Eugenia, aborto e a normalização de outros males

A reafirmação das leis que legalizaram o aborto nos Estados Unidos têm por trás uma fantasia antiga e perigosa: a eugenia

Public Discourse [17/06/2019] [14:53]

G. K. Chesterton começa seu livro Eugenia e Outros Males, de 1924, alertando que “o golpe de uma machadinha só pode ser contido enquanto ela estiver no ar”. A machadinha no ar era a eugenia, mas o golpe já atingiu seu alvo nos Estados Unidos.
Num caso da Suprema Corte julgado há três anos, Buck vs. Bell, o Ministro Oliver Wendell Holmes Jr. escreveu um voto sustentando uma lei recém-sancionada na Virgínia que determinava a esterilização obrigatória de pessoas sofrendo de “imbecilidade, idiotia, retardo ou epilepsia” – mesmo diante dos protestos de Carrie Buck, 17 anos, que tinha certo atraso mental, mas não a ponto de ignorar a injustiça que estava sendo perpetrada contra ela.
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Permitindo que o Estado removesse cirurgicamente as trompas de Falópio de Buck, diante de um só voto dissidente, dado pelo único ministro católico da corte, o Ministro Pierce Butler, Holmes escreveu: “É melhor para todo o mundo, em vez de esperar executar filhos degenerados por crimes ou permitir que eles morram de fome por causa da imbecilidade, que a sociedade possa evitar que os claramente inadequados se reproduzam”.
Buck foi uma das 60 mil pessoas esterilizadas nos Estados Unidos no século XX, como notou Clarence Thomas em seu voto dissidente no caso Box vs.Planned Parenthood de Indiana e Kentucky, uma apelação que discutia a questão se o estado de Indiana podia legalmente proibir abortos feitos por causa do sexo, raça ou deficiências do feto que está sendo assassinado. A “ideia perigosa” de Thomas — como Ross Douthat a chamou recentemente — é a de que a história sórdida da eugenia nos Estados Unidos continua sendo relevante para nossa interminável disputa constitucional quanto ao aborto.
De acordo com a jurisprudência da Décima Quarta Emenda da Suprema Corte [que fala sobre o devido processo legal], um estado não pode impor um direito fundamental a não ser que por trás dele haja um interesse que só pode ser satisfeito por meios os menos restritivos possíveis. Supondo, apenas para o bem da argumentação, que haja um direito fundamental constitucional ao aborto, ainda assim o Estado tem interesse em impedir abortos feitos por motivos eugenistas — para se deter a machadinha no ar?
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Respondendo a essa pergunta e associando-a às categorias da análise da Proteção Equânime da Corte, Thomas escreveu um voto dissidente de vinte páginas detalhando a história da eugenia nos Estados Unidos, como o objetivo de demonstrar que a lei de Indiana e “leis parecidas promovem o interesse do Estado em impedir que o aborto se tornasse um instrumento da eugenia moderna”.
Como notou Thomas, o “movimento da pílula anticoncepcional do século XX” se misturou e “se desenvolveu juntamente com o movimento eugenista norte-americano”. Ambos “buscavam ajudar a raça [humana] na eliminação dos inadequados”, como escreveu Margaret Sanger em seu ensaio “Birth Control and Racial Betterment” [Pílula anticoncepcional e melhoramento racial].
Mas Sanger expressava dúvidas já no fim do ensaio, perguntando se “a reprodução de casais saudáveis” ou a “esterilização de certos tipos reconhecidos de degenerados” era capaz de limitar a reprodução “em meio às grandes massas que, por pressão econômica, habitam as favelas e lá, impotentes, geram outras massas impotentes, doentes e incompetentes que reforçam tudo o que a eugenia é capaz de fazer entre aqueles cuja condição econômica é melhor”.
Apesar de Sanger não trilhar por esse caminho, a distância estre este ponto de partida e o aborto eugenista não é muito grande. Poucos anos depois de Sanger ter publicado seu ensaio, o eugenista anglicano progressista William Ralph Inge escreveu abertamente em seu livro Outspoken Essays [Ensaios sinceros] que “o dogma ridículo de que os homens nascem iguais está morto, mas não enterrado. A ‘santidade da vida humana’ precisa abrir caminho para a verdade óbvia de que um jardim precisa ser aparado”. Sem o dogma da santidade da vida humana, o que impede o jardineiro da metáfora de matar as ervas-daninhas?

A questão quanto ao aborto ser usado para fins eugenistas, depois das leis de liberalização do aborto no século XX, era séria. Diante disso, parecia fazer sentido que as pessoas interpretassem os comentários da Ministra Ruth Bader Ginsburg numa entrevista de 2009 para a New York Times Magazine como um aceno positivo para o objetivo eugenista de desestimular a reprodução dos pobres e outros indesejáveis. “Sinceramente, eu achava que, quando o caso Roe [que legalizou o aborto nos Estados Unidos] foi julgado”, disse Ginsburg a Emily Bazelon, “havia uma preocupação quanto ao crescimento populacional, sobretudo das populações das quais não queremos ter muitos representantes. De modo que o caso Roe iria estabelecer um financiamento público para o aborto”.
VEJA TAMBÉM: A perversa “eugenia preventiva” Um novo nome para uma velha fantasiaNuma entrevista posterior para Bazelon, na Yale Law School, Ginsburg insistiu que suas palavras tinham sido reproduzidas com precisão, mas que ela fora “enormemente mal interpretada”. Talvez, e a visão generosa de Bazelon é a de que Ginsburg estava resumindo uma ideia que estava no ar em 1973, mas com a qual ela pessoalmente não concordava (apesar de suas palavras numa entrevista diferente de 2014, na qual ela dizia que “não faz sentido ter uma política nacional que promova o nascimento somente entre os pobres” parecerem endossar tanto os lados positivo e negativo da eugenia).
É impossível dar a mesma interpretação generosa a uma carta de Ron Weddington, um dos advogados do caso Roe vs Wade, ao presidente Bill Clinton em 1992. “Depois de convencer os pobres de que eles não conseguirão sair da pobreza tendo tantas bocas a mais para alimentar”, escreveu Weddington, “você terá de criar meios para evitar a existência dessas bocas a mais”. Isto é, “vasectomias, laqueaduras e abortos” feitos pelo Estado. Para deixar ainda mais claro, Weddington encerrava a carta insistindo enfaticamente que “não precisamos de mais bebês pobres”. A categoria dos “pobres”, claro, geralmente representa outras categorias de “indesejáveis”, seja implícita ou explicitamente.
A tecnologia avançou muito desde 1992 e, como diz Thomas, “com os exames pré-natais de hoje e outras tecnologias, o aborto pode ser facilmente usado para eliminar crianças com características indesejáveis”. Isso levou à eliminação quase completa de crianças com Síndrome de Down em muitos países ocidentais e à disseminação do aborto de acordo com o sexo na Ásia e em algumas comunidades dos Estados Unidos. Além disso, há disparidades raciais nas taxas de aborto em muitas comunidades norte-americanas.

É importante ter em mente que o eu na palavra eugenia significa “bom” – bons genes – e que as pessoas que defendem isso acham que estão defendendo algo de bom para a sociedade e o futuro. E eugenia foi e é um movimento progressista — movimento que se baseia numa visão de desenvolvimento, progresso e perfeição. A história do século XX, contudo, mostra que essa visão do Paraíso leva a resultados do inferno. A busca eugênica pelos bons genes se dá à custa da dignidade e igualdade humanas, deixando de lado o dogma da santidade da vida humana. Em vez de nos alertar que a eugenia pode ser posta em prática aqui, o voto dissidente de Thomas expõe o que já aconteceu aqui, e o Estado está interessado em evitar a volta dessa ideia.
Justin Dyer é professor de ciência política e diretor do Kinder Institute on Constitutional Democracy da University of Missouri.

©2019 Public Discourse. Publicado com permissão. Original em inglês”Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/eugenia-aborto-e-a-normalizacao-de-outros-males/?webview=1

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75 anos do Dia D da 2ª Guerra: foi um padre quem resgatou o real “soldado Ryan”

Pe. Francis Sampson e Desembarque na Normandia

Pe. Francis Sampson e soldados na Normandia – Fotos de Domínio Público

Redação da Aleteia | Jun 07, 2019

O célebre filme de Steven Spielberg é baseado em fatos reais – mas o soldado não se chamava Ryan e seu verdadeiro resgatador foi um padre paraquedista

Na semana em que o mundo recorda os 75 anos do mítico Dia D da Segunda Guerra Mundial (6 de junho de 1944), uma infinidade de heróis que deram a vida pela liberdade não terá o seu nome recordado. Compreende-se, já que não é possível dar o merecido destaque público a uma longa lista de jovens, adultos, idosos, homens e mulheres, civis e militares, cuja bravura só foi conhecida pelos seus próprios companheiros, familiares, amigos e conhecidos mais próximos. Uma das maiores brutalidades da guerra é quase “sutil”: a facilidade e a rapidez com que milhares de vidas heroicas praticamente passam em branco aos olhos do mundo que eles ajudaram a tentar libertar.

É o caso, para o grande público, dos heróis da 101ª Divisão Aerotransportada.

Entre os bravos soldados que saltaram para além das linhas alemãs na Normandia naquele épico 6 de junho de 1944 estava o extraordinário capelão da unidade, o pe. Francis L. Sampson (1912-1996), cuja história arrepiante foi relatada em seu livro de memórias Look at Below: A Story of the Airborne by a Paratrooper Padre (“Olhe para baixo: uma história da Aerotransportada, escrita por um padre paraquedista”, publicado em 1958).

