Modéstia: como as mulheres devem se portar?

Dando às mulheres uma falsa liberdade e poder, a reengenharia social está mudando a natureza feminina e destruindo a dignidade que lhes foi conferida pelo próprio Deus. Como resistir a essa investida? De que modo as roupas e o modo de se portar podem influenciar na posição da mulher dentro da sociedade?

I. Introdução

Temos dedicado nossas últimas aulas ao especial estatuto de dignidade que as mulheres, desde as origens do cristianismo, têm perante os olhos da Igreja Católica [1]. Começamos esta série de considerações como que pela cúpula do edifício; após abordarmos a dignidade feminina em si mesma, fomos dela extraindo as notas que fazem da mulher, ao lado do homem, um ser único na ordem da criação. Igualmente feita para servir e amar a Deus, a mulher, segundo o projeto divino, é complemento—corporal, psíquico e espiritual—do homem, ao qual não convinha ficar só (cf. Gn 2, 18). Este caráter complementar se expressa quer na feminilidade que lhe é própria e lhe confere todos aqueles atributos que a distinguem do sexo masculino, quer na tendência natural que a leva a unir-se em sociedade àquele de cuja costela provém [2]. Dando continuidade ao assunto, falaremos hoje da modéstia feminina. Ao contrário do que se costuma fazer, porém, evitaremos encarar o tema sob uma perspectiva estritamente moralista; não se trata, noutras palavras, de determinar o que as mulheres podem ou não vestir. Ora, uma tal abordagem, embora possa ter alguma utilidade em certos casos, além de tornar a questão antipática a muitos, parece desviar-se do centro do problema; longe de resumir-se, pois, a um inventário de vestidos mais ou menos escandalosos, a questão da modéstia feminina deve ser situada dentro daquilo que é o projeto de Deus para a reta convivência entre homens e mulheres.

II. «O despertar da concupiscência»

Há na mulher, com efeito, algo que atrai o olhar masculino; este poder atrativo, todavia, não é uma realidade decorrente da queda de nossos primeiros pais nem tampouco uma degradação da natureza humana. Os capítulos iniciais do Gênesis trazem elementos bastante esclarecedores a este respeito e indicam de modo indireto as forças que entram em cena quando homem e mulher se põem cara a cara. Ao concluir Sua obra, Deus decide dar ao homem um auxiliar que lhe correspondesse; por isso, conduz a Adão todas as feras selvagens e todas as aves do céu e fá-las desfilar ante seus olhos para ver como ele as chamaria (cf. Gn 2, 18-9). Este trecho da narrativa bíblica já delineia uma peculiaridade muito significativa do modo de ser do varão, a saber: ele se guia sobretudo pela visão. Tendo enfim contemplado toda a criação e dado nomes às feras selvagens, Adão não encontrou entre os animais nenhuma companheira que lhe estivesse à altura. O Senhor então fez cair sobre ele um torpor, tomou “uma de suas costelas e fez crescer carne em seu lugar. Depois da costela que tirara do homem, Deus modelou uma mulher e a trouxe ao homem” (Gn 2, 20-1); vendo-a, Adão exclama, admirado: “Esta, sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne! Ela será chamada ‘mulher’ [‘îsha], porque foi tirada do homem [‘îsh]” (Gn 2, 23).

Simples e singela, a admiração de Adão ao ver Eva pela primeira nos dá a conhecer tanto o desejo de Deus para a relação entre eles quanto a dinâmica deste relacionamento antes da queda: há na mulher, como dissemos, uma beleza própria e fundamental que, traduzindo ao seu modo a própria beleza divina, encanta e enleva o homem. Ora, o estado de justiça e inocência de que gozavam no paraíso permitia-lhes não se envergonharem diante da nudez (cf. Gn 2, 25), pois a vontade de ambos estava de tal sorte ordenada, que nem a carne poderia desejar algo contra o espírito nem o espírito, algo contra a carne [3]. De fato, como poderiam envergonhar-se [4], se não sentiam ainda em seus membros nenhuma lei que repugnasse à lei de suas consciências (cf. Rm 7, 23) [5]? Como, no entanto, desobedecessem a Deus, que lhes proibira comer do fruto da árvore da ciência do bem e do mal (cf. Gn 2, 16-7), logo perderam a santidade em que foram constituídos; Adão e Eva, deste modo, não apenas incorreram na justa ira divina, mas, despojados de sua justiça e sujeitos à morte, que, como pena, lhes fora cominada, tronaram-se também cativos do demônio [6]. É, portanto, apenas quando a desordem do pecado entra no mundo que eles, envergonhados de sua nudez, se escondem da presença de Deus. A partir deste momento, começa a haver uma profunda distorção seja no modo como o homem vê o corpo feminino, seja na forma em que a mulher se apresenta aos olhos masculinos. Por isso, o Senhor tece-lhes túnicas de pele para se cobrirem.

III. A virtude da modéstia

§ 1. Necessidade. — Daí possuir, no estado atual, uma dádiva verdadeiramente extraordinária o homem capaz de olhar para as mulheres e, sem desejá-las, reconhecer nelas a beleza divina. Mas por tratar-se de dom raríssimo, é necessário que ambos os sexos, com o auxílio da Graça, desenvolvam aquelas virtudes responsáveis por regular nosso apetite concupiscível segundo a reta razão. Com efeito, a modéstia de que vamos falar se inscreve no âmbito das quatro grandes virtudes humanas, ou seja: a prudência, a temperança, a justiça e a fortaleza. Uma vez que a função de moderar nosso desejo pelos prazeres não só venéreos, mas também alimentares cabe à temperança [7], é a esta que a modéstia deve ordenar-se e servir de auxílio. Como toda e qualquer virtude, também a temperança tem por objetivo orientar nossos atos aos fins estabelecidos por Deus. Ora, o Criador quis vincular um prazer sensível àquelas operações naturais que são necessárias à conservação tanto da vida individual (pela comida) quanto da espécie (pela procriação) [8]; daqui provém, pois, “a veemente inclinação do homem aos prazeres do gosto e do apetite genésico, que tem aquela altíssima finalidade, querida e fixada pelo Autor mesmo da natureza.” [9] Daí também se vê a necessidade de uma virtude incumbida de manter dentro de justos limites os movimentos que nos impelem a uma busca quase sempre desenfreada por toda sorte de deleites.

A fim de compreender melhor esta função ancilar da modéstia, devemos ter em mente que a temperança, enquanto virtude cardeal, modera nossos apetites pelos prazeres mais intensos do tato, pois, como diz Santo Tomás de Aquino,

A temperança está para os […] prazeres assim como a fortaleza, para os temores […]. Ora, a fortaleza ocupa-se com os temores […] referentes àqueles males maiores pelo quais se destrói a natureza, que são os perigos de morte; do mesmo modo, convém que a temperança se ocupe com os desejos dos maiores prazeres. Dado que o prazer decorre de uma operação natural, certos prazeres serão tanto mais intensos quanto mais naturais forem as operações de que derivam. Ora, as operações mais naturais aos animais são aquelas mediante as quais se conserva, pelo alimento, a vida do indivíduo e, pela conjunção sexual, a perpetuação da espécie; por isso, a temperança diz respeito propriamente aos prazeres da comida e da bebida e aos prazeres venéreos. Ora, tais prazeres derivam do sentido do tato. Donde se conclui que a temperança diz respeito aos prazeres táteis. [10]
Existem, contudo, outras espécies de estímulo sensível que, além do tato, implicam alguma forma de prazer, como, por exemplo, a imagem de uma bela mulher que provoca no homem libidinoso certos movimentos carnais, ou um aroma agradável capaz de inspirar-nos fome. Tais prazeres, na medida em que se ordenam aos gozos sexual e alimentar propriamente ditos, devem ser moderados pela temperança apenas mediata e secundariamente, isto é, por meio de virtudes específicas a ela anexas [11] que serão tanto mais eficazes quanto mais bem enraizada for a temperança. Estas “pequenas virtudes”, também chamadas partes potenciais, referem-se tão-só a aspectos determinados e, portanto, menos principais e mais fáceis da matéria a que virtude cardeal sob cuja influência atuam aplica-se primária e principalmente [12]. De fato, já que à temperança cumpre moderar os prazeres mais fortes do tato, pode-se considerar parte potencial dela qualquer outra virtude que exerça alguma moderação em matérias menos difíceis e ordene, em sua linha, algum desejo desordenado por prazer. Ora, onde quer que haja uma virtude que se ocupe com o que é mais difícil, convém que haja também uma virtude que se ocupe com o que é mais fácil, pois a vida humana deve regular-se pela virtude em todos os níveis. Com efeito, do mesmo modo como a virtude da magnificência diz respeito às grandes riquezas, assim também a liberalidade se refere às quantias mais modestas. Neste sentido, a temperança modera o que é mais difícil, isto é, os prazeres do tato; por isso, é preciso que haja uma outra virtude que regule os prazeres mais facilmente moderáveis: e esta virtude é a modéstia [13].

§ 2. Dependência de outras virtudes. — Enquanto virtude anexa, a modéstia está condicionada pela boa educação das duas virtudes integrantes da temperança, ou seja, da vergonha e da honestidade. De fato, apenas com grande dificuldade pode tornar-se temperante quem não foi ensinado a ser honesto e a envergonhar-se do pecado. A vergonha de que falamos não é, em sentido próprio, uma virtude, mas antes uma espécie louvável de paixão que, dispondo-nos à temperança [14], nos inclina a temer a feiura do pecado. Trata-se de paixão, porque implica alguma forma de “alteração corporal (enrubescimento, tremedeira…); e é louvável, porque este temor, regulado pela razão, infunde horror à torpeza” [15]. Assim como a vergonha é o temor e, por conseguinte, a fuga da perversão do pecado, a honestidade é o amor e, portanto, a busca pelo decoro proveniente da prática da virtude: “A honestidade”, diz o Aquinate, “é certa beleza espiritual” [16]; ora, dado que o torpe se opõe ao belo, “a honestidade corresponderá de maneira especial àquela virtude que tenha por objeto evitar o torpe” [17], isto é, à temperança. Por estas razões, devem os pais esmerar-se em educar os filhos, desde a mais tenra idade, nestas duas virtudes: elas são, por assim dizer, as guardiãs da castidade e da temperança; abandonadas estas custódias, é comum o homem precipitar-se nas mais sórdidas imundícies da luxúria e da intemperança.

