer direito de propriedade privada […] tem de ser radicalmente destruído”. É a coletividade que legisla em matérias de matrimônio e família. “O matrimônio e a família são apenas uma instituição civil e artificial”, dependente “da vontade dos indivíduos ou da coletividade”. É o ressurgimento das “cartas de divórcio”. A difusão do comunismo foi possível graças à propaganda diabólica dos “filhos das trevas” e à “conspiração do silêncio” orquestrada pela imprensa não-católica, silêncio devido em parte às “diversas forças ocultas que já há muito porfiam por destruir a ordem social cristã”. Isso soa familiar.

Em 1991, o Papa João Paulo II publicou a “Centesimus Annus”, em comemoração ao centenário da “Rerum Novarum”. Esta nova encíclica reafirmava o ensinamento segundo o qual a raiz do totalitarismo moderno encontra-se na negação da dignidade transcendental da pessoa humana. O socialismo “considera cada homem simplesmente como um elemento e uma molécula do organismo social, de tal modo que o bem do indivíduo aparece totalmente subordinado ao funcionamento do mecanismo econômico-social”. “Luta de classes em sentido marxista e militarismo têm, portanto, a mesma raiz: o ateísmo e o desprezo da pessoa humana, que fazem prevalecer o princípio da força sobre o da razão e do direito”. Como sabiamente notou Fulton Sheen, “o comunismo pretende estabelecer o impossível: uma irmandade entre os homens prescindindo da paternidade divina”.

George Orwell conhecia bem o engodo socialista, adaptando-lhe o mantra em sua obra A Revolução dos Bichos: “Todos os animais são iguais”, e no entanto, como dirá o porco a certa altura da história, “alguns animais são mais iguais do que outros”. A sua verdadeira face, uma hora ou outra, acaba sendo descoberta. É o “duplipensar” do Partido. E como são estranhamente atuais o “pensar criminoso” e a “patrulha ideológica” de 1984 no ambiente politicamente correto que se respira nas universidades norte-americanas e em tantos governos europeus! O Muro de Berlim veio abaixo e a União Soviética dissolveu-se, mas o marxismo cultural está forte como nunca.

O Leviatã continua furioso e com o chicote em mãos; sua cabeça, porém, já foi esmagada.
As vanguardas progressistas da esquerda são os herdeiros ideológicos da socialismo e do comunismo do século XX. Eles fazem avançar a revolução ao adotarem os “erros da Rússia” e atacarem a propriedade privada, o livre mercado, a liberdade individual e a livre expressão, o casamento e a família tradicionais, a liberdade de consciência e a liberdade de culto. Talvez não haja agora mesmo um “império do mal”, um único Estado totalitário; o que há, isso sim, é um totalitarismo das inteligências, a pressão imperiosa exercida pelos media, pela educação, pelos governos e sistemas judiciais. O Big Brother continua à espreita.

Mas ainda há esperança. A Igreja triunfou, sim, do comunismo ateu, e Cristo garantiu-nos que as portas do inferno não hão de prevalecer contra ela. Nos sombrios idos de 1917, em meio à Primeira Guerra Mundial e à difusão dos males do comunismo ateu, a Virgem Maria prometeu: “No fim, o meu Imaculado Coração triunfará”. Sim, o Leviatã continua furioso e com o chicote em mãos; sua cabeça, porém, já foi esmagada.

Referências

Robert Tracinski, “Why Is The New York Times Trying To Rehabilitate Communism?”, em: The Federalist, 3 ago. 2017.
Em inglês, The Killing Fields, filme de 1984 sobre a ditadura comunista de Pol Pot no Camboja.
Cf. os dados levantados por Paul Kengor em The Politically Incorrect Guide to Communism.

Quando Pio XII fez o Esplendor da Verdade

Seria possível amar a Deus e ao próximo sem respeitar os Dez Mandamentos em todas as suas circunstâncias? Para os adeptos da chamada “moral de situação”, sim. Para o Magistério da Igreja, no entanto, a resposta sempre foi não.

“Os mandamentos de Deus, que estão escritos no coração do homem e fazem parte da Aliança, têm verdadeiramente a capacidade de iluminar as opções quotidianas dos indivíduos e das sociedades inteiras? É possível obedecer a Deus e, portanto, amar a Deus e ao próximo, sem respeitar em todas as circunstâncias estes mandamentos?”, perguntava-se, em 1993, o Papa São João Paulo II.