O resgate do soldado Niland

Foi o pe. Sampson, e não o personagem de Tom Hanks, quem recebeu das autoridades militares, na vida real, a missão de localizar em plena guerra o soldado Fritz Niland, que tinha perdido no Dia D os seus três irmãos. As cartas com a notícia da morte de nada menos que três filhos haviam chegado ao mesmo tempo às mãos de sua mãe, tal como retrata o célebre filme “O Resgate do Soldado Ryan“, de Steven Spielberg, em uma das suas cenas mais devastadoras.

A história do filme, que optou por nomes e personagens fictícios, é inspirada nos fatos reais que envolveram os irmãos Niland. E o real responsável pelo resgate do último soldado Niland foi o Padre Sam, como era chamado pelas tropas o sacerdote. Ele encontrou o soldado na praia francesa que tinha recebido o codinome de Utah Beach e se encarregou da sua repatriação aos Estados Unidos.

Um capelão paraquedista

Antes disso, o pe. Sampson tinha vivido o dia do desembarque como mais um entre os paraquedistas. Sua primeira medida ao pisar em terra foi procurar o seu kit de missa, que ele tinha perdido durante o salto sob fogo inimigo. Foi um desafio a mais no meio da escuridão e dos disparos mortais – mas ele conseguiu encontrá-lo.

A universalidade da Igreja nas trincheiras

Aquilo foi só o começo. No mesmo dia, em uma granja na qual atendia vários feridos, o padre se viu flagrado por dois soldados alemães. Eles o levaram, sob mira de fuzil, até uma estrada onde aparentemente pretendiam executá-lo. Foi quando apareceu um terceiro soldado alemão: ele não somente evitou o crime como ainda mostrou ao padre, num gesto cúmplice, uma medalha católica. “Foi reconfortante comprovar a universalidade da Igreja naquele dia”, declarou depois o Padre Sam a respeito do católico do exército inimigo que tinha lhe salvado a vida.

Uma breve e épica homilia

Passados poucos dias, ele celebrou a missa para um grupo de enfermeiras numa igreja que tinha sido quase completamente bombardeada. Só tinham ficado em pé duas paredes e… as imagens de Cristo, de São Pedro e de São Paulo, um fato que todos ali consideraram inexplicável.

Diante daquelas ruínas – e daquelas imagens milagrosamente preservadas, o pe. Sam fez esta breve e inesquecível homilia:

“A imagem nua do Galileu pendurado na cruz sempre inspirou amor e ódio. Nero quis fazer da cruz uma imagem odiosa, levando os cristãos à morte, denegrindo-os, incendiando Roma com cruzes humanas em chamas. Juliano, o Apóstata, disse que conseguiria que o mundo esquecesse o homem da cruz, mas, na sua agonia final, teve de confessar: ‘Tu venceste, Galileu’. Os comunistas proíbem a sua presença porque temem o seu poder contra os seus desígnios perversos. Hitler tentou substituir a imagem de Nosso Senhor na cruz por uma estúpida suástica. Invectivas, falsas filosofias, violência… Todo tipo de instrumento diabólico já foi empregado para arrancar o Cristo da cruz e o crucifixo da igreja. Mas, como as bombas que caíram sobre esta capela, só conseguiram destacá-la mais e mais. A imagem que amamos cresce cada vez mais em nosso entendimento pela veemência do ódio das pessoas más. Cada um de nós tem esta imagem sagrada impressa na alma. Como esta capela, somos templos de Deus. E não importa se estamos despedaçados pelas bombas, pela tragédia, pelas provações e pelos ataques: a imagem do Crucificado ficará de pé se assim nós quisermos. Renovemos ao pé desta cruz as nossas promessas batismais. E prometamos que a Sua imagem revestirá para sempre o nosso coração”.

Uma trajetória cinematográfica

O pe. Sampson foi capturado pelos alemães e passou nada menos que seis meses num campo de prisioneiros. Quando foi finalmente libertado, optou por voltar para o fronte e continuou lutando as batalhas finais da 2ª Guerra Mundial com sua mítica 101ª Divisão Aerotransportada.

O célebre livro de Cornelius RyanThe Longest Day (“O mais longo dos dias”), dedicado ao desembarque na Normandia, fala extensamente deste extraordinário sacerdote católico.

O Padre Sam esteve ainda na Coreia. Em 1967, foi nomeado chefe dos capelães militares e, mesmo na reserva, não quis parar de atender os companheiros paraquedistas no Vietnã.

Em 28 de janeiro de 1996, Deus convocou o pe. Francis L. Sampson para desembarcar no Seu Abraço Eterno. Sobre a terra, o Padre Sam deixou profunda marca tanto na história militar norte-americana quanto, acima de tudo, na alma das milhares de pessoas para quem ele foi testemunha valente de Cristo, inclusive quando, a exemplo do Calvário, tudo parecia condenado às trevas sem fim.

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Adaptado de artigo do site Religión en Libertad

Conheça a história de um pai de família mártir assassinado pelos nazistas

Franz Jagerstatter / Rook76, www.shutterstock.com

LIMA, 07 Abr. 16 / 02:00 pm (ACI).- Uma característica comum nas histórias de todos os santos é que Deus sempre está junto a eles, inclusive nas circunstâncias mais difíceis. Isto é possível perceber com o martírio do Beato Franz Jagerstatter, um pai de família que foi morto durante a ocupação nazista da Áustria.

Franz nasceu em um pequeno povoado de Alta Áustria, foi agricultor e se casou com Franziska Schwaninger na Quinta-feira Santa de 1936. Sua esposa foi uma mulher muito devota e, por sua influência, tornou-se sacristão da igreja deste local, onde começou a ler a Bíblia e conhecer a vida dos santos.

Em 1938, perto do dia do nascimento da mais velha de suas três filhas, os alemães invadiram a Áustria no contexto da Segunda Guerra Mundial.

A Igreja Católica no país havia advertido contra o nazismo durante anos. Os católicos na Alemanha enfrentavam graves restrições, incluindo a proibição da Missa – exceto aos domingos – inclusive para as solenidades mais sagradas e dias festivos.

Em 1937, Pio XI publicou a encíclica Mit Brennender sorge (Com ardente inquietação), que tratava acerca das tensas relações entre a Igreja e a Alemanha nazista.

Jagerstatter foi a única pessoa em todo seu povoado que repudiou e votou contra a anexação da Áustria pela Alemanha nazista em 1938. Estava consternado ao ver que muitos católicos apoiavam os nazistas. Inclusive um cardeal exigiu que todas as paróquias erguessem a bandeira nazista em suas igrejas no dia do aniversário de Hitler.

“Dificilmente poderia existir uma hora mais triste para a fé cristã em nosso país”, escreveu o pai de família.

O hoje beato sentiu naquele momento que não podia chamar a si mesmo de discípulo de Cristo se aceitasse os mandatos de um regime ao qual considerava “satânico”.

A princípio, parecia que ser agricultor lhe impediria de lutar pelo exército da Alemanha, pois requeriam a produção de grandes quantidades de alimentos. Infelizmente, em 1943, a necessidade de mais soldados aumentou e Jagerstatter foi chamado ao serviço ativo.

Dirigiu-se ao centro de indução e anunciou que não lutaria, por isso, foi enviado à prisão militar de Linz. “Estou convencido de que a melhor decisão é dizer a verdade, embora corra perigo de vida”, escreveu.

Amigos, familiares e até mesmo o Bispo local visitaram Jagerstatter na prisão, tentando convencê-lo a se alistar, mas ninguém lhe deu um argumento convincente para que desistisse de suas convicções morais e religiosas ao fazer uso da objeção de consciência.

Em vez disso, todos tentaram convencê-lo de que Deus não o tornaria responsável por fazer o que o obrigavam. Mas não o convenceram.

“Desde a morte de Cristo, cada século foi testemunha da perseguição dos cristãos; sempre houve heróis e mártires que entregaram sua vida – normalmente de maneiras horríveis – por Cristo e sua fé. Se esperamos chegar à nossa meta algum dia, então nós também devemos chegar a ser heróis dá fé”, escreveu Franz Jagerstatter.

O Beato permaneceu de maio a agosto de 1943 na mesma prisão do conhecido pastor luterano e mártir Dietrich Bonhoeffer. Além disso, soube que um sacerdote havia sido martirizado na mesma prisão pelas mesmas razões que ele e muitos outros.

Essa convicção lhe custou a própria vida. Foi levado a Berlim, onde foi condenado à morte. Suas últimas palavras registradas antes de morrer na guilhotina foram: “Estou completamente unido em união interior com o Senhor”.

Durante o Concílio Vaticano II, o testemunho de Jagerstatter ajudou a dar forma à seção do documento Gaudium et spes que menciona as objeções de consciência à guerra.

Foi beatificado 50 anos depois de sua morte pelo então Papa Bento XVI. Suas filhas, netos e bisnetos participaram da cerimônia.

A porta larga da esterilização

Muitos entram por ela

Uma mulher, mãe de quatro filhos, três nascidos e um por nascer, vem a um sacerdote perguntar se é permitido praticar a laqueadura tubária ou ligadura de trompas. Ela explica que os três primeiros partos foram cesáreos e que, segundo o médico, o quarto também deverá ser cesáreo. Haveria assim uma oportunidade de aproveitar a abertura do abdômen para fazer a laqueadura.