§ 3. Espécies. — Resta-nos falar um pouco de mais perto sobre a modéstia. Já vimos tratar-se de uma virtude anexa à temperança e cuja finalidade é moderar todos os outros movimentos menos difíceis, mas que, em todo caso, precisam ser regulados, pois, assim como a temperança é moderadora do apetite primário pelos prazeres do tato, a modéstia regula nosso apetite desordenado por formas secundárias de prazer. Ora, este apetite desregrado pode dar-se em quatro âmbitos principais, quais sejam: a) no movimento interior da alma em busca de sua própria excelência, que é a soberba moderada pela humildade; b) no desejo natural de conhecer, que é a curiosidade moderada pela estudiosidade; c) nos movimentos corporais exteriores, que são regulados pela modéstia corporal; e d) nos trajes exteriores, que são ordenados pela virtude da modéstia no vestir-se [18].

Sob a modéstia, portanto, está contida uma série de outras virtudes que podem assim ser esquematizadas:

Movimentos interiores: (a) humildade e (b) estudiosidade.
Movimentos exteriores: (c) modéstia corporal e (d) modéstia no vestir-se.
§ 4. A modéstia no vestir-se. — Se bem não possa haver nas coisas exteriores nem vício nem virtude em sentido estrito, o uso que delas fazemos, no entanto, pode configurar uma atitude mais ou menos pecaminosa; ora, o mau uso de tudo quanto serve à nossa utilidade pode ser ou por excesso, ou por defeito; por isso, é necessária uma virtude que, relativamente aos trajos humanos, guarde a devida ordem no cuidado do corpo e na maneira com que nos vestimos, a fim de evitar não só a vulgaridade, mas também toda deselegância e exagero [19]. De um modo geral, a desordem no vestir-se pode manifestar-se a) em relação ao costume dos homens de mesma condição com os quais vivemos: “É indecorosa”, escreve Santo Agostinho, “a parte que não se acomoda ao todo” [20], pois a modéstia inclina o homem a apresentar-se em conformidade com o seu sexo (se é mulher, por exemplo) e estado (casada ou solteira) e de acordo com a ocasião (formal ou informal) e os costumes do tempo em que vive; e b) por um desordenado afeto que leva a abusar ou fazer pouco caso dos bons costumes.

Com efeito, o uso das roupas pode ser abusivo ou excessivo de três maneiras, a saber: 1.º) por excessiva solicitude, quando se gasta demasiado tempo, atenção ou dinheiro na procura por roupas e ornamentos elegantes; 2.º) por vaidade, quando se procura tão-somente atrair olhares e a admiração alheia; e 3.º) por lascívia, se o fim desejado é estimular a imaginação e a sensualidade de terceiros. Pode-se pecar também por defeito, e isto de dois modos: 1.º) se, por negligência, despreza-se a ordem e o cuidado devido ao corpo e a decência com que convém seja apresentado às pessoas; e 2.º) por vanglória, se o desalinho e a pobreza das roupas servem de pretexto para simular uma humildade falsa e hipócrita [21]. Todos estes vícios podem ser combatidos se, ao nos vestirmos, tivermos em mente a humildade, a simplicidade e a justa diligência devidas ao cuidado externo, porque, ainda que simples e discretas, nossas roupas têm de ser limpas e minimamente bem cuidadas: “Conserva”, recomenda São Francisco de Sales, “um asseio esmerado, Filotéia, e nada permitas em ti rasgado ou desarranjado. É um desprezo das pessoas com quem se convive andar no meio delas com roupas que as podem desgostar; mas guarda-te cuidadosamente das vaidades e afetações, das curiosidades e das modas levianas.” [22].

§ 5. Os ornamentos femininos. — Do que foi dito segue-se, pois, que às mulheres é lícito vestir-se e enfeitar-se com o fito de aumentar a própria beleza, desde que se evite todo escândalo e não se pretenda nenhum fim desonesto. A dificuldade a este respeito, porém, deve-se tanto ao fato de a aparência feminina provocar mais facilmente a lascívia no homem do que o contrário quanto à peculiar tendência que as mulheres têm para o uso desordenado da própria beleza e, por conseguinte, de tudo o que a possa manifestar ou acentuar. Por isto, sempre se discutiu em que circunstâncias podem as mulheres ornar-se a fim de agradar os homens. Apesar de certos rigorismos, a posição de muitos teólogos é a de que, embora possam, sim, enfeitar-se, apenas à mulher casada é lícito vestir-se de modo a seduzir ou agradar seu marido. Portanto, é contrário não só à reta razão, mas também à caridade usar qualquer tipo de vestido ou adereço que induza alguém a pecar contra a castidade. As jovens que desejam casar-se podem também, guardada a decência, vestir-se a fim de encontrar um noivo; as mulheres porém que não têm marido ou não desejam tê-lo nenhuma razão têm para, sem pecado, vestir-se a fim de atrair os olhares masculinos, porque desejar excitar a concupiscência de alguém nada mais é do que incentivá-lo a pecar [23]. Se por acaso a mulher se veste de modo provocativo não com a intenção expressa de seduzir, mas movida antes por certa leviandade, vaidade ou falta de boa formação, peca apenas venialmente, pois não há neste comportamento nenhuma grave desordem, mas apenas certa jactância, vanglória ou desejo de aparecer. É ainda possível que estejam totalmente isentas de pecado as mulheres que, não agindo por vaidade, mas por um costume pouco recomendável, se vistam de forma contrária à decência e ao pudor [24]. Todos estes princípios, aliás, devem ser observados também pelos homens.
Padre Paulo Ricardo 

Referências

Cf. Paulo VI,Discurso às participantes do Encontro Nacional do Centro Feminino Italiano (CIF), 6 dez. 1976; v. João Paulo II, Carta apost. Mulieris Dignitatem, de 15 ago. 1988, n. 1 (AAS 80 [1988] 1654).
Cf. Tomás de Aquino, Sum. Th. I, q. 92, a. 3.
Cf. A. Knoll, Institutiones Theologiae Theoreticae, Augustae Taurinorum, 1865, vol. 1, p.  318, § 171.
Cf. Tomás de Aquino, Sum. Th. II-II, q. 144, a. 1, resp. e a. 2, resp.
Cf. Agostinho, De Gen. ad lit, XI, c. 1, 3 (PL 34, 430).
Cf. Pedro Canísio, Summa Doctrinae Christianae, Landishuti, ex officina J. Thomann, 1862, p. 237, § 1.
Cf. D. Prümmer, Manuale Theologiae Moralis. 5.ª ed., Herder: Barcinone, Friburgi Brisgorviae, Romae, 1961, vol. 2, p. 496, n. 643.
Cf. Id., p. 497, n. 644.
Antonio R. Marin, Teología de la Perfección Cristiana. 4.ª ed., Madrid: BAC, 1962, p. 560, n. 343, 2.
Tomás de Aquino, Sum. Th. II-II, q. 141, a. 4, resp.
Cf. D. Prümmer, op. cit., p. 498, n. 644.
Cf. Antonio R. Marin, op. cit., p. 108, n. 60.
Cf. C.-R. Billuart, Cursus Theologiae Universalis, Wirceburgi, 1752, vol. 2, diss. 7, a. 4, p. 873,
Cf. Tomás de Aquino, Sum. Th. II-II, q. 144, a. 4, ad 4.
Antonio R. Marin, op. cit., p. 561, n. 345.
Tomás de Aquino, Sum. Th. II-II, q. 145, a. 4.
Antonio R. Marin, op. cit., loc. cit., n. 346.
Cf. Id., p. 567 n. 354.
Cf. Id., p. 578, n. 364; D. Prümmer, op. cit., p. 550, n. 717; C.-R. Billuart, op. cit., p. 876.
Agostinho, Conf. III, c. 8 (PL 32, 690).
Antonio R. Marin, op. cit., p. 579, n. 364; C.-R. Billuart, op. cit., p. 877; A. Tanquerey, Synopsis Theologiae Moralis et Pastoralis. 7.ª ed., Tornaci: Desclée & socii, 1922, vol. 2, p. 635, n. 1092.
Francisco de Sales, Filotéia, III, c. 25. Trad. port. de Fr. João J. P. de Castro. 8.ª ed., São Paulo: Vozes, 1958, p. 236.
Cf. A. Tanquerey, op. cit., loc. cit.; C.-R. Billuart, op. cit., loc. cit.
Cf. Tomás de Aquino, Sum. Th. II-II, q. 169, a. 2, resp.

Caminho da perfeição

“Mestre, o que devo fazer de bom para possuir a vida eterna?”(Mt 19,16)

É importante que possamos abrir a Palavra em Mt 19,16-22, e lermos, contemplarmos a cena do encontro de Jesus com aquele jovem.

Interessante como o jovem se aproxima de Jesus perguntando: o que devo fazer de bom para possuir a vida eterna?  Lógico que, ele veio à Jesus porque havia em seu coração o desejo da vida eterna, mas trazia uma mentalidade, que nós também as vezes trazemos, que parte de nós realizarmos atos bons, para desta, sermos “recompensados” com o direito,  um lugar no céu. Como se nossa salvação dependesse de nossas forças e não da Graça de Deus.

Primeiramente necessitamos ter em mente que, como a Palavra nos diz, Bom só Deus. Um ato, um pensamento bom que tenhamos, já é Deus agindo em nós.