As perguntas formuladas não eram propriamente do Papa, mas de teólogos de seu tempo, e a resposta para elas não poderia ser diferente. Contra as teorias éticas heterodoxas em vigor, e em consonância com a Sagrada Escritura e a Tradição da Igreja, o Papa Wojtyla reafirmou a existência de “normas morais que proíbem sem exceção os atos intrinsecamente maus”; lembrou o dever que todos têm de formar retamente a própria consciência; e garantiu: “As circunstâncias ou as intenções nunca poderão transformar um ato intrinsecamente desonesto pelo seu objeto, num ato ‘subjetivamente’ honesto ou defensível como opção.”

Muito antes, porém, de o Papa polonês fulminar com a encíclica Veritatis Splendor os perigosos postulados da chamada “moral de situação”, outro Pontífice já havia condenado essa “nova ética”, e mais de uma vez, ao longo de seu pontificado.

Tratava-se do venerável Papa Pio XII, que governou a Igreja durante os turbulentos anos da Segunda Guerra Mundial. Qual fosse a nota distintiva desta “nova ética” é ele mesmo quem explicava: ” Ela não se baseia nas leis morais como, por exemplo, os Dez Mandamentos, mas nas condições e circunstâncias reais e concretas em que se deve agir e segundo as quais a consciência individual tem de julgar e escolher.”

Na alocução que disponibilizamos a seguir, em nova tradução para a língua portuguesa, deixamos as orientações oportuníssimas do Papa Pio XII a respeito dessa “nova moral”, “tão alheia à fé e ao princípios católicos, que mesmo uma criança que conheça o seu catecismo se dará conta disso”.

Com muita clareza, o Papa Pacelli ensina que “pode haver situações em que o homem, e especialmente o cristão, não pode ignorar que deve sacrificar tudo, inclusive a própria vida, a fim de salvar a própria alma”, recordando para isso o testemunho dos mártires, que preferiram a “morte sangrenta” a cometer um único pecado mortal.

Dada a extensão desse discurso, destacamos abaixo apenas o seu começo, sendo necessário, para se proceder à sua leitura integral, acessar o documento em formato PDF aqui.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere
Tags: Moral Cristã, Relativismo, Papa João Paulo II, Papa Pio XII, Verdade

Virtudes cardeais: o que são? Para que servem?

Conheça as virtudes que estão dentro de você e transforme-as em hábitos

Santo Tomás de Aquino, citando Aristóteles, diz: a pedra nunca se acostuma a ser dirigida para cima (in II Ethic.lect. I). Com isso, o Doutor Angélico quer evidenciar que a nossa natureza necessita por excelência participar da natureza divina, porque Deus cria o homem para participar de Sua Vida, e, para tanto, não pode fazer o caminho inverso ou diferente daquele que é definido por Deus para que possa fazer da vida humana uma vida que participa da divindade.

A natureza humana possui forças habituais, enraizadas pelo ato da criação ou adquiridas pela repetição constante e regular de atos bons ou maus. Uma pessoa que pratica o bem fará de suas ações uma correspondência do bem; de outra monta, uma pessoa que pratica o mal irá fazer de suas ações a correspondência ao mal que ela deseja praticar. As forças que habitam a natureza humana criada são chamadas de habitus, e tais podem ser boas ou más, podem nos levar para Deus ou nos afastar d’Ele na medida em que praticamos o mal ou o bem com nosso esforço próprio e com o auxílio divino. Todo bom hábito é chamado de virtude e todo mau hábito é conhecido por vício. Para melhor definir, a virtude é, segundo Santo Agostinho, a disposição para o amor, compreendida como a essência e finalidade suprema do espírito humano, ou, ainda, segundo o já citado Aristóteles, é uma característica própria e definidora do ser humano, cuja realização consuma a excelência ou perfeição deste ser.