O sacerdote, por falta de conhecimento ou de fidelidade à Igreja, diz que, sem dúvida alguma, é lícito àquela senhora laquear suas trompas.

A mulher não se dá por satisfeita, pois ouvira dizer que a laqueadura tubária é um pecado grave. O padre lhe responde:

– Sim, é um pecado grave se for feita por motivo fútil. Mas o caso da senhora é diferente. Com três cesarianas sucessivas, o útero está fragilizado e se tornará mais frágil ainda no próximo parto cesáreo. A laqueadura, em seu caso, será feita para evitar os perigos que uma nova gravidez traria para a senhora e para o bebê. Pode laquear-se sem o menor escrúpulo de consciência.

A mulher sente-se aliviada e agradece entre lágrimas ao padre por aquela solução cômoda. Após a cirurgia, com o recém-nascido nos braços, vem novamente manifestar gratidão ao sacerdote “compreensivo” que lhe apontara a porta larga da esterilização. E a história termina em “final feliz”.

A porta estreita

Imagine-se que a mesma mulher da história anterior tenha ido consultar um sacerdote fiel ao Magistério da Igreja. A resposta dele seria:

– Embora eu compreenda todo o problema pelo qual a senhora está passando, não posso dizer que a laqueadura seja lícita. Essa cirurgia danifica e mutila as trompas de Falópio, que são órgãos que Deus criou para a sublime missão de transmitir a vida.

– Mas o médico disse que se eu não ligar as trompas, vou morrer na próxima gravidez!

– Primeiramente vamos consultar outro médico para verificar se esse perigo existe e se é tão grande assim. Mas ainda que se pudesse assegurar que na próxima gravidez a senhora morreria, nem assim seria lícito recorrer à laqueadura, que é uma esterilização direta.

– O que é uma esterilização direta?

– É uma intervenção que tem como fim ou como meio tornar a pessoa estéril. Se a senhora estivesse com câncer no útero, o médico removeria o útero para extirpar o tumor. Tal cirurgia deixaria a senhora estéril, mas não diretamente. A esterilidade não seria querida como fim nem como meio, mas apenas tolerada como um efeito colateral da cirurgia. No caso da senhora, porém, o médico pretende praticar a esterilização como meio de evitar riscos em uma nova gravidez.

– Mas evitar riscos não é um fim bom?

– Sim, mas o fim não justifica os meios. Não se pode obter esse fim por meio de uma laqueadura, que é uma esterilização direta.

– Então, o que eu devo fazer?

– Se de fato houver motivos sérios para adiar uma nova gravidez, a senhora e seu marido poderão, após o parto, abster-se dos atos conjugais nos dias férteis. A isto se chama continência periódica.

– Mas para mim é muito difícil reconhecer os sinais de fertilidade. Parece que eu sou diferente das outras mulheres.

– Vou conduzir a senhora a um casal que conhece bem a última versão do método Billings, incluindo o caso de mulheres que apresentam umidade constante nos dias inférteis.

* * *

Como se vê, ao dizer não à laqueadura, o padre não pôde despedir sumariamente aquela mulher, como fizera o padre da história anterior. Prometeu levá-la a um outro médico, a fim de confirmar ou não aquele prognóstico sombrio, e ainda ofereceu-lhe um casal para instruí-la corretamente no método Billings.

Para não trair a verdade, aquele sacerdote teve um grande trabalho. Acompanhou aquela mãe e seu marido durante a gestação, o parto e o pós-parto. Deu-lhes palavras de encorajamento e conforto, mas nunca lhes disse que a laqueadura era lícita.

Ao receberem uma instrução atualizada sobre o método Billings, a mulher e seu marido admiraram-se de sua própria ignorância. Quanta coisa eles não sabiam ou haviam aprendido de maneira incorreta!

E ao consultarem o outro médico, indicado pelo padre, o casal entendeu que seu caso não era tão sério assim. Era verdade que a mulher já se havia submetido a três cesarianas, mas isso não equivalia a uma sentença de morte. No caso dela, a cicatrização tinha sido ótima, quase sem deixar vestígios[1]. Provavelmente ela poderia ainda submeter-se a vários partos cesáreos[2].

A história terminou em um verdadeiro final feliz, mas o pastor, que apontou a porta estreita da verdade, teve que se cansar muito.

Reflexões

Várias vezes a Igreja se pronunciou contra a laqueadura usada para impedir os riscos de uma futura gravidez. Pio XII já dizia que em tal caso não se pode aplicar o princípio da totalidade:

Nesse caso, o perigo, que corre a mãe, não provém, nem direta nem indiretamente, da presença ou do funcionamento normal das trompas […]. O perigo não aparece a não ser que a atividade sexual livre leve a uma gravidez. Faltam as condições, que permitiriam dispor duma parte, a favor do todo, em virtude do princípio da totalidade. Portanto, não é permitido intervir nas trompas sadias[3].

Em 1975, a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé emitiu um documento em resposta a perguntas da Conferência Episcopal dos Estados Unidos sobre a esterilização nos hospitais católicos[4], reafirmando a posição de Pio XII:

Toda esterilização que por si mesma, isto é, por sua própria natureza e condição, tem por único efeito imediato tornar a faculdade generativa incapaz de procriar, deve ser considerada esterilização direta […]. Por isso, não obstante qualquer boa intenção subjetiva daqueles cujas intervenções são inspiradas pelo cuidado ou pela prevenção de uma doença física ou mental prevista ou temida como resultado de uma gravidez, tal esterilização permanece absolutamente proibida segundo a doutrina da Igreja.

Se, portanto, constitui pecado grave o uso de um preservativo para tornar estéril um único ato conjugal, quanto maior será a gravidade de uma cirurgia feita para tornar estéreis todos os atos conjugais futuros! Assim adverte o citado documento:

E de fato, a esterilização da faculdade (generativa) é proibida por um motivo ainda mais grave que a esterilização dos atos singulares, uma vez que produz na pessoa um estado de esterilidade quase sempre irreversível.

Em 1993, a mesma Congregação reforçou sua posição ao responder sobre o “isolamento uterino” (= laqueadura tubária) feito para evitar os riscos de uma futura gravidez[5]. Segundo o documento, em tal caso a laqueadura é feita

… para tornar estéreis os futuros atos sexuais férteis, livremente realizados. O fim de evitar os riscos para a mãe, derivantes de uma eventual gravidez, vem portanto perseguido por meio de una esterilização direta, em si mesma sempre moralmente ilícita […].

Se, por absurdo, a Igreja decidisse autorizar um único caso de esterilização direta, deveria, por coerência, autorizar também a anticoncepção e despedir todos os instrutores do método Billings de regulação da procriação. Isso, porém, jamais a Igreja poderá fazer, pois a proibição da esterilização direta não é uma lei criada pela Igreja (e, portanto, reformável por ela), mas uma lei divina, que a Igreja apenas reconhece e expõe fielmente para a nossa observância.

Anápolis, 4 de julho de 2016.

Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz

[1] “Algumas pacientes são tão ‘boas cicatrizadoras’ que às vezes é difícil ver a cicatriz mesmo depois de quatro cesarianas” (H.P. DUNN. The doctor and Christian marriage. New York: Society of Saint Paul, 1992. Tradução nossa).

[2] “O recorde de cesarianas está em catorze, no Texas” (Kimberly HAHN, O amor que dá vida, São Paulo: Quadrante, 2012, p. 111).

[3] Edvino FRIDERICHS. Mensagem de Pio XII aos médicos, 11. ed. São Paulo: Paulinas, 1960. Duas respostas de Pio XII ao XXVI Congresso Italiano de Urologia (08.10.1953), p. 319.

[4] SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Resposta sobre a esterilização nos hospitais católicos. 13 mar 1975, AAS 68 (1976), 738-740.

[5] CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Respostas às duvidas propostas sobre o ‘isolamento uterino’ e outras questões. 31 jul. 1993. AAS 86 (1994) 820-821.

Siga sua consciência

Sexta, 05 Janeiro 2018 16:36

Mas antes procure convertê-la à verdade e ao bem

É dever do homem obedecer a Deus. A lei divina é a norma universal e objetiva da moralidade. Mas quem aplica essa lei a cada caso concreto? A consciência moral. Ela é a norma próxima da moralidade pessoal. É ela que julga se esta ação concreta está ou não de acordo com a lei divina (que é abstrata).

Eis um exemplo de juízo de consciência:

É proibido matar diretamente um inocente.

lei moral objetiva

Ora, expulsar do útero uma criança de três meses é matá-la diretamente.

caso concreto

Logo, eu não posso induzir a expulsão deste bebê prematuro cuja bolsa se rompeu.

ditame da consciência

Sobre a consciência moral, assim se exprime o Concílio Vaticano II:

No fundo da própria consciência o homem descobre uma lei que não impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer; essa voz, que sempre está chamando ao amor do bem e à fuga do mal, soa no momento oportuno, na intimidade do seu coração: faze isto, evita aquilo. O homem tem no coração uma lei escrita pelo próprio Deus: a sua dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado (cf. Rm 2,14-16)[1].

Segundo São João Paulo II, o trecho acima da Carta aos Romanos, a que o Concílio se refere,

… indica o sentido bíblico da consciência, especialmente na sua conexão específica com a lei: ‘Porque, quando os gentios, que não têm lei, cumprem naturalmente os preceitos da lei, não tendo eles lei, a si mesmos servem de lei. Deste modo, demonstram que o que a lei ordena está escrito nos seus corações, dando-lhes testemunho disso a sua consciência e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os’ (Rm 2,14-15)[2].