Segundo é que, o caminho que Deus escolheu para nós é outro, não o de méritos e recompensas, mas do Amor. É o Caminho que se inicia na obediência a Sua Vontade, aos seus Mandamentos, não por ser uma lei a ser cumprida, para não sermos castigados ou conseguirmos algo, mas porque experimentamos o Amor gratuito de Deus por nós, e em resposta, por gratidão, nosso coração  inflamado deste amor, só terá  o desejo de fazer a vontade de Deus, e que outros também a experimentem.

“Se tu queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me.”(Mt 19,21)

É interessante que, a medida que vamos nos aprofundando na intimidade com Deus, seguir os seus mandamentos, não será pesado, muito menos cansativo, mas o Espírito Santo vai escrevendo em nosso coração a vontade de Deus, e dentro de nós vai crescendo o desejo de, dia a após dia, alegrarmos o coração de Deus, além de ir aparecendo  uma rejeição a tudo que fere o Seu Coração.

Começamos, então, a trilharmos o Caminho da Perfeição, que todos os Santos trilharam, que não é um caminho para os perfeitos, mas para os pobres, que é caminhar segundo a vontade de Deus.

A medida que caminhamos, chegará um momento que, iremos abrir mão de todas as riquezas que possuímos, que nos impedem de caminharmos, sejam interiores ou exteriores. Sim, interiores, as riquezas mais escondidas, que ninguém as conhece, só você e Deus.

Quando leio a Palavra do jovem rico, sempre me vem ao coração que , as riquezas que ele possui poderiam ser interiores e/ou exteriores. Porque, as vezes, podemos cair no engano de pensarmos que se trata apenas das riquezas exteriores, mas quantas riquezas e apegos interiores trazemos que nos impedem de fazer a vontade de Deus! Aquele jovem, exteriormente, para o povo, cumpria todos os preceitos da lei, mas as riquezas interiores, ninguém podia ver, só ele as conhecia.

Quantos “achismo” trazemos das nossas formações humanas, culturais, familiares, e pensamentos pessoais, que não queremos nos desapegarmos para trilharmos o Caminho que Deus escolheu para nós! Fazemos tudo muito correto, exteriormente, mas o que nos é mais caro para nos desapegarmos, ficamos guardando, escondendo. Pode até acontecer de encontrarmos Jesus, como o jovem, mas não temos a coragem de abrir mão de tudo, pelo Tudo, que é Deus.

“Em verdade vos digo que o rico dificilmente entrará no Reino dos Céus”(Mt 19,23).

A maior riqueza que o homem deverá, cultivar e guardar, é a pobreza. Porque o pobre é aquele que depende em tudo de Deus, e nada deseja possuir se não for para a Glória de Deus. Tem consciência que é um administrador dos Dons, das coisas de Deus.

O pobre caminha na humildade e obediência, acreditando e acolhendo a vontade de Deus, como Nossa Senhora.

O pobre acredita que, em Deus, esta toda a sua riqueza. Os bens materiais ou espirituais, não lhe trás nenhuma vaidade, aproveita-os para expandir o Reino de Deus, com o desejo que todos descubram o que ele descobriu: o único Tesouro que deixará o homem verdadeiramente rico, saciado e feliz,  esta no Coração de Jesus, o Amor. É neste Amor que nos é resgatado a Dignidade de Filhos de Deus. Eis o grande Tesouro, que só experimentam os filhos de Deus.

Peçamos ao Senhor, pela intercessão de Maria, Mãe da Divina Misericórdia, que nos dê a graça de trilharmos o Caminho da Perfeição, onde a nossa única riqueza seja Jesus.

Natal, 19 de agosto de 2019

Janet Melo de Saboia Alves

Co-Fundadora da Comunidade Católica Reviver pela Misericórdia

Como os grupos LGBTQ estão destruindo as normas e mudando a educação

Hora da Drag Queen: nos principais centros urbanos dos Estados Unidos, drag queens leem contos para crianças em idade pré-escolar.

Foto: DivulgaçãoDennis PragerDaily Signal[15/08/2019] [13:52]

Praticamente todas as semanas surge algum problema que deixa os Estados Unidos preocupados.
Mas com nossa atenção voltada para o presidente Donald Trump, Google, Charlottesville, Rússia, impeachment, Jeffrey Epstein, as próximas eleições, racismo, guerra comercial com a China, o movimento #MeToo ou qualquer outra coisa, as organizações LGBTQ trabalham em silêncio para desmantelar as normas éticas, zombando da educação, arruinando a vida de pessoas inocentes e destruindo a ingenuidade infantil.
Se você acha que estou exagerando, eis aqui alguns exemplos:
A destruição dos esportes femininos
No último mês, uma levantadora de peso transgênero ganhou várias medalhas de ouro nos Jogos do Pacífico 2019, em Samoa. Laurel Hubbard, da Nova Zelândia, ganhou duas medalhas de ouro e uma de prata em três categorias de levantamento de peso para mulheres com mais de 87 quilos. Hubbard é fisicamente um homem.
Ano passado, dois homens biológicos de duas escolas de ensino médio diferentes de Connecticut competiram na divisão feminina da competição estadual de atletismo. Eles chegaram em primeiro e segundo lugares nos 100 e 200 metros rasos.
Como o Ocidente se acovarda diante das exigências dos grupos LGBTQ, ainda que isso seja injusto para as atletas mulheres, os homens que se consideram mulheres têm permissão para competirem contra elas.
E eles quase sempre ganham.
A destruição do gênero – ainda no nascimento
Como relatado pela Associated Press: “Pais também podem escolher o gênero ‘X’ para os recém-nascidos. Nova York está se juntando à Califórnia, Óregon e Washington, permitindo que o gênero não seja designado nas certidões de nascimento. Uma medida semelhante entra em vigor em Nova Jersey em fevereiro”.
Que porcentagem de norte-americanos acredita que as crianças têm sorte se nascem em famílias cujos pais não as identificam como homens ou mulheres quando do nascimento? Por outro lado, quantos de nós achamos que esses pais estão praticando uma forma de abuso infantil?
A destruição da inocência infantil e da autoridade parental
A Associated Press recentemente também informou que “a Califórnia reformulou seu manual de educação sexual, voltado para os professores das escolas públicas, encorajando-os a falarem de identidade de gênero para os alunos do jardim de infância”.
Tatyana Dzyubak, uma professora do ensino fundamental na região de Sacramento, reclamou: “Eu não deveria estar ensinando essas coisas. Isso cabe aos pais”.
Mas os pais e a autoridade parental sempre foram um empecilho para o totalitarismo. Portanto, a destruição da autoridade parental é um dos principais objetivos da esquerda, da qual as organizações LGBTQ são um dos principais componentes.
Hoje as bibliotecas dos principais centros urbanos promovem a Hora da Drag Queen – na qual drag queens leem histórias para crianças em idade pré-escolar. (Leia, por exemplo, o laudatório artigo “A Hora da Drag Queen Traz o Arco-íris para a Leitura”, publicado no New York Times em 19 de maio de 2017).
Há algumas semanas, o famoso apresentador e ator Mario Lopez disse à analista conservadora Candace Owens:
Se você tem três anos de idade e está dizendo que se sente de uma certa forma ou que acha que é menino ou menina, seja qual for o caso, acho perigoso que um pai tome uma decisão a respeito disso: “OK, então você seja menino ou menina” (…) Acho que os pais precisam deixar que os filhos sejam crianças, mas ao mesmo tempo você precisa ser o adulto na situação.
Por expressar com sensibilidade e respeito o que qualquer pai de uma criança de três anos de deveria dizer, ele foi condenado pela GLAAD (Aliança de Gays e Lésbicas contra a Difamação) e a PFLAG (Pais e Amigos de Lésbiscas e Gays), duas das maiores organizações LGBTQ. Sabendo que sua fonte de renda estava em jogo, ele imediatamente recuou do que disse.
Ao estilo da Revolução Cultural Chinesa, ele recuou de tudo o que disse e ainda afirmou que tinha muito o que aprender sobre pais permitirem que crianças de três anos escolham o próprio gênero.
A destruição das normas educacionais
Semana passada, a CNN transmitiu uma reportagem que dizia:
O governador de Illinois, J.B. Pritzker, sancionou uma lei que a contribuição dos LGBTQ será ensinada nas escolas públicas. (…) [A lei diz que] ‘Nas escolas públicas, o ensino de história deve incluir o estudo do trabalho e da contribuição dada por lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros para a história deste país e estado’.
A Equality Illinois, maior organização de defesa LGBTQ do estado, deu apoio à lei e disse que o currículo pode “ter um efeito positivo sobre a autoimagem dos alunos, tornando-os mais tolerantes’.
Uma vez que o objetivo do ensino de história passe a ser ensinar o que aconteceu para que isso tenha “um efeito positivo sobre a autoimagem dos alunos”, a história deixa de ter a ver com o passado; ela se torna propaganda. Mas reescrever a história não é problema para a esquerda.
Como dizia a velha piada de um dissidente soviético: “Na União Soviética, o futuro é conhecido; o passado é que está sempre mudando”.
Noto quase todos os dias que a verdade é um valor moral progressista e conservador, mas ela jamais foi um valor importante para a esquerda. Este é apenas mais um exemplo.
A destruição da realidade
David Zirin, editor de esportes do Nation: “Outro argumento para impedir que atletas trans participem de competições com atletas cis sugere que a presença deles faz mal a meninas e mulheres cis. Mas essa linha de raciocínio não reconhece o fato de que mulheres trans são mulheres” (grifos meus).
Deputada Ilhan Omar, numa carta para a Federação Norte-americana de Levantamento de Peso: “O mito de que mulheres trans têm ‘uma vantagem competitiva direta’ não tem base científica”.
Sunu Chandy, do Centro Nacional de Direito Feminino: “Não há nenhuma pesquisa que fundamente a ideia de que permitir atletas trans de jogarem em equipes adequadas ao seu gênero criará um desequilíbrio competitivo”.
Como essas pessoas podem dizer tanta mentira? Elas dizem isso porque mentir não é um problema quando a verdade não é um valor moral.
As organizações LGBTQ se preocupam com lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros tanto quanto os comunistas se importavam com os operários. Elas os usam para encobrir sua pauta real: a destruição da civilização com a conhecemos.”

Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/como-grupos-lgbtq-estao-destruindo-as-normas-e-mudando-a-educacao/?webview=1

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Um bebê nunca é “conveniente”

Ter um filho certamente fará com que você perca um pouco do controle sobre suas finanças, sobre seu tempo e, em última instância, sobre toda a sua vida. Mas também pode ser uma grande oportunidade para experimentar a ação da divina Providência.
Julie MachadoTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere28 de Junho de 2019
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Meu marido e eu estamos esperando o quarto filho e, quando chegou a temida hora de contar a todos, percebi que fazê-lo nunca fica mais fácil. Esperamos o maior tempo possível para dar a notícia, e é difícil receber perguntas, críticas e conselhos indesejados quando se está em uma posição tão vulnerável…

Vulnerabilidades. — Há, primeiro, uma evidente vulnerabilidade física quando você está esperando um bebê. Por só ter ficado doente nos últimos anos em períodos gestacionais (pois a gravidez afeta seu sistema imunológico), eu fiquei sabendo que estava grávida justamente por conta de uma gripe. Tive os sintomas habituais de náusea e sonolência. Tentei ser mais cuidadosa porque tive perda de sangue durante o primeiro trimestre de gestações anteriores. Procurei pegar menos meus outros filhos no colo. Durante o nascimento e depois dele, ficarei fisicamente ainda mais vulnerável e todos precisaremos contar com ajuda de fora, especialmente de nossos irmãos mais velhos.

Embora menos óbvia que a primeira, existe também uma vulnerabilidade emocional para ambos os cônjuges quando se está esperando um bebê. Nossa gravidez não foi planejada e, de imediato, eu senti que seria vista como uma irresponsável. A coisa “responsável” em nossa sociedade é ser autossuficiente e não depender da ajuda de ninguém. Fiquei com medo do julgamento dos outros, de como eles nos veriam e das coisas que eles diriam. Eu gostaria de poder manter isso em segredo, pelo menos por um tempo, mas aquilo era como um trem já em movimento e com uma rota irreversível. Minha barriga cresceria e todos descobririam. O bebê nasceria e demandaria seus cuidados. A criança cresceria e continuaria a exigir cuidados. Uma vez adulto, seria mais uma pessoa no mundo, independente de mim, mas em constante relação comigo. Esse era definitivamente um trem em movimento do qual, até aquele momento, só eu tinha conhecimento.

A coisa “responsável” em nossa sociedade é ser autossuficiente e não depender da ajuda de ninguém.
Sem controle. — Eu descrevo a gravidez como entrar em uma montanha russa. Você não tem ideia do que vai acontecer. Tudo pode transcorrer perfeitamente bem, de acordo com seus desejos ideais, ou você e seu filho podem morrer, e entre esses dois extremos tudo é possível. Foi na minha primeira gravidez que eu descobri que a gestação e o parto são como uma montanha russa. Tivemos uma perda de sangue no primeiro trimestre que nos assustou muito; nossa filha tinha apenas uma artéria umbilical; ela ficou na posição pélvica (“sentada”); tivemos uma versão cefálica externa (que a virou para a posição correta), mas ainda assim tivemos uma cesariana, que era a única coisa que nós absolutamente não queríamos ter.

Também gosto de dizer que ninguém tem alguns milhares em sua conta para, sem saber o que fazer com o próprio dinheiro, chegar e dizer: “Ah, vamos ter outro filho”. As pessoas em geral não sentem que simplesmente têm dinheiro sobrando por aí. Há estudos mostrando que as pessoas, em média, sentem que precisam ter 20% a mais do que já possuem. Nossa gravidez coincidiu com a descoberta de que estávamos apertados financeiramente e precisávamos reduzir substancialmente nossos gastos. Não são exatamente duas notícias que alguém gostaria de receber ao mesmo tempo. Tenho certeza de que essa é uma preocupação de todo casal. 

Mas há um ditado segundo o qual cada criança que nasce vem com um pão debaixo do braço. E Belém significa “casa do pão”. Ter um filho certamente fará com que você perca um pouco do controle sobre suas finanças, mas também pode ser uma grande oportunidade para experimentar a Providência.

Uma gestação e um parto também afetam, sem dúvida, suas emoções e saúde psicológica. Maria Montessori dizia que o nascimento de uma criança é o renascimento de uma família. É algo que “sacode” você e toda a dinâmica familiar.

O nascimento de uma criança é o renascimento de uma família.
Abertura à graça. — A abertura à vida é uma boa analogia para a abertura à graça. Nosso principal modelo para ambas é a santíssima Virgem Maria, pois, nela, ficar grávida e receber a Cristo foram literalmente a mesma coisa. Ficar grávida também foi uma experiência de vulnerabilidade, de algo que estava fora de seu controle. Ficar grávida, para ela, naquela ocasião, também não parecia ser conveniente, humanamente falando. Na pior das hipóteses, ela corria o risco de ser apedrejada até a morte; na melhor delas, corria o risco de ver rompido seu noivado com São José. Humanamente falando, também não parecia conveniente que Jesus nascesse em um estábulo, em meio aos animais, na estrada. Não teria sido, naturalmente, o “plano de parto” que Maria e José tinham em mente. Tudo transcorreu, todavia, em conformidade com as Escrituras e de acordo com o “plano de parto” de Deus.

Sendo de ordem sobrenatural, a graça escapa à nossa experiência e só pode ser conhecida pela fé. Não podemos, portanto, nos basear em nossos sentimentos ou em nossas obras para daí deduzir que estamos justificados e salvos. No entanto, segundo a palavra do Senhor: “É pelos seus frutos que os reconhecereis” (Mt 7, 20), a consideração dos benefícios de Deus em nossa vida e na dos santos nos oferece uma garantia de que a graça está operando em nós e nos incita a uma fé sempre maior e a uma atitude de pobreza confiante (Catecismo da Igreja Católica, § 2005).
Mesmo que a sua gestação e parto se dêem de acordo com os seus planos e tudo transcorra bem, trata-se sempre de uma experiência dramática que “sacudirá” a sua vida, se você assim permitir. A graça de Deus também se destina a “sacudir” a sua vida, se você deixá-la entrar. Ela irá abalar você, desarmar você; colocará você em uma aventura inesperada. Mas também irá curar você e fazê-lo crescer.

Eugenia, aborto e a normalização de outros males

A reafirmação das leis que legalizaram o aborto nos Estados Unidos têm por trás uma fantasia antiga e perigosa: a eugenia

Public Discourse [17/06/2019] [14:53]

G. K. Chesterton começa seu livro Eugenia e Outros Males, de 1924, alertando que “o golpe de uma machadinha só pode ser contido enquanto ela estiver no ar”. A machadinha no ar era a eugenia, mas o golpe já atingiu seu alvo nos Estados Unidos.
Num caso da Suprema Corte julgado há três anos, Buck vs. Bell, o Ministro Oliver Wendell Holmes Jr. escreveu um voto sustentando uma lei recém-sancionada na Virgínia que determinava a esterilização obrigatória de pessoas sofrendo de “imbecilidade, idiotia, retardo ou epilepsia” – mesmo diante dos protestos de Carrie Buck, 17 anos, que tinha certo atraso mental, mas não a ponto de ignorar a injustiça que estava sendo perpetrada contra ela.
Leia também: Aborto e eugenia

Permitindo que o Estado removesse cirurgicamente as trompas de Falópio de Buck, diante de um só voto dissidente, dado pelo único ministro católico da corte, o Ministro Pierce Butler, Holmes escreveu: “É melhor para todo o mundo, em vez de esperar executar filhos degenerados por crimes ou permitir que eles morram de fome por causa da imbecilidade, que a sociedade possa evitar que os claramente inadequados se reproduzam”.
Buck foi uma das 60 mil pessoas esterilizadas nos Estados Unidos no século XX, como notou Clarence Thomas em seu voto dissidente no caso Box vs.Planned Parenthood de Indiana e Kentucky, uma apelação que discutia a questão se o estado de Indiana podia legalmente proibir abortos feitos por causa do sexo, raça ou deficiências do feto que está sendo assassinado. A “ideia perigosa” de Thomas — como Ross Douthat a chamou recentemente — é a de que a história sórdida da eugenia nos Estados Unidos continua sendo relevante para nossa interminável disputa constitucional quanto ao aborto.
De acordo com a jurisprudência da Décima Quarta Emenda da Suprema Corte [que fala sobre o devido processo legal], um estado não pode impor um direito fundamental a não ser que por trás dele haja um interesse que só pode ser satisfeito por meios os menos restritivos possíveis. Supondo, apenas para o bem da argumentação, que haja um direito fundamental constitucional ao aborto, ainda assim o Estado tem interesse em impedir abortos feitos por motivos eugenistas — para se deter a machadinha no ar?
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Respondendo a essa pergunta e associando-a às categorias da análise da Proteção Equânime da Corte, Thomas escreveu um voto dissidente de vinte páginas detalhando a história da eugenia nos Estados Unidos, como o objetivo de demonstrar que a lei de Indiana e “leis parecidas promovem o interesse do Estado em impedir que o aborto se tornasse um instrumento da eugenia moderna”.
Como notou Thomas, o “movimento da pílula anticoncepcional do século XX” se misturou e “se desenvolveu juntamente com o movimento eugenista norte-americano”. Ambos “buscavam ajudar a raça [humana] na eliminação dos inadequados”, como escreveu Margaret Sanger em seu ensaio “Birth Control and Racial Betterment” [Pílula anticoncepcional e melhoramento racial].
Mas Sanger expressava dúvidas já no fim do ensaio, perguntando se “a reprodução de casais saudáveis” ou a “esterilização de certos tipos reconhecidos de degenerados” era capaz de limitar a reprodução “em meio às grandes massas que, por pressão econômica, habitam as favelas e lá, impotentes, geram outras massas impotentes, doentes e incompetentes que reforçam tudo o que a eugenia é capaz de fazer entre aqueles cuja condição econômica é melhor”.
Apesar de Sanger não trilhar por esse caminho, a distância estre este ponto de partida e o aborto eugenista não é muito grande. Poucos anos depois de Sanger ter publicado seu ensaio, o eugenista anglicano progressista William Ralph Inge escreveu abertamente em seu livro Outspoken Essays [Ensaios sinceros] que “o dogma ridículo de que os homens nascem iguais está morto, mas não enterrado. A ‘santidade da vida humana’ precisa abrir caminho para a verdade óbvia de que um jardim precisa ser aparado”. Sem o dogma da santidade da vida humana, o que impede o jardineiro da metáfora de matar as ervas-daninhas?