Esses bons hábitos (ou virtudes) são inerentes à natureza humana, e são comuns a todos os homens indistintamente, pois são naturais assim como o homem é natural, porém sem esquecer que é o Próprio Deus que mantém e sustenta a ordem natural que Ele criou. As virtudes, então, por serem próprias da humanidade, quando praticadas irão nos levar a viver retamente e evitaremos todo o mal, mas quando não são praticadas ou são esquecidas, iremos fazer de nossas ações um grupo imenso de vícios, ou seja, de maus hábitos que nos levam ao pecado. Estas virtudes boas, bons hábitos, essas forças de nossa natureza que estão presentes na alma, são chamadas de virtudes cardeais, quais sejam a: Prudência, Justiça, Temperança e Força.

I – A Prudência

A prudência nos leva a escolher entre o bem e o mal. É dela que Nosso Senhor Jesus Cristo ensina ao dizer: “Eis que vos mando como ovelhas no meio de lobos. Sêde, pois, prudentes como a serpente e simples como as pombas” (Mt 10, 16). Cristo proclama esse ensinamento de forma profética, ou seja, deixa claro para os apóstolos e para aqueles que seguiriam o Cordeiro de Deus pela pregação apostólica que, no decorrer de toda a história da Igreja, seria árduo que o mundo compreendesse quais são os caminhos de Deus e Seus propósitos para a humanidade. Assim, seguir o Cristo não seria nada além do que à custa de suor e labor, pois o próprio Cristo foi sinal de contradição, e sendo Ele assim, aqueles que o seguem seriam emissários da contradição. Quando, na vida de um cristão, não há contradição, é o sinal evidente de que o cristão se mundanizou (Cf. Bíblia de Navarra, Vol I, pg. 231). Por isso, na escolha entre o bem e o mal, que nos será possível escolher através da prudência, não será suscetível ao cristão transigir, transacionar, alienar a vida cristã por nenhuma manifestação mundana, por mais que seja aprazível ao corpo o que esteja em moda (cf. Idem, pg. 232). “A vida cristã levará consigo, necessariamente, uma inconformidade diante de tudo o que atente contra a fé e a moral (cf. Rom 12, 2). Não se pode estranhar que a vida do cristão se mova, não poucas vezes, entre o heroísmo e a traição. Perante estas dificuldades não se deve ter medo: não estamos sós, contamos” (cf. Ibidem, pg 232).

II – A Justiça

É a virtude que nos faz entender a criação, pois nos auxilia na prática de dar a cada um o que lhe é devido, proteger o que nos pertence e dar a Deus que Ele mesmo nos pede: a vida gratuitamente dada sendo devolvida ao Seio divino sem qualquer reserva, como prova de amor que é meio necessário para a salvação. Quando os seres humanos vivem entre si reto sentido da justiça, a vida será uma perfeita manifestação da divindade; assim, quando compramos algo, pagamos o seu valor; quando tomamos emprestado, gera-se o dever de restituir; quando contraímos uma obrigação, cabe-nos cumpri-la, tal como o matrimônio e o juramento livre dado como manifestação da verdade a outrem que confia na palavra dada, a promessa livre de uma vida reta diante de Deus; bem como o dever dos sacerdotes de administrar os sacramentos a quem legitimamente os pede. Quando se peca contra a justiça, o arrependimento e a confissão não bastam, a lesão deve ser reparada a todo custo para que o estado de justiça anterior seja restabelecido.

O conceito de justiça, enquanto virtude, é essencialmente religioso, pois justo para Deus é aquele que se esforça com sincero labor para cumprir a Vontade do Pai, o que se manifesta de três formas: no cumprimento dos mandamentos, nos deveres de estado leigo, sacerdotal e matrimonial e na luta para manter a alma unida à Santíssima Trindade através da graça santificante. Justiça, portanto, está essencialmente ligada à santidade. São Jerônimo, Doutor da Igreja dirá sobre a justiça:

” não exige somente um simples desejo vago de justiça, mas ter fome e sede dela, isto é, amar e buscar com todas as forças aquilo que torna justo o homem diante de Deus. O que de verdade quer a santidade cristã tem de amar os meios que a Igreja, instrumento universal de salvação, oferece e ensina a viver todos os homens, ou seja, freqüência aos sacramentos, convivência íntima com Deus na oração, fortaleza para cumprir os deveres de família, profissionais e sociais”.