Prossegue o Santo Padre em sua belíssima encíclica Veritatis Splendor:

De acordo com as palavras de S. Paulo, a consciência, de certo modo, põe o homem perante a lei, tornando-se ela mesma ‘testemunha’ para o homem: testemunha da sua fidelidade ou infidelidade relativamente à lei, ou seja, da sua essencial retidão ou maldade moral (VS 57).

[…]

S. Paulo não se limita a reconhecer que a consciência faz de ‘testemunha’, mas revela também o modo como ela cumpre uma tal função. Trata-se de ‘pensamentos’, que acusam ou defendem os gentios relativamente aos seus comportamentos (cf. Rm 2,15). O termo ‘pensamentos’ põe em evidência o caráter próprio da consciência, o de ser um juízo moral sobre o homem ou sobre seus atos: é um juízo de absolvição ou de condenação, segundo os atos humanos são ou não conformes com a lei de Deus inscrita no coração.

[…]

A consciência formula assim a obrigação moral à luz da lei natural: é a obrigação de fazer aquilo que o homem, mediante o ato da sua consciência, conhece como um bem que lhe é imposto aqui e agora. […]. O juízo da consciência […] formula a norma próxima da moralidade de um ato voluntário, realizando a ‘aplicação da lei objetiva a um caso particular’ (VS 59).

Ora, não é tarefa de um juiz fazer a lei, mas aplicar a lei a determinado caso. Assim, a consciência não cria a lei moral. Não se pode simplesmente dizer a alguém “siga a sua consciência” sem procurar formar a consciência daquele que está em dúvida.

O juízo da consciência não estabelece a lei, mas atesta a autoridade da lei natural e da razão prática face ao bem supremo, ao qual a pessoa humana se sente atraída e cujos mandamentos acolhe: ‘A consciência não é uma fonte autônoma e exclusiva para decidir o que é bom e o que é mau; pelo contrário, nela está inscrito profundamente um princípio de obediência relacionado com a norma objetiva, que fundamenta e condiciona a conformidade das suas decisões com os mandamentos e proibições que estão na base do comportamento humano’ (VS 60).

São João Paulo II, citando novamente o Concílio Vaticano II, alerta-nos que a consciência não está isenta da possibilidade de erro:

Não raro, porém, acontece que a consciência erra, por ignorância invencível, sem por isso perder a própria dignidade. Outro tanto não se pode dizer quando o homem se descuida de procurar a verdade e o bem, e quando a consciência se vai progressivamente cegando, com o hábito do pecado[3].

A consciência, portanto, “não é um juiz infalível: pode errar. Todavia o erro da consciência pode ser fruto de uma ignorância invencível, isto é, de que o sujeito não é consciente e donde não pode sair sozinho” (VS 62). Neste caso, ensina-nos o saudoso Papa, “o mal cometido por causa de uma ignorância invencível ou de um erro de juízo não culpável não pode ser imputado à pessoa que o realiza” (VS 63).

Para ilustrar o que diz a encíclica, imaginemos que alguém viva em um ambiente em que todos julgam que a eutanásia é um ato de misericórdia. Um homem, imerso nessa “cultura da morte”, vê a sua mãe debatendo-se em dores por causa de uma doença incurável. Ele não tem a menor dúvida de que é lícito aplicar uma injeção de veneno na mãe a fim de que ela morra e deixe de sofrer. Sua consciência – invencivelmente errônea – julga que é até um dever filial matar a mãe em tais circunstâncias. Ao praticar a eutanásia em sua mãe, tal pessoa não cometeu pecado. No entanto, um homicídio ocorreu: uma desordem objetiva. Explica-nos São João Paulo II:

Também neste caso, aquele não deixa de ser um mal, uma desordem face a verdade do bem. Além disso, o bem não reconhecido não contribui para o crescimento moral da pessoa que o cumpre: não a aperfeiçoa nem serve para encaminhá-la ao supremo bem. Assim, antes de nos sentirmos facilmente justificados em nome da nossa consciência, deveríamos meditar as palavras do Salmo: ‘Quem poderá discernir todos os erros? Purificai-me das faltas escondidas’ (Sl 19,13). Existem faltas que não conseguimos ver e que, não obstante, permanecem culpáveis, porque nos recusamos a caminhar para a luz (cf. Jo 9,39-41) (VS 63).

Essas palavras fazem-nos lembrar as de São Paulo: “Verdade é que a minha consciência de nada me acusa, mas nem por isso estou justificado; meu juiz é o Senhor” (1Cor 4,4).

Daí a necessidade de “formar a consciência, fazendo-a objeto de contínua conversão à verdade e ao bem” (VS 64). […] “Uma grande ajuda para a formação da consciência têm-na os cristãos, na Igreja e no seu Magistério” (VS 64).

A autoridade moral da Igreja, que se pronuncia sobre as questões morais, não lesa de modo algum a liberdade de consciência dos cristãos:

● não apenas porque a liberdade de consciência nunca é liberdade ‘da’ verdade, mas sempre e só ‘na’ verdade;

● mas também porque o Magistério não apresenta à consciência cristã verdades que lhe são estranhas, antes manifesta as verdades que deveria já possuir, desenvolvendo-as a partir do ato originário da fé (VS 64).

S. João Paulo II adverte contra o erro de reconhecer um “duplo estatuto da verdade moral”. Haveria uma verdade moral doutrinal e abstrata e outra verdade moral mais concreta. “Esta – diz o Papa – tendo em conta as circunstâncias e a situação, poderia legitimamente estabelecer exceções à regra geral, permitindo desta forma cumprir praticamente, em boa consciência, aquilo que a lei moral qualifica como intrinsecamente mau” (VS 56).

Ilustremos essa posição com um exemplo.

Uma senhora pergunta a um sacerdote se é lícito usar algum anticoncepcional. Ela desejaria ter filhos, mas seu marido, que não compreende o valor da família numerosa, fica furioso a cada gravidez. O sacerdote sabe que todo ato conjugal deve ser aberto à vida. Logo, sua resposta deve ser negativa. Mas ao dizer “não” à anticoncepção, o sacerdote deve assumir a obrigação de formar a consciência daquele casal. Será necessário conversar com o marido para fazê-lo ver que “os filhos são uma bênção do Senhor” (Sl 126,3). E se o padre constatar que há alguma razão séria para que eles posterguem uma nova gravidez, deverá procurar alguém que os instrua em algum método natural de regulação da procriação. Tudo isso é muito trabalhoso e gera oposições. Para evitar esse fardo, o sacerdote adota uma solução cômoda e simplista: explica a doutrina da Igreja contrária à anticoncepção, mas acrescenta que, levando em conta aquela situação concreta, o casal deve apenas “seguir sua consciência”. Dá a entender assim que o casal pode, em boa consciência, contrariar a lei moral objetiva. Se o casal, confiando na ciência e na honestidade do padre, praticar a anticoncepção, obviamente não cometerá pecado. O sacerdote, porém, será responsável pelo mal, pela desordem objetiva que, podendo e devendo evitar, permitiu.

O que aqui se disse sobre a anticoncepção, vale, com gravidade ainda maior, para as permissões concedidas à laqueadura e à vasectomia (que são esterilizações diretas), e para todo aborto diretamente provocado, ainda que se afirme (por desconhecimento médico ou por desonestidade) que ele é necessário para salvar a vida da gestante. Como é grande a culpa dos pastores que, ao invés de apontarem a porta estreita que conduz à vida, apontam a porta larga do pecado como uma opção moralmente aceitável! E tudo isso em nome das “circunstâncias concretas”, da “prática pastoral”, da “misericórdia” e da “consciência” …

Anápolis, 5 de janeiro de 2018.

Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz.

Presidente do Pró-Vida de Anápolis.

[1] Constituição Pastoral Gaudium et Spes, n. 16.

[2] JOÃO PAULO II, Veritatis Splendor, n. 57. Doravante esta encíclica será citada pela sigla VS. Os destaques são e serão sempre do original.

[3] Constituição Pastoral Gaudium et Spes, n. 16.

Filhos são um dom de Deus, não um “direito”

Por trás da mentalidade que justifica os métodos contraceptivos está um erro funesto: conceber o filho, não como um dom de Deus, mas como uma “commodity” a ser produzida e comercializada.

Leila MillerTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

7 de Agosto de 2017

Em nossa sociedade, os adultos têm “descoberto” e se arrogado novos “direitos” num ritmo assustador, e isto em detrimento dos verdadeiros direitos — inclusive os das crianças. Depois de ler há alguns anos o seguinte parágrafo do Catecismo, decidi pôr fim às minhas buscas. Eu nunca mais o esqueci, talvez porque a cultura em que vivemos o tenha esquecido completamente:

O filho não é algo devido, mas um dom. O “dom mais excelente do matrimônio” é uma pessoa humana. O filho não pode ser considerado como objeto de propriedade, a que conduziria o reconhecimento de um pretenso “direito ao filho”. Nesse campo, somente o filho possui verdadeiros direitos: o “de ser fruto do ato específico do amor conjugal de seus pais, e também o direito de ser respeitado como pessoa desde o momento de sua concepção” (CIC 2378).
A Igreja está dizendo aos adultos: vocês não têm direito a um filho. Vocês têm um direito natural e de origem divina a muitas coisas, mas um filho não é uma delas.