A questão quanto ao aborto ser usado para fins eugenistas, depois das leis de liberalização do aborto no século XX, era séria. Diante disso, parecia fazer sentido que as pessoas interpretassem os comentários da Ministra Ruth Bader Ginsburg numa entrevista de 2009 para a New York Times Magazine como um aceno positivo para o objetivo eugenista de desestimular a reprodução dos pobres e outros indesejáveis. “Sinceramente, eu achava que, quando o caso Roe [que legalizou o aborto nos Estados Unidos] foi julgado”, disse Ginsburg a Emily Bazelon, “havia uma preocupação quanto ao crescimento populacional, sobretudo das populações das quais não queremos ter muitos representantes. De modo que o caso Roe iria estabelecer um financiamento público para o aborto”.
VEJA TAMBÉM: A perversa “eugenia preventiva” Um novo nome para uma velha fantasiaNuma entrevista posterior para Bazelon, na Yale Law School, Ginsburg insistiu que suas palavras tinham sido reproduzidas com precisão, mas que ela fora “enormemente mal interpretada”. Talvez, e a visão generosa de Bazelon é a de que Ginsburg estava resumindo uma ideia que estava no ar em 1973, mas com a qual ela pessoalmente não concordava (apesar de suas palavras numa entrevista diferente de 2014, na qual ela dizia que “não faz sentido ter uma política nacional que promova o nascimento somente entre os pobres” parecerem endossar tanto os lados positivo e negativo da eugenia).
É impossível dar a mesma interpretação generosa a uma carta de Ron Weddington, um dos advogados do caso Roe vs Wade, ao presidente Bill Clinton em 1992. “Depois de convencer os pobres de que eles não conseguirão sair da pobreza tendo tantas bocas a mais para alimentar”, escreveu Weddington, “você terá de criar meios para evitar a existência dessas bocas a mais”. Isto é, “vasectomias, laqueaduras e abortos” feitos pelo Estado. Para deixar ainda mais claro, Weddington encerrava a carta insistindo enfaticamente que “não precisamos de mais bebês pobres”. A categoria dos “pobres”, claro, geralmente representa outras categorias de “indesejáveis”, seja implícita ou explicitamente.
A tecnologia avançou muito desde 1992 e, como diz Thomas, “com os exames pré-natais de hoje e outras tecnologias, o aborto pode ser facilmente usado para eliminar crianças com características indesejáveis”. Isso levou à eliminação quase completa de crianças com Síndrome de Down em muitos países ocidentais e à disseminação do aborto de acordo com o sexo na Ásia e em algumas comunidades dos Estados Unidos. Além disso, há disparidades raciais nas taxas de aborto em muitas comunidades norte-americanas.

É importante ter em mente que o eu na palavra eugenia significa “bom” – bons genes – e que as pessoas que defendem isso acham que estão defendendo algo de bom para a sociedade e o futuro. E eugenia foi e é um movimento progressista — movimento que se baseia numa visão de desenvolvimento, progresso e perfeição. A história do século XX, contudo, mostra que essa visão do Paraíso leva a resultados do inferno. A busca eugênica pelos bons genes se dá à custa da dignidade e igualdade humanas, deixando de lado o dogma da santidade da vida humana. Em vez de nos alertar que a eugenia pode ser posta em prática aqui, o voto dissidente de Thomas expõe o que já aconteceu aqui, e o Estado está interessado em evitar a volta dessa ideia.
Justin Dyer é professor de ciência política e diretor do Kinder Institute on Constitutional Democracy da University of Missouri.

©2019 Public Discourse. Publicado com permissão. Original em inglês”Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/eugenia-aborto-e-a-normalizacao-de-outros-males/?webview=1

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75 anos do Dia D da 2ª Guerra: foi um padre quem resgatou o real “soldado Ryan”

Pe. Francis Sampson e Desembarque na Normandia

Pe. Francis Sampson e soldados na Normandia – Fotos de Domínio Público

Redação da Aleteia | Jun 07, 2019

O célebre filme de Steven Spielberg é baseado em fatos reais – mas o soldado não se chamava Ryan e seu verdadeiro resgatador foi um padre paraquedista

Na semana em que o mundo recorda os 75 anos do mítico Dia D da Segunda Guerra Mundial (6 de junho de 1944), uma infinidade de heróis que deram a vida pela liberdade não terá o seu nome recordado. Compreende-se, já que não é possível dar o merecido destaque público a uma longa lista de jovens, adultos, idosos, homens e mulheres, civis e militares, cuja bravura só foi conhecida pelos seus próprios companheiros, familiares, amigos e conhecidos mais próximos. Uma das maiores brutalidades da guerra é quase “sutil”: a facilidade e a rapidez com que milhares de vidas heroicas praticamente passam em branco aos olhos do mundo que eles ajudaram a tentar libertar.

É o caso, para o grande público, dos heróis da 101ª Divisão Aerotransportada.

Entre os bravos soldados que saltaram para além das linhas alemãs na Normandia naquele épico 6 de junho de 1944 estava o extraordinário capelão da unidade, o pe. Francis L. Sampson (1912-1996), cuja história arrepiante foi relatada em seu livro de memórias Look at Below: A Story of the Airborne by a Paratrooper Padre (“Olhe para baixo: uma história da Aerotransportada, escrita por um padre paraquedista”, publicado em 1958).

O resgate do soldado Niland

Foi o pe. Sampson, e não o personagem de Tom Hanks, quem recebeu das autoridades militares, na vida real, a missão de localizar em plena guerra o soldado Fritz Niland, que tinha perdido no Dia D os seus três irmãos. As cartas com a notícia da morte de nada menos que três filhos haviam chegado ao mesmo tempo às mãos de sua mãe, tal como retrata o célebre filme “O Resgate do Soldado Ryan“, de Steven Spielberg, em uma das suas cenas mais devastadoras.

A história do filme, que optou por nomes e personagens fictícios, é inspirada nos fatos reais que envolveram os irmãos Niland. E o real responsável pelo resgate do último soldado Niland foi o Padre Sam, como era chamado pelas tropas o sacerdote. Ele encontrou o soldado na praia francesa que tinha recebido o codinome de Utah Beach e se encarregou da sua repatriação aos Estados Unidos.

Um capelão paraquedista

Antes disso, o pe. Sampson tinha vivido o dia do desembarque como mais um entre os paraquedistas. Sua primeira medida ao pisar em terra foi procurar o seu kit de missa, que ele tinha perdido durante o salto sob fogo inimigo. Foi um desafio a mais no meio da escuridão e dos disparos mortais – mas ele conseguiu encontrá-lo.

A universalidade da Igreja nas trincheiras

Aquilo foi só o começo. No mesmo dia, em uma granja na qual atendia vários feridos, o padre se viu flagrado por dois soldados alemães. Eles o levaram, sob mira de fuzil, até uma estrada onde aparentemente pretendiam executá-lo. Foi quando apareceu um terceiro soldado alemão: ele não somente evitou o crime como ainda mostrou ao padre, num gesto cúmplice, uma medalha católica. “Foi reconfortante comprovar a universalidade da Igreja naquele dia”, declarou depois o Padre Sam a respeito do católico do exército inimigo que tinha lhe salvado a vida.

Uma breve e épica homilia

Passados poucos dias, ele celebrou a missa para um grupo de enfermeiras numa igreja que tinha sido quase completamente bombardeada. Só tinham ficado em pé duas paredes e… as imagens de Cristo, de São Pedro e de São Paulo, um fato que todos ali consideraram inexplicável.

Diante daquelas ruínas – e daquelas imagens milagrosamente preservadas, o pe. Sam fez esta breve e inesquecível homilia:

“A imagem nua do Galileu pendurado na cruz sempre inspirou amor e ódio. Nero quis fazer da cruz uma imagem odiosa, levando os cristãos à morte, denegrindo-os, incendiando Roma com cruzes humanas em chamas. Juliano, o Apóstata, disse que conseguiria que o mundo esquecesse o homem da cruz, mas, na sua agonia final, teve de confessar: ‘Tu venceste, Galileu’. Os comunistas proíbem a sua presença porque temem o seu poder contra os seus desígnios perversos. Hitler tentou substituir a imagem de Nosso Senhor na cruz por uma estúpida suástica. Invectivas, falsas filosofias, violência… Todo tipo de instrumento diabólico já foi empregado para arrancar o Cristo da cruz e o crucifixo da igreja. Mas, como as bombas que caíram sobre esta capela, só conseguiram destacá-la mais e mais. A imagem que amamos cresce cada vez mais em nosso entendimento pela veemência do ódio das pessoas más. Cada um de nós tem esta imagem sagrada impressa na alma. Como esta capela, somos templos de Deus. E não importa se estamos despedaçados pelas bombas, pela tragédia, pelas provações e pelos ataques: a imagem do Crucificado ficará de pé se assim nós quisermos. Renovemos ao pé desta cruz as nossas promessas batismais. E prometamos que a Sua imagem revestirá para sempre o nosso coração”.

Uma trajetória cinematográfica

O pe. Sampson foi capturado pelos alemães e passou nada menos que seis meses num campo de prisioneiros. Quando foi finalmente libertado, optou por voltar para o fronte e continuou lutando as batalhas finais da 2ª Guerra Mundial com sua mítica 101ª Divisão Aerotransportada.