Na ordem das bem-aventuranças, a justiça é seguida da misericórdia, no participar do coração amoroso do Pai, o que não é somente em dar o que é devido, mas compreender com esforço cristão os defeitos que podem ter quem nos rodeia, com o perdão devido, pois tem Deus mais nos perdoado antes, no auxílio para que os defeitos de outrem sejam superados e principalmente em amar aquele que se apresenta como cheio de defeitos diante de nós. Isso nos leva ao Pai-Nosso: “perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.

III – A Temperança

A virtude que nos oferece a resposta para as exigências da vida cristã. A temperança, de acordo com o ensinamento da Igreja, é “a virtude moral que modera a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados” (Catecismo da Igreja Católica, 1809). Segundo este mesmo ensinamento, aquele que possui esta virtude tem domínio da vontade sobre os instintos e seus desejos não ultrapassam os limites da honestidade, com que deve portar-se todo ser humano. Por isso, no Novo Testamento esta virtude é chamada também de “moderação”, “sobriedade”, como em Tt 2,12, onde Paulo diz que devemos “viver com moderação, justiça e piedade neste mundo”.

Assim, como fruto desta virtude, tem-se a moderação nos prazeres sensíveis e a busca pelo equilíbrio no uso dos bens que Deus nos dá. Portanto, na virtude da temperança inclui-se a virtude da castidade, já que a temperança “tem em vista fazer depender da razão a paixões e os apetites da sensibilidade humana” (Catecismo da Igreja Católica, 2341). Inclui-se ainda tal proceder que evita os abusos no comer e no beber, a modéstia no vestir, a cautela ao frequentar lugares que podem não ser próprios a um cristão, etc. Assim, o homem seguirá aquilo que as Sagradas Escrituras pedem:”Não te deixes levar por tuas paixões e refreia os teus desejos” (Eclo 18,30).

“O homem temperante é aquele que é senhor de si mesmo; aquele em que as paixões não tomam a supremacia sobre a razão, sobre a vontade e também sobre o coração. Entendamos portanto como a virtude da temperança é indispensável para que o homem seja plenamente homem, para que o jovem seja autenticamente jovem. O triste e aviltante espetáculo dum alcoólico ou dum drogado faz-nos compreender claramente como ‘ser homem’ significa, antes de qualquer outra coisa, respeitar a própria dignidade, isto é, deixar-se alguém conduzir pela virtude da temperança. Dominar-se a si mesmo, as próprias paixões e a sensualidade não significa de maneira nenhuma tornar-se alguém insensível ou indiferente; a temperança de que falamos é virtude cristã, que aprendemos com o ensino e o exemplo de Jesus, e não com a chamada moral ‘estoica’”; (Sua Santidade, o Papa João Paulo – Discurso durante o Encontro com os Jovens na Basílica Vaticana).

IV – Fortaleza

A virtude da fortaleza é aquela que nos dota de segurança em tudo que fazemos, principalmente nos momento que mais precisamos, nas dificuldades e contrariedades, ajudando-nos a vencer o medo, como Cristo sempre pediu, em diversos momentos: “Não tenhais medo” (como em Mt 14,27). Esta virtude dá-nos, ainda, suporte e constância na procura do bem, firmando uma resolução de resistir às tentações e superar os obstáculos na vida moral (Cf. Catecismo da Igreja Católica, 1808).

A força, deve ficar claro a todos, não é virtude apenas dos heroicos, que expõe sua vida em favor de outro. A fortaleza está em cada atitude, escolha feita pelo homem, nos atos heroicos que passam despercebidos em nosso dia a dia.

“Segundo a doutrina de São Tomás, a virtude da fortaleza encontra-se no homem: que está pronto a “aggredi pericula”, isto é, a afrontar o perigo; que está pronto a “sustinere mala”, isto é, a suportar a adversidade por uma causa justa, pela verdade, pela justiça, etc. A virtude da fortaleza requer sempre alguma superação da fraqueza humana e sobretudo do medo. O homem, de fato, por natureza teme espontaneamente o perigo, os dissabores e os sofrimentos. preciso, por isso, procurar os homens corajosos não só nos campos de batalha, mas também nas salas dum hospital ou num leito de dor. Tais homens podiam-se encontrar muitas vezes nos campos de concentração e nos locais de deportação. Eram autênticos heróis” (Sua Santidade o Papa João Paulo II, Audiência Geral de 15/11/1978).