E por quê? Porque a criança é um dom, um presente.

Talvez já tenhamos ouvido esta frase cá e lá, mas será que a entendemos de fato? Pensemos na natureza de todo e qualquer dom — trata-se de algo que, em si mesmo, nunca é “devido”. Um dom é algo entregue livre e voluntariamente pelo doador; nunca é exigido nem reivindicado. Não podemos forçar quem quer que seja a dar-nos um presente, porque neste caso ele já não seria mais um presente.

A partir do momento em que um adulto acredita que ter um filho é um “direito” seu, a criança passar a ser vista como objeto de uma prestação que tem de ser satisfeita, quaisquer que sejam os meios necessários para isso. Tratar-se-ia de uma questão de justiça, uma vez que temos direito aos nossos direitos!

Mas quando nossas ideias chegam a este patamar (e isto aconteceu em nossa cultura), começamos a justificar os meios de “conseguir” o filho que nos é devido; a criança é agora uma commodity a ser produzida e adquirida. Além disso, visto que um filho é “considerado um objeto de propriedade”, como diz a Igreja, tornam-se permitidas todas as formas de injustiça praticadas contra as crianças. Afinal de contas, o que é que fazemos com nossa propiedade? Ora, tudo o que quisermos: comprar, vender, manipular, dispor etc. Uma propriedade não tem absolutamente direito a nada.

Ainda assim, a Igreja diz às crianças: vocês têm o direito de nascer do ato conjugal daqueles que são seus pais. Vocês, crianças, são as únicas que “possuem verdadeiros direitos” nesse campo da existência humana.

Apesar das opiniões que por aí circulam, toda criança tem o direito natural e primordial de ser concebida a partir de um ato de amor entre seu pai e sua mãe, unidos em matrimônio. Fechemos os ouvidos ao murmúrio que nos rodeia, à falsa promessa de que “você pode ter tudo o que quiser”. Não percamos de vista qual era o projeto originário de Deus, “no princípio”, para o casamento e a família — a criança é fruto da união de seus pais em uma só carne. Esse projeto não foi alterado.

Ora, uma vez que a criança tem direito a ser o “fruto do ato específico do amor conjugal de seus pais”, técnicas reprodutivas como, por exemplo, a FIV (fecundação in vitro), a doação de esperma e as chamadas “barrigas de aluguel” são sempre moralmente reprováveis. A advogada pró-vida Dorinda Bordlee, do Bioethics Defense Fund (Fundo de Defesa Bioética), chama a estes procedimentos “tráfico de reprodução humana”: negociam-se contratos e investem-se vultosas somas de dinheiro para comprar gametas humanos. A concepção de uma criança é posta literalmente na mão de terceiros, e as mães e pais biológicos são alugados, comprados e vendidos como simples “partes” de um corpo.

Esta é uma verdade que nem todos estão dispostos a ouvir. Afinal, o que poderia haver de errado com o desejo de ter um filho, sobretudo quando se trata de casais inférteis e de boa vontade que, desesperados por trazer um bebê para casa, não têm a intenção nem de descartar os embriões “excedentes” durante um ciclo de FIV nem de “reduzir seletivamente” (ou seja, abortar) uma ou mais crianças, já que muitas são implantadas? A resposta é que não há nada de errado com o desejo em si. O desejo de um marido e uma mulher de ter um filho é bom e santo. Mas a boa intenção deles não justifica o uso de meios maus (cf. CIC 1750-1761).

A infertilidade é, de fato, uma cruz pesada, e os casais inférteis podem, sem dúvida nenhuma, servir-se de todas as tecnologias reprodutivas moralmente aceitáveis à disposição para tratar ou curar sua infertilidade, a fim de conceberem e criarem uma criança de modo natural. Aqui se incluem, por exemplo, as terapias hormonais e os fármacos que estimulam a ovulação ou facilitam a implantação do embrião. Há ainda as terapias holísticas (como a NaPro Technology), voltadas para a cura dos problemas de saúde responsáveis pela infertilidade, algo que as técnicas de reprodução artificial são incapazes de fazer.

Uma bela opção para os casais que ou não podem conceber, mesmo depois de um tratamento, ou que preferem renunciar a métodos terapêuticos é a adoção. Mas alguém poderia objetar: acaso a adoção não trata a criança como um “direito”, e não como um dom? E o que pensar do fato de um filho adotado não ficar sob os cuidados do casal que o concebeu? Em primeiro lugar, precisamos ter em mente que a adoção se ordena, antes de tudo, a suprir as necessidades da criança, e não a satisfazer os desejos dos adultos (embora, é claro, isso possa ser uma feliz consequência). A adoção, portanto, consiste em recuperar o que a criança perdeu. É ela que possui aqui os direitos, não os adultos.

De acordo com o Catecismo, o outro direito fundamental de que a criança é titular é o de “ser respeitada como pessoa desde o momento de sua concepção”. O “dom mais excelente do matrimônio”, uma nova pessoa humana, é uma vida sagrada e inviolável, como todos nós o somos. Toda criança concebida vem ao mundo para amar e ser amada, e nunca, evidentemente, para ser morta. Esta realidade afirma e protege não somente a dignidade da criança, mas também a dignidade de toda pessoa, assim como a do matrimônio.

A criação e as leis de Deus são belas porque formam uma tapeçaria de verdades. Talvez fiquemos confusos e perdidos em uma cultura relativista e consequencialista; mas, quando voltamos à razão, quando esclarecemos nossas ideias e abrimos nosso coração para os primeiros princípios, todas as coisas vão para os seus devidos lugares e nos tornamos capazes de enxergar a beleza do perfeito projeto de Deus.

“A pornografia é a teoria, o estupro é a prática”

Os homens não nascem estupradores, mas, por algum motivo, muitos deles tendem cada vez mais a justificar a violência sexual. Por quê? Porque a pornografia transformou o corpo de mulheres e meninas em mercadoria.

Jonathon van MarenTradução: Equipe Christo Nihil Praeponere

29 de Maio de 2019


“A pornografia é a teoria”, escreveu certa vez a conhecida feminista Robin Morgan, “o estupro é a prática”.

De fato, as feministas em geral costumavam pensar que a pornografia, na melhor das hipóteses, era algo desumano e degradante, um produto criado por homens e para homens que retratava as mulheres como meros objetos de desejos masculinos; na pior das hipóteses, era a celebração violenta da destruição do feminino, em que as mulheres eram espancadas, estupradas, humilhadas e, em todo caso, agredidas para satisfazer os prazeres perversos de misóginos que afirmavam ser um “fetiche” o seu ódio às mulheres.

Hoje, porém, espera-se que as feministas sejam “pró-sexo”, o que significa que elas têm de apoiar a pornografia, pois seria inútil opor-se aos mais de 80% da população masculina que a consomem.

Lembro-me de um debate sobre pornografia durante uma de minhas primeiras aulas de ciência política na universidade: na classe inteira, apenas eu e um outro colega nos opomos à pornografia. A maioria dos rapazes permaneceu sentada, em silêncio, numa tentativa de não interferir na discussão, ao passo que eram algumas das alunas as mais ferozes defensoras desta imundície; era como se elas tivessem que provar alguma coisa.

A pornografia — diz o nosso novo dogma sexual — é inofensiva, senão benéfica. E quando comecei a afirmar em alguns artigos meus que a pornografia promove a “cultura do estupro”, a reação dos homens que não conseguem abandoná-la foi rápida e agressiva.

Por isso, comecei a entrar em contato com especialistas na área, com pessoas que estudaram o impacto da pornografia em homens e mulheres. A entrevista mais reveladora e chocante que já fiz foi com a dr.ª Mary Anne Layden, diretora do Programa de Trauma Sexual e Psicopatologia, do Departamento de Psiquiatria da Universidade da Pensilvânia. Já tive ocasião de citar o trabalho dela sobre pornografia e violência antes, e quis descobrir em primeira mão o que os seus estudos tinham revelado.

— Quando — perguntei à dr.ª Layden — começaram seus estudos sobre a relação entre violência e pornografia?

— Quando comecei a atuar como psicoterapeuta há cerca de 30 anos — respondeu —, comecei a tratar pacientes que tinham sido vítimas de violência sexual, e senti-me particularmente tocada pelos danos que a violência sexual nelas tinha causado. Depois de mais ou menos 10 anos atuando na área […], finalmente percebi que jamais tinha tratado um único caso de violência sexual que não envolvesse pornografia… Alguns casos eram de estupro, outros de incesto, outros de abuso infantil, outros de assédio sexual; mas, apesar da diversidade de casos, a pornografia estava presente em cada um deles. Assim, pareceu-me haver ali alguma relação. Com o passar do tempo, comecei a me interessar pelos aspectos comuns aos criminosos sexuais, porque me dei conta de que jamais resolveríamos o problema da violência sexual tratando, uma por uma, as vítimas que foram atingidas por ele. Não havia terapeutas suficientes no mundo; mas havia, isso, sim, demasiadas vítimas no mundo. Não podíamos resolver isto tratando cada vítima em particular; era necessário ver as coisas de cima e descobrir qual era a causa geral do problema.

“Jamais tinha tratado um único caso de violência sexual que não envolvesse pornografia.”
E, como a dr.ª Layden descobriu, era a indústria pornográfica que estava por trás de tudo. “Os homens não nascem estupradores”, disse-me ela. Mas, por algum motivo, muitos deles tendem cada vez mais a justificar a violência sexual. Por quê? Porque a pornografia transformou o corpo de mulheres e meninas em mercadoria. A pornografia está moldando a forma como os homens vêem as mulheres.