O célebre livro de Cornelius RyanThe Longest Day (“O mais longo dos dias”), dedicado ao desembarque na Normandia, fala extensamente deste extraordinário sacerdote católico.

O Padre Sam esteve ainda na Coreia. Em 1967, foi nomeado chefe dos capelães militares e, mesmo na reserva, não quis parar de atender os companheiros paraquedistas no Vietnã.

Em 28 de janeiro de 1996, Deus convocou o pe. Francis L. Sampson para desembarcar no Seu Abraço Eterno. Sobre a terra, o Padre Sam deixou profunda marca tanto na história militar norte-americana quanto, acima de tudo, na alma das milhares de pessoas para quem ele foi testemunha valente de Cristo, inclusive quando, a exemplo do Calvário, tudo parecia condenado às trevas sem fim.

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Adaptado de artigo do site Religión en Libertad

Conheça a história de um pai de família mártir assassinado pelos nazistas

Franz Jagerstatter / Rook76, www.shutterstock.com

LIMA, 07 Abr. 16 / 02:00 pm (ACI).- Uma característica comum nas histórias de todos os santos é que Deus sempre está junto a eles, inclusive nas circunstâncias mais difíceis. Isto é possível perceber com o martírio do Beato Franz Jagerstatter, um pai de família que foi morto durante a ocupação nazista da Áustria.

Franz nasceu em um pequeno povoado de Alta Áustria, foi agricultor e se casou com Franziska Schwaninger na Quinta-feira Santa de 1936. Sua esposa foi uma mulher muito devota e, por sua influência, tornou-se sacristão da igreja deste local, onde começou a ler a Bíblia e conhecer a vida dos santos.

Em 1938, perto do dia do nascimento da mais velha de suas três filhas, os alemães invadiram a Áustria no contexto da Segunda Guerra Mundial.

A Igreja Católica no país havia advertido contra o nazismo durante anos. Os católicos na Alemanha enfrentavam graves restrições, incluindo a proibição da Missa – exceto aos domingos – inclusive para as solenidades mais sagradas e dias festivos.

Em 1937, Pio XI publicou a encíclica Mit Brennender sorge (Com ardente inquietação), que tratava acerca das tensas relações entre a Igreja e a Alemanha nazista.

Jagerstatter foi a única pessoa em todo seu povoado que repudiou e votou contra a anexação da Áustria pela Alemanha nazista em 1938. Estava consternado ao ver que muitos católicos apoiavam os nazistas. Inclusive um cardeal exigiu que todas as paróquias erguessem a bandeira nazista em suas igrejas no dia do aniversário de Hitler.

“Dificilmente poderia existir uma hora mais triste para a fé cristã em nosso país”, escreveu o pai de família.

O hoje beato sentiu naquele momento que não podia chamar a si mesmo de discípulo de Cristo se aceitasse os mandatos de um regime ao qual considerava “satânico”.

A princípio, parecia que ser agricultor lhe impediria de lutar pelo exército da Alemanha, pois requeriam a produção de grandes quantidades de alimentos. Infelizmente, em 1943, a necessidade de mais soldados aumentou e Jagerstatter foi chamado ao serviço ativo.

Dirigiu-se ao centro de indução e anunciou que não lutaria, por isso, foi enviado à prisão militar de Linz. “Estou convencido de que a melhor decisão é dizer a verdade, embora corra perigo de vida”, escreveu.

Amigos, familiares e até mesmo o Bispo local visitaram Jagerstatter na prisão, tentando convencê-lo a se alistar, mas ninguém lhe deu um argumento convincente para que desistisse de suas convicções morais e religiosas ao fazer uso da objeção de consciência.

Em vez disso, todos tentaram convencê-lo de que Deus não o tornaria responsável por fazer o que o obrigavam. Mas não o convenceram.

“Desde a morte de Cristo, cada século foi testemunha da perseguição dos cristãos; sempre houve heróis e mártires que entregaram sua vida – normalmente de maneiras horríveis – por Cristo e sua fé. Se esperamos chegar à nossa meta algum dia, então nós também devemos chegar a ser heróis dá fé”, escreveu Franz Jagerstatter.

O Beato permaneceu de maio a agosto de 1943 na mesma prisão do conhecido pastor luterano e mártir Dietrich Bonhoeffer. Além disso, soube que um sacerdote havia sido martirizado na mesma prisão pelas mesmas razões que ele e muitos outros.

Essa convicção lhe custou a própria vida. Foi levado a Berlim, onde foi condenado à morte. Suas últimas palavras registradas antes de morrer na guilhotina foram: “Estou completamente unido em união interior com o Senhor”.

Durante o Concílio Vaticano II, o testemunho de Jagerstatter ajudou a dar forma à seção do documento Gaudium et spes que menciona as objeções de consciência à guerra.

Foi beatificado 50 anos depois de sua morte pelo então Papa Bento XVI. Suas filhas, netos e bisnetos participaram da cerimônia.

A porta larga da esterilização

Muitos entram por ela

Uma mulher, mãe de quatro filhos, três nascidos e um por nascer, vem a um sacerdote perguntar se é permitido praticar a laqueadura tubária ou ligadura de trompas. Ela explica que os três primeiros partos foram cesáreos e que, segundo o médico, o quarto também deverá ser cesáreo. Haveria assim uma oportunidade de aproveitar a abertura do abdômen para fazer a laqueadura.

O sacerdote, por falta de conhecimento ou de fidelidade à Igreja, diz que, sem dúvida alguma, é lícito àquela senhora laquear suas trompas.

A mulher não se dá por satisfeita, pois ouvira dizer que a laqueadura tubária é um pecado grave. O padre lhe responde:

– Sim, é um pecado grave se for feita por motivo fútil. Mas o caso da senhora é diferente. Com três cesarianas sucessivas, o útero está fragilizado e se tornará mais frágil ainda no próximo parto cesáreo. A laqueadura, em seu caso, será feita para evitar os perigos que uma nova gravidez traria para a senhora e para o bebê. Pode laquear-se sem o menor escrúpulo de consciência.

A mulher sente-se aliviada e agradece entre lágrimas ao padre por aquela solução cômoda. Após a cirurgia, com o recém-nascido nos braços, vem novamente manifestar gratidão ao sacerdote “compreensivo” que lhe apontara a porta larga da esterilização. E a história termina em “final feliz”.

A porta estreita

Imagine-se que a mesma mulher da história anterior tenha ido consultar um sacerdote fiel ao Magistério da Igreja. A resposta dele seria:

– Embora eu compreenda todo o problema pelo qual a senhora está passando, não posso dizer que a laqueadura seja lícita. Essa cirurgia danifica e mutila as trompas de Falópio, que são órgãos que Deus criou para a sublime missão de transmitir a vida.

– Mas o médico disse que se eu não ligar as trompas, vou morrer na próxima gravidez!

– Primeiramente vamos consultar outro médico para verificar se esse perigo existe e se é tão grande assim. Mas ainda que se pudesse assegurar que na próxima gravidez a senhora morreria, nem assim seria lícito recorrer à laqueadura, que é uma esterilização direta.

– O que é uma esterilização direta?

– É uma intervenção que tem como fim ou como meio tornar a pessoa estéril. Se a senhora estivesse com câncer no útero, o médico removeria o útero para extirpar o tumor. Tal cirurgia deixaria a senhora estéril, mas não diretamente. A esterilidade não seria querida como fim nem como meio, mas apenas tolerada como um efeito colateral da cirurgia. No caso da senhora, porém, o médico pretende praticar a esterilização como meio de evitar riscos em uma nova gravidez.

– Mas evitar riscos não é um fim bom?

– Sim, mas o fim não justifica os meios. Não se pode obter esse fim por meio de uma laqueadura, que é uma esterilização direta.

– Então, o que eu devo fazer?

– Se de fato houver motivos sérios para adiar uma nova gravidez, a senhora e seu marido poderão, após o parto, abster-se dos atos conjugais nos dias férteis. A isto se chama continência periódica.

– Mas para mim é muito difícil reconhecer os sinais de fertilidade. Parece que eu sou diferente das outras mulheres.

– Vou conduzir a senhora a um casal que conhece bem a última versão do método Billings, incluindo o caso de mulheres que apresentam umidade constante nos dias inférteis.

* * *

Como se vê, ao dizer não à laqueadura, o padre não pôde despedir sumariamente aquela mulher, como fizera o padre da história anterior. Prometeu levá-la a um outro médico, a fim de confirmar ou não aquele prognóstico sombrio, e ainda ofereceu-lhe um casal para instruí-la corretamente no método Billings.

Para não trair a verdade, aquele sacerdote teve um grande trabalho. Acompanhou aquela mãe e seu marido durante a gestação, o parto e o pós-parto. Deu-lhes palavras de encorajamento e conforto, mas nunca lhes disse que a laqueadura era lícita.

Ao receberem uma instrução atualizada sobre o método Billings, a mulher e seu marido admiraram-se de sua própria ignorância. Quanta coisa eles não sabiam ou haviam aprendido de maneira incorreta!

E ao consultarem o outro médico, indicado pelo padre, o casal entendeu que seu caso não era tão sério assim. Era verdade que a mulher já se havia submetido a três cesarianas, mas isso não equivalia a uma sentença de morte. No caso dela, a cicatrização tinha sido ótima, quase sem deixar vestígios[1]. Provavelmente ela poderia ainda submeter-se a vários partos cesáreos[2].

A história terminou em um verdadeiro final feliz, mas o pastor, que apontou a porta estreita da verdade, teve que se cansar muito.