(Comunidade Shalom)

O que é Transverberação

O fenômeno da transverberação ficou conhecido principalmente por causa da famosa escultura de Gian Lorenzo Bernini, chamada “O Êxtase de Santa Teresa”, que está na Igreja de Santa Maria della Vittoria, em Roma. Essa magnífica obra barroca retrata uma experiência relatada pela própria Santa Teresa de Jesus, em sua autobiografia:

“Quis o Senhor que eu tivesse algumas vezes esta visão: eu via um anjo perto de mim, do lado esquerdo, em forma corporal, o que só acontece raramente. Muitas vezes me aparecem anjos, mas só os vejo na visão passada de que falei. O Senhor quis que eu o visse assim: não era grande, mas pequeno, e muito formoso, com um rosto tão resplandecente que parecia um dos anjos muito elevados que se abrasam. Deve ser dos que chamam querubins, já que não me dizem os nomes, mas bem vejo que no céu há tanta diferença entre os anjos que eu não os saberia distinguir.

Vi que trazia nas mãos um comprido dardo de ouro, em cuja ponta de ferro julguei que havia um pouco de fogo. Eu tinha a impressão de que ele me perfurava o coração com o dardo algumas vezes, atingindo-me as entranhas. Quando o tirava, parecia-me que as entranhas eram retiradas, e eu ficava toda abrasada num imenso amor de Deus. A dor era tão grande que eu soltava gemidos, e era tão excessiva a suavidade produzida por essa dor imensa que a alma não desejava que tivesse fim nem se contentava senão com a presença de Deus. Não se trata de dor corporal; é espiritual, se bem que o corpo também participe, às vezes muito. É um contato tão suave entre a alma e Deus que suplico à Sua bondade que dê essa experiência a quem pensar que minto.”[1]

De acordo com a descrição de Santa Teresa, está a se falar, sobretudo, de uma experiência extraordinária do amor de Deus. Como muitos não acreditaram no que ela relatou – a própria santa faz referência “a quem pensar que minto” –, o próprio Deus fez questão de mostrar a veracidade do que ela dizia. Em 1591 – dez anos após a sua morte e vinte após a sua transverberação –, exumaram o seu corpo e perceberam que estava incorrupto. Então, a pedido de um bispo, o coração de Teresa foi retirado, a fim de que fosse exposto na cidade de Alba de Tormes, onde ela morreu. Para espanto geral, havia em seu coração uma ferida cicatrizada, com sinais de cauterização – o que se encaixa perfeitamente com a experiência da transverberação, quando foi penetrada por um “dardo de ouro comprido” em cuja ponta de ferro “parecia que tinha um pouco de fogo”: o atestado divino de que esse fenômeno é verdadeiro e a santa não estava mentindo.

A própria Igreja, porém, tem critérios muito rigorosos para aprovar esses tipos de milagres. O padre Quevedo, no livro “Os Milagres e a Ciência”, fala, por exemplo, do cardeal Prospero Lambertini – Papa Bento XIV –, que, com bastante cuidado científico, investigou o caso da transverberação de Santa Teresa e defendeu a fé católica contra embustes e falsificações, aprovando esse fato extraordinário.

Mas, em que consiste, de fato, a transverberação? Trata-se de uma experiência que, antes de qualquer coisa, acontece na alma. Santa Teresa mesma diz que a dor causada pelo dardo místico do anjo “não é dor corporal, mas espiritual”. No caso dela, bem como no caso de São Pio de Pietrelcina e de São Francisco de Assis, a transverberação teve efeitos também corporais. Mas eles não são necessários, como explica São João da Cruz:

“Se Deus, por vezes, permite que se produza algum efeito exterior, nos sentidos, semelhante ao que se passou no espírito, aparece a chaga e ferida no corpo. Assim aconteceu quando o serafim feriu a São Francisco: chagando-o de amor na alma com as cinco chagas, também se manifestou o efeito delas no corpo, ficando as chagas impressas na carne, tal como foram feitas na alma ao ser chagada de amor. Em geral, não costuma Deus conceder alguma mercê ao corpo, sem que primeiro e principalmente a conceda no interior, à alma.”[2]

No processo de santificação, o mais importante é o que acontece no espírito, não no corpo. Por isso, adverte ainda São João da Cruz, “quanto mais intenso é o deleite, e maior a força do amor que produz a chaga dentro da alma, tanto maior é também o efeito produzido na chaga corporal, e crescendo um, cresce o outro”[3]. Ou seja, a medida verdadeiramente extraordinária desse fato não está senão no interior, no que acontece à alma.