— Trata-se de um produto — disse enfaticamente a dr.ª Layden. — É todo um negócio, e creio que muitos rufiões deixariam de o fazer se não houvesse dinheiro envolvido; mas se trata de um negócio, e a partir do momento que se diz que isso é um produto, que é algo que se pode comprar, então é algo que também se pode roubar. As duas coisas estão entrelaçadas: se você pode comprá-lo, pode também roubá-lo, e é até “melhor” que o roube, porque não será necessário pagar por ele. Assim, a indústria da exploração sexual, seja um clube de strip, seja a prostituição ou a pornografia, é onde você o compra; a violência sexual (o estupro, o abuso, o assédio) é onde você o rouba. Estas coisas estão indissoluvelmente ligadas. Não há maneira de traçar uma linha de demarcação clara entre o estupro e a prostituição, entre a pornografia e o abuso de menores. Não há linhas claras de separação. Os que praticam essas coisas possuem um conjunto comum de crenças, e quando analisamos os resultados da pesquisa podemos distinguir algumas delas. Desta forma, sabemos que os indivíduos que se expõem a conteúdos pornográficos costumam pensar, por exemplo, que as vítimas de estupro “gostam” de ser estupradas; que elas “não sofrem muito” quando são violentadas; que “elas receberam o que queriam”; que as mulheres inventam acusações falsas de estupro, porque o estupro, na verdade, não existe (o sexo é bom ou ótimo, e não há meio termo); que ninguém fica realmente traumatizado depois da experiência etc. Todas essas ideias fazem parte do “mito do estupro”, e quem consome pornografia aceita o “mito do estupro” em grau muito superior às outras pessoas. Por isso, temos a impressão de que a pornografia as está ensinando a pensarem como um estuprador e agirem como um.

A pornografia está moldando a forma como os homens vêem as mulheres.
A pornografia, como todo produto, fez do corpo feminino o que a economia sempre faz com qualquer produto: se algo se torna mercadoria, acaba perdendo valor. É simples assim. Mas quando a estratégia de mercado consiste em inflamar a luxúria e apelar para o poder de degradar as mulheres, os resultados são devastadores. Como a dr.ª Layden afirmou em nossa entrevista, nós deixamos inclusive de nos ver como seres humanos.

— Quando você deprecia o corpo das mulheres — continuou ela —, quando você trata as pessoas como coisas, há consequências, e uma delas é a violência sexual, e outra consequência é também a deterioração dos relacionamentos. Existe uma série interessante de estudos que joga um pouco de luz sobre como se dá esse fenômeno. Os pesquisadores mostraram aos voluntários algumas imagens de conteúdo levemente sexual, de homens e mulheres em trajes de banho ou apenas com a roupa de baixo. As imagens eram vistas de cabeça para baixo e de cabeça para cima, e depois os pesquisadores observavam os processos que tinham lugar no cérebro dos voluntários, porque isto permite determinar que parte do cérebro é utilizada para processar a visualização de determinadas imagens. O que vemos com os homens é que, quando as pessoas olham para um deles, e o veem em traje de banho ou só com a roupa de baixo, elas usam a parte do cérebro que processa rostos humanos; mas quando olhamos para mulheres em traje de banho ou só com a roupa de baixo, usamos a parte do nosso cérebro que processa instrumentos e objetos, e quando você processa uma mulher como um instrumento ou objeto, a tendência é utilizá-lo. As regras de que nos servimos quando lidamos com instrumentos ou objetos diz que, se eles não estão cumprindo a sua função, é melhor jogá-los fora e procurar outros. As feministas diziam anos atrás que os homens estavam tratando as mulheres como objetos sexuais, e pensávamos que isso não passava de uma metáfora. Mas não era uma metáfora. Era, sim, uma descrição da realidade: os homens estavam usando a mesma parte do cérebro que utilizam para processar objetos e coisas, e há uma consequência para a sociedade quando você começa a tratar o sexo como um produto e a mulher como uma coisa.

“Quando você trata as pessoas como coisas, há consequências, e uma delas é a violência sexual.”
Obviamente, os que evidenciam estes fatos e os que se opõem à pornografia são condenados como “retrógrados”, “puritanos” e “antissexo”. Quando o lembrei à dr.ª Layden, ela não se mostrou nem um pouco impressionada.

— O desejo de amor — disse ela — está incrustado em nós. Um de meus colegas disse uma vez: “O verdadeiro perigo é que isto põe a perder o amor em um mundo em que somente o amor traz felicidade”. Isso resume o que estamos fazendo, que todos estamos “programados” para amar e ser amados. É isso que alimenta o nosso coração faminto, e nós temos agora uma geração que está esfomeada e tem o coração ávido; mas o que eles têm consumido é lixo sexual, eles estão se tornando “obesos sexuais” porque é tão grande a sua fome [de amor] que estão dispostos a comer até mesmo esse lixo, se não há outro alimento disponível. Por isso, o que precisamos, em parte, são pessoas que falem sobre a beleza do sexo, sobre a maravilha do sexo, sobre como o sexo une os casais comprometidos e os ajuda a manterem suas promessas de fidelidade mútua; precisamos de pessoas que falem que existe, sim, uma sexualidade boa, que enobrece, que anima e se baseia no amor, mas que todo esse lixo sexual que aí está não é nada disso.

Que pensar, no fim das contas? Que os que se opõem à pornografia não são “antissexo”. São apenas gente sábia o bastante para reconhecer que a pornografia é veneno. Quando usada como um sucedâneo do amor, ela equivale a dar um copo de água salgada para alguém morrendo de sede: ela irá provocar ainda mais desejo, mas sem proporcionar satisfação alguma. Para a dr.ª Mary Anne Layden, isso é autoevidente, e ela pretende que o maior número possível de pessoas seja capaz de o ver assim também.

“A pornografia provoca ainda mais desejo, mas sem proporcionar satisfação alguma.”
— Se eu dissesse às pessoas: “Quero que tenham uma alimentação saudável e deixem de ir ao McDonald’s”, elas não me chamariam de “anticomida”. Elas apenas diriam que eu quero promover uma alimentação saudável […]. Ora, o mesmo acontece com a sexualidade: quero promover uma sexualidade saudável, amorosa, que enobreça e alimente a alma, e não uma “sexualidade fast food”.

E como consegui-lo? Com altíssimos índices de adicção à pronografia, isso sequer é possível? A dr.ª Layden tem tantas sugestões, que é difícil resumi-las:

— Acho que deveríamos nos educar a nós mesmos; precisamos contar a verdade aos outros; cada um tem de falar a verdade porque, uma vez que sabemos de tudo isso, calar-se é tornar-se cúmplice. Precisamos ir às nossas escolas e centros de ensino e dizer aos responsáveis: “Vocês precisam proteger nossas crianças”. Precisamos exigir dos nossos governantes que impeçam a difusão de ideias como “com consentimento, vale tudo”, o que significa impedir a legalização da prostituição. Ideias como aquela dizem aos homens que a prostituição não é um problema, e assim mais e mais homens irão atrás de prostitutas. Precisamos criar leis contra o que prejudica as pessoas; é preciso que a sociedade se indigne de verdade quando um caso de violência sexual é varrido para debaixo do tapete, por ter sido cometido por uma celebridade, por exemplo. Precisamos nos reunir e ter a jornalistas, advogados e pais de mãos dadas, como um time forte, para dizer que a nossa sociedade é digna de ser salva, que as nossas crianças são dignas de ser protegidas, que a sexualidade é algo sagrado. Mas precisamos fazê-lo em conjunto, e isso exige um esforço conjunto… Quando ouço alguém dizer que não, não é possível pôr o leite derramado de volta na embalagem, digo que há 50 anos 60% dos habitantes de Nova Iorque eram fumantes, e hoje somente 18% das pessoas fumam na cidade. É possível, sim, “pôr o leite de volta na embalagem”. Nós podemos fazê-lo e vale a pena fazê-lo.

“A nossa sociedade é digna de ser salva, as nossas crianças são dignas de ser protegidas, a sexualidade é algo sagrado.”
Eu, assim como a dr.ª Mary Anne Layden, não sou “antissexo”, embora não me oponha a ser chamado de retrógrado. Eu sou, contudo, totalmente “antipornografia”, e isso porque a pornografia está transformando em “retrógrados” relacionamentos saudáveis, amorosos e fiéis. Ela está roubando da geração atual a sua capacidade de aproveitar relacionamentos duradouros e felizes. É por isso que temos a responsabilidade de dar voz ao chamado da dr.ª Layden e de muitos outros especialistas a lutarmos contra o mal da pornografia, onde quer que ele se encontre. Os que afirmam que a pornografia é inofensiva estão, ao fim e ao cabo, muitíssimo mal informados.

Não, a culpa não é do patriarcado!

O patriarcado é uma coisa ruim? Entenda nesta matéria por que as famílias precisam de homens e como eles podem se tornar pais segundo o coração puríssimo de São José.

Equipe Christo Nihil Praeponere – 25 de Março de 2019

Na oitava da solenidade de São José, a liturgia da Igreja põe-nos diante dos olhos o mistério da Encarnação do Verbo de Deus, com a solenidade da Anunciação. E tudo isso em plena Quaresma. É como se nossos pés se detivessem às portas de Jerusalém… e voltássemos a Nazaré, à infância do Salvador, ao Natal.