Reflexões

Várias vezes a Igreja se pronunciou contra a laqueadura usada para impedir os riscos de uma futura gravidez. Pio XII já dizia que em tal caso não se pode aplicar o princípio da totalidade:

Nesse caso, o perigo, que corre a mãe, não provém, nem direta nem indiretamente, da presença ou do funcionamento normal das trompas […]. O perigo não aparece a não ser que a atividade sexual livre leve a uma gravidez. Faltam as condições, que permitiriam dispor duma parte, a favor do todo, em virtude do princípio da totalidade. Portanto, não é permitido intervir nas trompas sadias[3].

Em 1975, a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé emitiu um documento em resposta a perguntas da Conferência Episcopal dos Estados Unidos sobre a esterilização nos hospitais católicos[4], reafirmando a posição de Pio XII:

Toda esterilização que por si mesma, isto é, por sua própria natureza e condição, tem por único efeito imediato tornar a faculdade generativa incapaz de procriar, deve ser considerada esterilização direta […]. Por isso, não obstante qualquer boa intenção subjetiva daqueles cujas intervenções são inspiradas pelo cuidado ou pela prevenção de uma doença física ou mental prevista ou temida como resultado de uma gravidez, tal esterilização permanece absolutamente proibida segundo a doutrina da Igreja.

Se, portanto, constitui pecado grave o uso de um preservativo para tornar estéril um único ato conjugal, quanto maior será a gravidade de uma cirurgia feita para tornar estéreis todos os atos conjugais futuros! Assim adverte o citado documento:

E de fato, a esterilização da faculdade (generativa) é proibida por um motivo ainda mais grave que a esterilização dos atos singulares, uma vez que produz na pessoa um estado de esterilidade quase sempre irreversível.

Em 1993, a mesma Congregação reforçou sua posição ao responder sobre o “isolamento uterino” (= laqueadura tubária) feito para evitar os riscos de uma futura gravidez[5]. Segundo o documento, em tal caso a laqueadura é feita

… para tornar estéreis os futuros atos sexuais férteis, livremente realizados. O fim de evitar os riscos para a mãe, derivantes de uma eventual gravidez, vem portanto perseguido por meio de una esterilização direta, em si mesma sempre moralmente ilícita […].

Se, por absurdo, a Igreja decidisse autorizar um único caso de esterilização direta, deveria, por coerência, autorizar também a anticoncepção e despedir todos os instrutores do método Billings de regulação da procriação. Isso, porém, jamais a Igreja poderá fazer, pois a proibição da esterilização direta não é uma lei criada pela Igreja (e, portanto, reformável por ela), mas uma lei divina, que a Igreja apenas reconhece e expõe fielmente para a nossa observância.

Anápolis, 4 de julho de 2016.

Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz

[1] “Algumas pacientes são tão ‘boas cicatrizadoras’ que às vezes é difícil ver a cicatriz mesmo depois de quatro cesarianas” (H.P. DUNN. The doctor and Christian marriage. New York: Society of Saint Paul, 1992. Tradução nossa).

[2] “O recorde de cesarianas está em catorze, no Texas” (Kimberly HAHN, O amor que dá vida, São Paulo: Quadrante, 2012, p. 111).

[3] Edvino FRIDERICHS. Mensagem de Pio XII aos médicos, 11. ed. São Paulo: Paulinas, 1960. Duas respostas de Pio XII ao XXVI Congresso Italiano de Urologia (08.10.1953), p. 319.

[4] SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Resposta sobre a esterilização nos hospitais católicos. 13 mar 1975, AAS 68 (1976), 738-740.

[5] CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Respostas às duvidas propostas sobre o ‘isolamento uterino’ e outras questões. 31 jul. 1993. AAS 86 (1994) 820-821.

Siga sua consciência

Sexta, 05 Janeiro 2018 16:36

Mas antes procure convertê-la à verdade e ao bem

É dever do homem obedecer a Deus. A lei divina é a norma universal e objetiva da moralidade. Mas quem aplica essa lei a cada caso concreto? A consciência moral. Ela é a norma próxima da moralidade pessoal. É ela que julga se esta ação concreta está ou não de acordo com a lei divina (que é abstrata).

Eis um exemplo de juízo de consciência:

É proibido matar diretamente um inocente.

lei moral objetiva

Ora, expulsar do útero uma criança de três meses é matá-la diretamente.

caso concreto

Logo, eu não posso induzir a expulsão deste bebê prematuro cuja bolsa se rompeu.

ditame da consciência

Sobre a consciência moral, assim se exprime o Concílio Vaticano II:

No fundo da própria consciência o homem descobre uma lei que não impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer; essa voz, que sempre está chamando ao amor do bem e à fuga do mal, soa no momento oportuno, na intimidade do seu coração: faze isto, evita aquilo. O homem tem no coração uma lei escrita pelo próprio Deus: a sua dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado (cf. Rm 2,14-16)[1].

Segundo São João Paulo II, o trecho acima da Carta aos Romanos, a que o Concílio se refere,

… indica o sentido bíblico da consciência, especialmente na sua conexão específica com a lei: ‘Porque, quando os gentios, que não têm lei, cumprem naturalmente os preceitos da lei, não tendo eles lei, a si mesmos servem de lei. Deste modo, demonstram que o que a lei ordena está escrito nos seus corações, dando-lhes testemunho disso a sua consciência e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os’ (Rm 2,14-15)[2].

Prossegue o Santo Padre em sua belíssima encíclica Veritatis Splendor:

De acordo com as palavras de S. Paulo, a consciência, de certo modo, põe o homem perante a lei, tornando-se ela mesma ‘testemunha’ para o homem: testemunha da sua fidelidade ou infidelidade relativamente à lei, ou seja, da sua essencial retidão ou maldade moral (VS 57).

[…]

S. Paulo não se limita a reconhecer que a consciência faz de ‘testemunha’, mas revela também o modo como ela cumpre uma tal função. Trata-se de ‘pensamentos’, que acusam ou defendem os gentios relativamente aos seus comportamentos (cf. Rm 2,15). O termo ‘pensamentos’ põe em evidência o caráter próprio da consciência, o de ser um juízo moral sobre o homem ou sobre seus atos: é um juízo de absolvição ou de condenação, segundo os atos humanos são ou não conformes com a lei de Deus inscrita no coração.

[…]

A consciência formula assim a obrigação moral à luz da lei natural: é a obrigação de fazer aquilo que o homem, mediante o ato da sua consciência, conhece como um bem que lhe é imposto aqui e agora. […]. O juízo da consciência […] formula a norma próxima da moralidade de um ato voluntário, realizando a ‘aplicação da lei objetiva a um caso particular’ (VS 59).

Ora, não é tarefa de um juiz fazer a lei, mas aplicar a lei a determinado caso. Assim, a consciência não cria a lei moral. Não se pode simplesmente dizer a alguém “siga a sua consciência” sem procurar formar a consciência daquele que está em dúvida.

O juízo da consciência não estabelece a lei, mas atesta a autoridade da lei natural e da razão prática face ao bem supremo, ao qual a pessoa humana se sente atraída e cujos mandamentos acolhe: ‘A consciência não é uma fonte autônoma e exclusiva para decidir o que é bom e o que é mau; pelo contrário, nela está inscrito profundamente um princípio de obediência relacionado com a norma objetiva, que fundamenta e condiciona a conformidade das suas decisões com os mandamentos e proibições que estão na base do comportamento humano’ (VS 60).

São João Paulo II, citando novamente o Concílio Vaticano II, alerta-nos que a consciência não está isenta da possibilidade de erro:

Não raro, porém, acontece que a consciência erra, por ignorância invencível, sem por isso perder a própria dignidade. Outro tanto não se pode dizer quando o homem se descuida de procurar a verdade e o bem, e quando a consciência se vai progressivamente cegando, com o hábito do pecado[3].

A consciência, portanto, “não é um juiz infalível: pode errar. Todavia o erro da consciência pode ser fruto de uma ignorância invencível, isto é, de que o sujeito não é consciente e donde não pode sair sozinho” (VS 62). Neste caso, ensina-nos o saudoso Papa, “o mal cometido por causa de uma ignorância invencível ou de um erro de juízo não culpável não pode ser imputado à pessoa que o realiza” (VS 63).

Para ilustrar o que diz a encíclica, imaginemos que alguém viva em um ambiente em que todos julgam que a eutanásia é um ato de misericórdia. Um homem, imerso nessa “cultura da morte”, vê a sua mãe debatendo-se em dores por causa de uma doença incurável. Ele não tem a menor dúvida de que é lícito aplicar uma injeção de veneno na mãe a fim de que ela morra e deixe de sofrer. Sua consciência – invencivelmente errônea – julga que é até um dever filial matar a mãe em tais circunstâncias. Ao praticar a eutanásia em sua mãe, tal pessoa não cometeu pecado. No entanto, um homicídio ocorreu: uma desordem objetiva. Explica-nos São João Paulo II:

Também neste caso, aquele não deixa de ser um mal, uma desordem face a verdade do bem. Além disso, o bem não reconhecido não contribui para o crescimento moral da pessoa que o cumpre: não a aperfeiçoa nem serve para encaminhá-la ao supremo bem. Assim, antes de nos sentirmos facilmente justificados em nome da nossa consciência, deveríamos meditar as palavras do Salmo: ‘Quem poderá discernir todos os erros? Purificai-me das faltas escondidas’ (Sl 19,13). Existem faltas que não conseguimos ver e que, não obstante, permanecem culpáveis, porque nos recusamos a caminhar para a luz (cf. Jo 9,39-41) (VS 63).

Essas palavras fazem-nos lembrar as de São Paulo: “Verdade é que a minha consciência de nada me acusa, mas nem por isso estou justificado; meu juiz é o Senhor” (1Cor 4,4).

Daí a necessidade de “formar a consciência, fazendo-a objeto de contínua conversão à verdade e ao bem” (VS 64). […] “Uma grande ajuda para a formação da consciência têm-na os cristãos, na Igreja e no seu Magistério” (VS 64).