Santa Teresinha do Menino Jesus também passou por essa realidade mística, mas sem receber chagas corporais. Em um relato do dia 7 de julho de 1897, recolhido no “Caderno Amarelo”, de Madre Inês de Jesus, é possível ler:

“Começava a minha Via Sacra quando, de repente, fui tomada por um amor tão violento pelo Bom Deus, que não posso explicar isso senão dizendo que era como se me tivessem mergulhado toda no fogo. Oh! Que fogo e que doçura ao mesmo tempo! Eu ardia de amor e sentia que um minuto, um segundo a mais, e não conseguiria mais suportar tal ardor sem morrer. Compreendi, então, o que dizem os Santos sobre esses estados que eles experimentaram tantas vezes.”[4]

Mas, afinal, o que acontece à alma transverberada? Ela é completamente invadida pelo amor divino. É Deus mesmo quem age na alma para aumentar nela a caridade.

Isso é feito no sentido de aumentar a comunhão da alma com Deus. Algumas pessoas têm uma visão equivocada de santidade: acham que é um “moralismo”, em que se seguem os mandamentos e, com as próprias forças, se chega à perfeição. Mas a santidade não é isso. Ela é, ao invés, o progresso no amor: Deus derrama em nossos corações o Seu Espírito e purifica o nosso amor, até chegarmos à caridade perfeita, às últimas moradas do nosso “castelo interior”.

Como se dá esse processo? Primeiro, acontece a conversão, quando se deixa a vida de pecado e se trilha a “via purgativa”, com oração e mortificações. Então, não havendo mais o que se purificar ativamente, Deus prova a alma pela “noite escura dos sentidos” e pela “noite escura da alma”, depois das quais ela se encontra em um estágio elevado de santificação.

Santa Teresa recebeu o dom da transverberação quando estava na sexta morada. Tendo passado pela “união árida” (também chamada “noite escura”), não tinha ainda chegado à perfeição. Ela encontrava-se em um estágio intermediário, chamado de “união extática”, em que alma recebe os fenômenos extáticos, é tocada pelo amor, mas ainda existem muitos altos e baixos. Faltava-lhe passar pela “união transformante”, na qual a alma se configura definitivamente a Cristo – o que aconteceu quando ela entrou na sétima morada.

São João da Cruz, ainda em seu “Chama Viva de Amor”, descreve com detalhes a transverberação:

“Acontece-lhe, então, sentir que um serafim investe sobre ela, com uma flecha ou dardo todo incandescente em fogo de amor, transverberando esta alma que já está inflamada como brasa, ou, por melhor dizer, como chama viva, e a cauteriza de modo sublime. No momento em que é cauterizada assim, e transpassada a alma por aquela seta, a chama interior impetuosamente irrompe e se eleva para o alto com veemência, tal como sucede num forno abrasado ou numa fogueira quando o fogo é revolvido e atiçado, e se inflama em labareda. A alma, então, ao ser ferida por esse dardo incendido, sente a chaga com sumo deleite. Além de ser toda revolvida com grande suavidade, naquele incêndio e impetuosa moção que lhe causa o serafim, provocando nela grande fervor e amoroso desfalecimento, ao mesmo tempo sente a ferida penetrante e a força do veneno com que vivamente estava ervada aquela seta, qual uma ponta afiada a enterrar-se na substância do espírito, a traspassar-lhe o mais íntimo da alma.”[5]

Em resumo, a transverberação é Deus agindo na alma para purificar o amor humano e levar à paz definitiva com Cristo já nesta terra. Assim conduzida, a alma santificada pode finalmente dizer: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim”[6].

Referências bibliográficas

  1. O Livro da Vida, capítulo 29, n. 13
  2. Chama Viva de Amor, canção II, n. 13. In Obras Completas, volume II, p. 131
  3. Ibidem
  4. Santa Teresinha do Menino Jesus, Obras completas escritos e últimos colóquios. São Paulo: Paulus, 2002. p. 897
  5. Chama Viva de Amor, canção II, n. 9. In Obras Completas, volume II, p. 130
  6. Gl 2, 20

    Padre Paulo Ricardo