Nestas linhas, porém, queremos meditar antes sobre um dado da natureza humana. É que a figura de São José, ao lado de Maria e de Jesus — das quais temos abundantes exemplos na arte sacra — vem nos recordar, especialmente a essa nossa época louca e revolucionária, que as famílias precisam de pais, de figuras masculinas (homens!) que as conduzam e liderem; vem nos lembrar que o patriarcado (não obstante a distorção moderna sofrida pelo termo) é uma coisa boa e deve ser conservado.

Muitos argumentos poderiam ser empregados aqui para confirmar essa verdade, argumentos extraídos da simples observação da natureza humana, vindos da psicologia, da antropologia e de outras ciências. Mas, a princípio, às pessoas da Igreja, lembremos tão somente que Deus, querendo vir à terra, confiou-se à responsabilidade de um patriarca; e ainda Ele, moldando a criatura mais perfeita que jamais existiu — a Virgem Maria —, confiou-a igualmente a um homem. Os dois maiores dons com que a humanidade seria agraciada, portanto, sob a tutela de um varão, e a ele submissos. Eis a nobilíssima missão de São José. Eis a verdade que o mundo moderno, se não faz questão de negar, faz o possível ao menos para calar, ignorar ou deixar que morra no esquecimento.

De fato, a releitura que muitos em nossa época, sem fé, tentam fazer da Encarnação é que Jesus teria sido fruto de uma “produção independente”. Numa tentativa patética talvez de justificar a desestruturação por que passam hoje as famílias, a imagem que se vende muitas vezes de Maria Santíssima é a de uma “mãe solteira”, desamparada, que dá à luz um filho nos escombros de uma pobre gruta e sem assistência humana quase nenhuma — São José sempre à parte, sempre coadjuvante, sempre deixado de lado.

À parte os elementos de verdade contidos nessa narrativa — pois é fato que o Filho de Deus quis descer à terra e, na falta de hospedagem, abrigar-se na simplicidade de uma estrebaria —, está muito longe da verdade insinuar que tenha sido nulo ou desprezível o papel de São José no mistério da Encarnação. Vale lembrar que um anjo visitou-lhe em sonho, instruindo-o sobre o que deveria fazer em relação à mulher e ao Menino e, além disso, nas palavras de São Beda, o Venerável, sua escolha foi providencial ad famam Mariae conservandam, isto é, “para salvaguardar a reputação de Maria” [1]. Sim, porque embora os esponsais de Maria e José deixassem como que “velada” a concepção virginal de Cristo, explica Santo Ambrósio, “o Senhor preferiu que alguns duvidassem da sua origem antes que do pudor de sua Mãe” [2]. Em suma, como escreve o Padre Federico Suárez:

Para um cristão que acredita em Cristo, que crê que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, o fato de Deus ter escolhido José para esposo da Virgem Maria e pai legal de Jesus é motivo suficiente para pensar que, apesar de tudo, talvez não tenha sido um homem tão vulgar e comum, uma vez que o próprio Deus o escolheu — mais ainda, o criou — para desempenhar uma das missões mais difíceis e de maior responsabilidade jamais confiada a um homem [3].
O fato de ter sido um homem a zelar pela Sagrada Família, no entanto, de ter sido um homem a conduzi-la de Nazaré a Belém, e dali ao Egito, e dali de volta a Nazaré… não é mais tão óbvio quanto noutras épocas. Existe até mesmo a tentação, por parte de alguns, de relegar o papel masculino na família e na sociedade a uma mera “construção social”, tão passível de transformação quanto um hábito ou qualquer moda do momento.

Mas, não estivéssemos cegados por mentiras como a ideologia de gênero, nós seríamos capazes de ver inscrita na natureza uma ordem e uma harmonia irretocáveis: homem e mulher foram colocados desde o princípio para reinar no mundo criado, um com a cabeça e outra com o coração, um com a razão e outra com os sentimentos, um com a força física que desafia e outra com a força emocional que consola, complementaridade indispensável para a formação integral do ser humano.

É por isso que, antes de falar propriamente das virtudes de São José, importa falarmos primeiro de sua virilidade e de seu papel como pai e esposo; importa falarmos simplesmente de sua presença, já que nossa sociedade experimenta cada vez mais a ausência dos homens, justamente nos postos que mais exigiriam sua atuação…

“São José com o Menino Jesus”, de Murillo.
Sim, porque não adianta rebelar-se contra a ordem natural das coisas e pedir, seja dentro de um movimento social institucionalizado, seja através de gestos e palavras no dia-a-dia, a extinção do patriarcado ou a abolição da masculinidade. “A presença de estruturas mundanas de dominação bruta e egoística deveria não manchar, mas sim acentuar fortemente a honra e o esplendor de um patriarcado cristão caracterizado pelo serviço amoroso e pela liderança sacrificial” [4].

Dizendo de outro modo, não é porque há homens que bebem, batem em suas esposas e não educam os seus filhos que se deve pedir o fim da família e da união entre homem e mulher. O marxismo viu na chamada “família burguesa” uma estrutura essencial de dominação, mas só o fez porque olhou para a família a partir de seus vícios e de sua degradação, ao invés de olhar para o projeto original do Criador e para as famílias que o colocaram em prática.

Da parte dos homens, cabe, é claro, tomar o cuidado de não repetir os mesmos erros pelos quais caíram e fracassaram, principalmente em suas casas, tantos de nossos pais. Se sobram no mundo (e à nossa volta, bem próximos de nós) homens adúlteros, beberrões, covardes, violentos, ladrões e moles, sejamos nós o contrário de tudo isso e lutemos com afinco para ser puros (não só no corpo, mas principalmente de coração), sóbrios, corajosos, pacíficos, honestos e fortes. Essa é a melhor forma (se não a única) de lutar contra a ideologia feminista que propugna pela “liberação” e o “empoderamento” da mulher e pelo fim da autoridade paterna. De nada adianta, de fato, vencer-lhes os argumentos, se continuamos a reforçar, com nossos atos, exatamente as razões pelas quais elas odeiam o patriarcado — e que no fundo não constituem o patriarcado cristão, mas justamente a sua corrupção.

“Corrompeu-se o patriarcado, então?”, alguém poderá indagar. “E quando foi que ele existiu, por assim dizer, em sua forma pura?”

A resposta a essa pergunta infelizmente não é das mais animadoras, pois, mesmo nos tempos em que o cristianismo era o “fermento” da sociedade, o sexo masculino como um todo sempre teve grande dificuldade em observar a palavra de Cristo que diz: “Todo aquele que rejeita sua mulher e desposa uma outra, comete adultério” (Mt 19, 9). “É um triste fato”, nesse sentido, “que nos antigos centros da cristandade, e notavelmente em países de predominância católica, ter uma amante fosse, e ainda seja, um estilo de vida aceito” [5]. De fato, essa fidelidade de que fala o Evangelho sempre foi uma virtude de poucos homens, de modo que não é exagero algum afirmar que, historicamente falando, “nunca antes houve um patriarcado cristão culturalmente estabelecido” [6].

Nosso parâmetro, no entanto, não é esta ou aquela época da história; nós não nos devemos guiar pela “média” do que foram os homens de outros tempos e de outros lugares. (Do contrário, seríamos apenas “medianos”, ou pior: medíocres.) Nossa medida deve ser, sempre, os poucos corações que seguiram o Evangelho de Cristo, os poucos homens que foram patriarcas no verdadeiro sentido da palavra, pois é de Deus que provém toda paternidade no céu e na terra (cf. Ef 3, 15). Nosso modelo de patriarcado não é o coração impuro de Adão, mas o Sagrado Coração de Jesus, novo Adão; não é o coração decaído de nosso primeiro pai, mas sim o coração puríssimo do Patriarca da Sagrada Família, São José. Eis os homens que devemos imitar, eis o tipo de coração a que devemos elevar os nossos.

Nosso modelo de patriarcado não é o coração decaído de Adão, mas sim o coração puríssimo de São José.
Para começarmos essa ascensão, porém, para implantarmos em nossa época um patriarcado realmente cristão, comecemos do básico. É evidente que abandonar a “gandaia” não é tudo. Um homem que não trai a sua esposa, que não gasta as suas horas no boteco, que não espanca sua companheira e que tampouco dilapida o patrimônio da família não está fazendo, no fundo, mais do que a sua obrigação. Mas ninguém deve subestimar a importância de falar sobre essas coisas, pois são esses pecados grosseiros que aprisionam a maior parte da humanidade — e, custa-nos dizer, maior parte das pessoas que vão à igreja também.

Noutras palavras, para que os seres humanos vivam plenamente o amor, é preciso que eles passem pela experiência da “primeira liberdade”, como diz Santo Agostinho:

A primeira liberdade consiste em estar isento de crimes […] como são o homicídio, o adultério, a fornicação, o furto, a fraude, o sacrilégio e assim por diante. Quando alguém começa a não ter estes crimes (e nenhum cristão os deve ter), começa a levantar a cabeça para a liberdade, mas isto é apenas o início da liberdade, não a liberdade perfeita [7].
Se queremos resgatar a masculinidade, portanto, comecemos com o básico: deixando a vida de pecados mortais. Ninguém se iluda com uma “restauração do patriarcado” que prescinda de conversão, que prescinda de uma vida interior, que prescinda de uma mudança de mentalidade e de uma vida cristã seriamente vivida. Ninguém pode vencer a sua natureza decaída contando com as próprias forças. Ninguém pode viver o dom de uma paternidade autêntica se não for, primeiro, obediente ao nosso Pai dos céus.