A autoridade moral da Igreja, que se pronuncia sobre as questões morais, não lesa de modo algum a liberdade de consciência dos cristãos:

● não apenas porque a liberdade de consciência nunca é liberdade ‘da’ verdade, mas sempre e só ‘na’ verdade;

● mas também porque o Magistério não apresenta à consciência cristã verdades que lhe são estranhas, antes manifesta as verdades que deveria já possuir, desenvolvendo-as a partir do ato originário da fé (VS 64).

S. João Paulo II adverte contra o erro de reconhecer um “duplo estatuto da verdade moral”. Haveria uma verdade moral doutrinal e abstrata e outra verdade moral mais concreta. “Esta – diz o Papa – tendo em conta as circunstâncias e a situação, poderia legitimamente estabelecer exceções à regra geral, permitindo desta forma cumprir praticamente, em boa consciência, aquilo que a lei moral qualifica como intrinsecamente mau” (VS 56).

Ilustremos essa posição com um exemplo.

Uma senhora pergunta a um sacerdote se é lícito usar algum anticoncepcional. Ela desejaria ter filhos, mas seu marido, que não compreende o valor da família numerosa, fica furioso a cada gravidez. O sacerdote sabe que todo ato conjugal deve ser aberto à vida. Logo, sua resposta deve ser negativa. Mas ao dizer “não” à anticoncepção, o sacerdote deve assumir a obrigação de formar a consciência daquele casal. Será necessário conversar com o marido para fazê-lo ver que “os filhos são uma bênção do Senhor” (Sl 126,3). E se o padre constatar que há alguma razão séria para que eles posterguem uma nova gravidez, deverá procurar alguém que os instrua em algum método natural de regulação da procriação. Tudo isso é muito trabalhoso e gera oposições. Para evitar esse fardo, o sacerdote adota uma solução cômoda e simplista: explica a doutrina da Igreja contrária à anticoncepção, mas acrescenta que, levando em conta aquela situação concreta, o casal deve apenas “seguir sua consciência”. Dá a entender assim que o casal pode, em boa consciência, contrariar a lei moral objetiva. Se o casal, confiando na ciência e na honestidade do padre, praticar a anticoncepção, obviamente não cometerá pecado. O sacerdote, porém, será responsável pelo mal, pela desordem objetiva que, podendo e devendo evitar, permitiu.

O que aqui se disse sobre a anticoncepção, vale, com gravidade ainda maior, para as permissões concedidas à laqueadura e à vasectomia (que são esterilizações diretas), e para todo aborto diretamente provocado, ainda que se afirme (por desconhecimento médico ou por desonestidade) que ele é necessário para salvar a vida da gestante. Como é grande a culpa dos pastores que, ao invés de apontarem a porta estreita que conduz à vida, apontam a porta larga do pecado como uma opção moralmente aceitável! E tudo isso em nome das “circunstâncias concretas”, da “prática pastoral”, da “misericórdia” e da “consciência” …

Anápolis, 5 de janeiro de 2018.

Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz.

Presidente do Pró-Vida de Anápolis.

[1] Constituição Pastoral Gaudium et Spes, n. 16.

[2] JOÃO PAULO II, Veritatis Splendor, n. 57. Doravante esta encíclica será citada pela sigla VS. Os destaques são e serão sempre do original.

[3] Constituição Pastoral Gaudium et Spes, n. 16.

Filhos são um dom de Deus, não um “direito”

Por trás da mentalidade que justifica os métodos contraceptivos está um erro funesto: conceber o filho, não como um dom de Deus, mas como uma “commodity” a ser produzida e comercializada.

Leila MillerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

7 de Agosto de 2017

Em nossa sociedade, os adultos têm “descoberto” e se arrogado novos “direitos” num ritmo assustador, e isto em detrimento dos verdadeiros direitos — inclusive os das crianças. Depois de ler há alguns anos o seguinte parágrafo do Catecismo, decidi pôr fim às minhas buscas. Eu nunca mais o esqueci, talvez porque a cultura em que vivemos o tenha esquecido completamente:

O filho não é algo devido, mas um dom. O “dom mais excelente do matrimônio” é uma pessoa humana. O filho não pode ser considerado como objeto de propriedade, a que conduziria o reconhecimento de um pretenso “direito ao filho”. Nesse campo, somente o filho possui verdadeiros direitos: o “de ser fruto do ato específico do amor conjugal de seus pais, e também o direito de ser respeitado como pessoa desde o momento de sua concepção” (CIC 2378).
A Igreja está dizendo aos adultos: vocês não têm direito a um filho. Vocês têm um direito natural e de origem divina a muitas coisas, mas um filho não é uma delas.

E por quê? Porque a criança é um dom, um presente.

Talvez já tenhamos ouvido esta frase cá e lá, mas será que a entendemos de fato? Pensemos na natureza de todo e qualquer dom — trata-se de algo que, em si mesmo, nunca é “devido”. Um dom é algo entregue livre e voluntariamente pelo doador; nunca é exigido nem reivindicado. Não podemos forçar quem quer que seja a dar-nos um presente, porque neste caso ele já não seria mais um presente.

A partir do momento em que um adulto acredita que ter um filho é um “direito” seu, a criança passar a ser vista como objeto de uma prestação que tem de ser satisfeita, quaisquer que sejam os meios necessários para isso. Tratar-se-ia de uma questão de justiça, uma vez que temos direito aos nossos direitos!

Mas quando nossas ideias chegam a este patamar (e isto aconteceu em nossa cultura), começamos a justificar os meios de “conseguir” o filho que nos é devido; a criança é agora uma commodity a ser produzida e adquirida. Além disso, visto que um filho é “considerado um objeto de propriedade”, como diz a Igreja, tornam-se permitidas todas as formas de injustiça praticadas contra as crianças. Afinal de contas, o que é que fazemos com nossa propiedade? Ora, tudo o que quisermos: comprar, vender, manipular, dispor etc. Uma propriedade não tem absolutamente direito a nada.

Ainda assim, a Igreja diz às crianças: vocês têm o direito de nascer do ato conjugal daqueles que são seus pais. Vocês, crianças, são as únicas que “possuem verdadeiros direitos” nesse campo da existência humana.

Apesar das opiniões que por aí circulam, toda criança tem o direito natural e primordial de ser concebida a partir de um ato de amor entre seu pai e sua mãe, unidos em matrimônio. Fechemos os ouvidos ao murmúrio que nos rodeia, à falsa promessa de que “você pode ter tudo o que quiser”. Não percamos de vista qual era o projeto originário de Deus, “no princípio”, para o casamento e a família — a criança é fruto da união de seus pais em uma só carne. Esse projeto não foi alterado.

Ora, uma vez que a criança tem direito a ser o “fruto do ato específico do amor conjugal de seus pais”, técnicas reprodutivas como, por exemplo, a FIV (fecundação in vitro), a doação de esperma e as chamadas “barrigas de aluguel” são sempre moralmente reprováveis. A advogada pró-vida Dorinda Bordlee, do Bioethics Defense Fund (Fundo de Defesa Bioética), chama a estes procedimentos “tráfico de reprodução humana”: negociam-se contratos e investem-se vultosas somas de dinheiro para comprar gametas humanos. A concepção de uma criança é posta literalmente na mão de terceiros, e as mães e pais biológicos são alugados, comprados e vendidos como simples “partes” de um corpo.

Esta é uma verdade que nem todos estão dispostos a ouvir. Afinal, o que poderia haver de errado com o desejo de ter um filho, sobretudo quando se trata de casais inférteis e de boa vontade que, desesperados por trazer um bebê para casa, não têm a intenção nem de descartar os embriões “excedentes” durante um ciclo de FIV nem de “reduzir seletivamente” (ou seja, abortar) uma ou mais crianças, já que muitas são implantadas? A resposta é que não há nada de errado com o desejo em si. O desejo de um marido e uma mulher de ter um filho é bom e santo. Mas a boa intenção deles não justifica o uso de meios maus (cf. CIC 1750-1761).

A infertilidade é, de fato, uma cruz pesada, e os casais inférteis podem, sem dúvida nenhuma, servir-se de todas as tecnologias reprodutivas moralmente aceitáveis à disposição para tratar ou curar sua infertilidade, a fim de conceberem e criarem uma criança de modo natural. Aqui se incluem, por exemplo, as terapias hormonais e os fármacos que estimulam a ovulação ou facilitam a implantação do embrião. Há ainda as terapias holísticas (como a NaPro Technology), voltadas para a cura dos problemas de saúde responsáveis pela infertilidade, algo que as técnicas de reprodução artificial são incapazes de fazer.

Uma bela opção para os casais que ou não podem conceber, mesmo depois de um tratamento, ou que preferem renunciar a métodos terapêuticos é a adoção. Mas alguém poderia objetar: acaso a adoção não trata a criança como um “direito”, e não como um dom? E o que pensar do fato de um filho adotado não ficar sob os cuidados do casal que o concebeu? Em primeiro lugar, precisamos ter em mente que a adoção se ordena, antes de tudo, a suprir as necessidades da criança, e não a satisfazer os desejos dos adultos (embora, é claro, isso possa ser uma feliz consequência). A adoção, portanto, consiste em recuperar o que a criança perdeu. É ela que possui aqui os direitos, não os adultos.

De acordo com o Catecismo, o outro direito fundamental de que a criança é titular é o de “ser respeitada como pessoa desde o momento de sua concepção”. O “dom mais excelente do matrimônio”, uma nova pessoa humana, é uma vida sagrada e inviolável, como todos nós o somos. Toda criança concebida vem ao mundo para amar e ser amada, e nunca, evidentemente, para ser morta. Esta realidade afirma e protege não somente a dignidade da criança, mas também a dignidade de toda pessoa, assim como a do matrimônio.

A criação e as leis de Deus são belas porque formam uma tapeçaria de verdades. Talvez fiquemos confusos e perdidos em uma cultura relativista e consequencialista; mas, quando voltamos à razão, quando esclarecemos nossas ideias e abrimos nosso coração para os primeiros princípios, todas as coisas vão para os seus devidos lugares e nos tornamos capazes de enxergar a beleza do perfeito projeto de Deus.