Foi esse o grande segredo de São José. E é também esse o caminho para sermos patriarcas como ele foi.

Referências

Citado em Suma Teológica, III, q. 28, a. 1, ad 1.
Id., III, q. 29, a. 1, ad 2.
José, Esposo de Maria, Lisboa: Rei dos Livros/Prumo, 1986, p. 15.
G. C. Dilsaver, The Three Marks of Manhood: How to Be Priest, Prophet and King of Your Family, Charlotte: TAN Books, 2012, viii.
Ibid., p. 100.
Ibid., p. 101.
In Iohannis Evangelium Tractatus, 41, 9-10: CCL 36, 363, citado por S. João Paulo II em Veritatis Splendor, 6 ago. 1993, n. 13, nota 23.

Jim Caviezel fez o que pode ser considerado um dos maiores discursos católicos do século 21

J-P Mauro | Mar 20, 2019
O ator de “A Paixão de Cristo” pediu que as novas gerações “enviassem Lúcifer de volta ao inferno”

Jim Caviezel estava se preparando para o lançamento de seu mais recente filme sobre a fé: “Paulo, Apóstolo de Cristo”, no qual ele interpreta Lucas. Para promover o longa-metragem, o ator participou de uma conferência destinada a estudantes universitários católicos americanos (FOCUS).

Os estudantes talvez estivessem esperando um discurso sobre o novo filme, mas o que eles receberam foi uma chamada fenomenal à ação, que causou arrepios.

A multidão ficou emocionada ao ver o rosto gentil e barbado de Caviezel, de tal forma que parecia que nunca se acalmariam. Mas ele gentilmente levantou um dedo e a sala ficou imóvel o suficiente para ouvir um alfinete cair. Então Caviezel começou, falando baixinho e lendo seu discurso:

“O nome Saulo significa ‘O Grande’. O nome Paulo significa ‘O Pequeno’. Ao fazer este filme, aprendi a mudar uma pequena e minúscula letra para que possamos nos tornar grandes aos olhos de Deus. Mas isso exige que sejamos pequenos, se quisermos ser grandes. Este é o caminho dos santos. Este é o caminho do Santo, e é assim que Saulo se tornou São Paulo”.
Ele continuou falando de vocações e como as pessoas devem se abrir para discernir o chamado. Falou também como descobriu que queria ser ator, sobre a temporada estressante quando fez o filme “O Conde de Monte Cristo”, assim como os sacrifícios que teve de encarar durante a interpretação de Jesus em “A Paixão de Cristo”:

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“Quando eu estava lá em cima da Cruz, aprendi que em Seu sofrimento estava a nossa redenção. Lembre-se que o servo não é maior que o mestre. Cada um de nós deve carregar nossa própria cruz. Há um preço pela nossa fé, pelas nossas liberdades. Eu fui literalmente açoitado, chicoteado, crucificado, atingido por um raio, sim, cirurgia de coração aberto – é o que acontece depois de cinco meses e meio de hipotermia.”

O ator falou ainda sobre um momento durante as filmagens de “A Paixão de Cristo”, quando ele foi colocado debaixo da cruz e alguém o puxou para o lado errado, fazendo com que o ombro dele fosse deslocado. Ele disse que esta cena permanece no corte final do filme e comentou que, se a produção tivesse ocorrido em um estúdio, nunca poderíamos ter visto uma performance tão autêntica. “O sofrimento fez minha performance, assim como faz nossas vidas”, disse o ator, acrescentando veementemente:

“Houve muita dor e sofrimento antes da ressurreição e seu caminho não será diferente. Então abrace sua cruz e corra em direção ao seu objetivo. Eu quero que você entre neste mundo pagão e confesse descaradamente sua fé em público. O mundo precisa de guerreiros orgulhosos, animados por sua fé. Guerreiros como São Paulo e São Lucas, que arriscam seus nomes e reputações para levar sua fé, seu amor por Jesus ao mundo”.
Caviezel resumiu todo o seu discurso citando a fala pré-batalha de “Coraçao Valente”, no qual William Wallace se dirige ao seu exército. O ator ainda fez um chamado aos jovens:

“Todo homem morre. Nem todo homem realmente vive. Você, você e você. Todos nós devemos lutar por essa liberdade autêntica e viver, meus amigos. Por Deus, devemos viver! E com o Espírito Santo (como seu escudo) e Cristo (como sua espada), junte-se a São Miguel e a todos os anjos e envie Lúcifer e todos os seus capangas de volta para o inferno”.

A ignorância veste Prada

A felicidade como paradigma parece gerar uma epidemia de depressão

4.fev.2019 às 2h00. Folha de São Paulo.

Você reconhece que uma pessoa tem repertório se ela ultrapassou os ditos comuns de muitos que reduzem o cristianismo a suas sombras históricas (ou suas sombras psicológicas em colégios de padres ou freiras). Inteligentinhos de todos os matizes gostam de cuspir no cristianismo, pregando um ateísmo de bolso.

A importância da compreensão do cristianismo, assim como de muitas outras religiões, é entender que elas falam da condição humana ancestral e contemporânea, apesar de muitos acharem que, porque temos um iPhone novo a cada ano, nasce uma humanidade a cada ano.

Ricardo Cammarota
Se você ouvir alguém dizendo que a Bíblia é um livro opressor, patriarcal, ultrapassado, saiba que está diante de gente ignorante. Mesmo se essa gente estiver montada em títulos, viagens ao exterior, passaportes europeus, cursos em Paris com gente chique. A ignorância é mais difícil de ser reconhecida quando ela veste Prada.

Uma das pérolas do cristianismo é o conceito de pecado. Construído a partir de uma narrativa hebraica, o cristianismo deu a esta narrativa contornos operísticos de grande valor dramático existencial, e espiritual, é claro. 

Uma das formas de identificar a espiritualidade de bolso que anda por aí é identificar nela uma certa boçalidade associada à ideia de assertividade e eliminação da auto-responsabilidade pelos próprios atos. Se ouvir que alguém descobriu a espiritualidade quântica, provavelmente você está diante da ignorância vestindo Prada —nada contra a marca, claro. 

Uma das qualidades da tal mecânica quântica é que ninguém entende nada dela, e como alguém disse que nela tudo é nada e nada é tudo, o mundo fica fluído como os gêneros sexuais da moda.

Um autor muito responsável pelo aprofundamento do conceito de pecado foi Santo Agostinho, que viveu entre os anos de 354 e 430. Muitas foram as definições e descrições dadas ao pecado desde o período patrístico, como são chamados na história do cristianismo os séculos 2 a 7. Uma delas, dada por Agostinho, me parece excepcionalmente valorosa: o pecado de Adão e Eva, e o nosso por descendência, pode ser definido por um tripé: orgulho, revolta e cegueira.

Comecemos pelo orgulho. Por que nosso casal parental teria sido acometido pelo orgulho? Resposta: a dependência para com Deus os irritava e os fazia se sentir menores. 

Agora, pergunto eu: quem não depende de alguém? Haverá um homem ou uma mulher sequer que seja de fato autossuficiente? A busca de nossos ancestrais originais seria ser como Deus, donos do próprio destino. 

Apesar de viverem num suposto paraíso, não lhes bastava o bem-estar advindo desse paraíso; a raiva contra Aquele que os mantinha nessa “felicidade infinita” tomou conta de suas almas criadas e eles decidiram se tornar “almas incriadas”, ou seja, deuses. O ridículo da empreitada nos assola até hoje.

Neste caso já vemos uma crítica interessante à boçalidade que se espalha hoje, da publicidade aos worshops de coaching para felicidade ou prosperidade. E mesmo ideias mais sofisticadas como o utilitarismo, que sustenta sua ética num cálculo de bem-estar, pode ser alvo dessa crítica. 

A felicidade como paradigma parece gerar “dialeticamente” uma epidemia de depressão. A natureza humana é tal que nem sendo feliz, ela é feliz. Essa volatilidade do afeto, muitas vezes, nos cansa. Eis uma das causas de corrermos para a medicação: nos curar de nós mesmos. 

A felicidade infinita do paraíso nos entediou. A estratégia usada pelo casal foi a seguinte: o problema não era a felicidade, mas sim ela ser dependente de Deus. Optar pela felicidade orgulhosa de seres supostamente autossuficientes os levou ao fracasso da empreitada e à revolta.

A revolta os tornou rancorosos, ressentidos e propagadores da “teoria” segundo a qual sua decisão de separar-se de Deus foi, de alguma forma, culpa Dele. Quem sabe, Adão e Eva se sentiam “sem espaço” para viver o que lhes era de direito: ser feliz sem depender de nenhuma fonte externa para essa felicidade.

A revolta e seus “filhos”, o rancor, o ressentimento e a mentira sobre a própria condição, acabaram por levá-los cegueira. 

Quanto mais orgulhosos e revoltados, mais cegos, e quanto mais cegos, mais orgulhos (como mentira acerca da própria cegueira) e mais revoltados. 

Enfim, o pecado seria uma forma de cegueira. Neste sentido, a humanidade seria uma espécie cega que caminha sobre a Terra. Como morcegos sem asa. E o pecado seria uma forma de compulsão hereditária à cegueira.

Luiz Felipe Pondé
Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.