A ignorância veste Prada

A felicidade como paradigma parece gerar uma epidemia de depressão

4.fev.2019 às 2h00. Folha de São Paulo.

Você reconhece que uma pessoa tem repertório se ela ultrapassou os ditos comuns de muitos que reduzem o cristianismo a suas sombras históricas (ou suas sombras psicológicas em colégios de padres ou freiras). Inteligentinhos de todos os matizes gostam de cuspir no cristianismo, pregando um ateísmo de bolso.

A importância da compreensão do cristianismo, assim como de muitas outras religiões, é entender que elas falam da condição humana ancestral e contemporânea, apesar de muitos acharem que, porque temos um iPhone novo a cada ano, nasce uma humanidade a cada ano.

Ricardo Cammarota
Se você ouvir alguém dizendo que a Bíblia é um livro opressor, patriarcal, ultrapassado, saiba que está diante de gente ignorante. Mesmo se essa gente estiver montada em títulos, viagens ao exterior, passaportes europeus, cursos em Paris com gente chique. A ignorância é mais difícil de ser reconhecida quando ela veste Prada.

Uma das pérolas do cristianismo é o conceito de pecado. Construído a partir de uma narrativa hebraica, o cristianismo deu a esta narrativa contornos operísticos de grande valor dramático existencial, e espiritual, é claro. 

Uma das formas de identificar a espiritualidade de bolso que anda por aí é identificar nela uma certa boçalidade associada à ideia de assertividade e eliminação da auto-responsabilidade pelos próprios atos. Se ouvir que alguém descobriu a espiritualidade quântica, provavelmente você está diante da ignorância vestindo Prada —nada contra a marca, claro. 

Uma das qualidades da tal mecânica quântica é que ninguém entende nada dela, e como alguém disse que nela tudo é nada e nada é tudo, o mundo fica fluído como os gêneros sexuais da moda.

Um autor muito responsável pelo aprofundamento do conceito de pecado foi Santo Agostinho, que viveu entre os anos de 354 e 430. Muitas foram as definições e descrições dadas ao pecado desde o período patrístico, como são chamados na história do cristianismo os séculos 2 a 7. Uma delas, dada por Agostinho, me parece excepcionalmente valorosa: o pecado de Adão e Eva, e o nosso por descendência, pode ser definido por um tripé: orgulho, revolta e cegueira.

Comecemos pelo orgulho. Por que nosso casal parental teria sido acometido pelo orgulho? Resposta: a dependência para com Deus os irritava e os fazia se sentir menores. 

Agora, pergunto eu: quem não depende de alguém? Haverá um homem ou uma mulher sequer que seja de fato autossuficiente? A busca de nossos ancestrais originais seria ser como Deus, donos do próprio destino. 

Apesar de viverem num suposto paraíso, não lhes bastava o bem-estar advindo desse paraíso; a raiva contra Aquele que os mantinha nessa “felicidade infinita” tomou conta de suas almas criadas e eles decidiram se tornar “almas incriadas”, ou seja, deuses. O ridículo da empreitada nos assola até hoje.

Neste caso já vemos uma crítica interessante à boçalidade que se espalha hoje, da publicidade aos worshops de coaching para felicidade ou prosperidade. E mesmo ideias mais sofisticadas como o utilitarismo, que sustenta sua ética num cálculo de bem-estar, pode ser alvo dessa crítica. 

A felicidade como paradigma parece gerar “dialeticamente” uma epidemia de depressão. A natureza humana é tal que nem sendo feliz, ela é feliz. Essa volatilidade do afeto, muitas vezes, nos cansa. Eis uma das causas de corrermos para a medicação: nos curar de nós mesmos. 

A felicidade infinita do paraíso nos entediou. A estratégia usada pelo casal foi a seguinte: o problema não era a felicidade, mas sim ela ser dependente de Deus. Optar pela felicidade orgulhosa de seres supostamente autossuficientes os levou ao fracasso da empreitada e à revolta.

A revolta os tornou rancorosos, ressentidos e propagadores da “teoria” segundo a qual sua decisão de separar-se de Deus foi, de alguma forma, culpa Dele. Quem sabe, Adão e Eva se sentiam “sem espaço” para viver o que lhes era de direito: ser feliz sem depender de nenhuma fonte externa para essa felicidade.

A revolta e seus “filhos”, o rancor, o ressentimento e a mentira sobre a própria condição, acabaram por levá-los cegueira. 

Quanto mais orgulhosos e revoltados, mais cegos, e quanto mais cegos, mais orgulhos (como mentira acerca da própria cegueira) e mais revoltados. 

Enfim, o pecado seria uma forma de cegueira. Neste sentido, a humanidade seria uma espécie cega que caminha sobre a Terra. Como morcegos sem asa. E o pecado seria uma forma de compulsão hereditária à cegueira.

Luiz Felipe Pondé
Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.

A estratégia do diabo para atrapalhar nosso caminho de santidade

SATAN
Edward Hopper | Public Domain

Philip Kosloski | Fev 04, 2019

Ele é mesmo um sorrateiro!

O diabo odeia nos ver progredir no caminho da virtude. Quando crescemos em santidade, o diabo dobra seus esforços e tenta nos voltar para o vício.

O padre italiano Lorenzo Scupoli escreve sobre a estratégia do diabo em seu clássico “O Combate Espiritual”, publicado em 1589. Ele explica como o demônio atua:

“Primeiro de tudo, o demônio tentará nos tentar com boas obras que estão além de nossa capacidade. Isso pode criar dentro de nós um sentimento de desapontamento, tentando-nos a retornar à nossa vida de pecado e desistir de nossa luta.”

Scupoli dá um exemplo: 

“Uma pessoa doente está, talvez, levando sua doença com paciência. O astuto adversário (…) imediatamente coloca diante dele [do doente] todas as boas obras que, em uma condição diferente, ele poderia ser capaz de realizar, e tenta persuadi-lo de que, se ele estivesse bem, ele seria capaz de servir melhor a Deus e ser mais útil para si e para os outros.

Tendo uma vez despertado tais desejos, ele continua aumentando-os gradualmente, até que ele deixa o doente inquieto com a impossibilidade de levá-los a efeito; e quanto mais profundos e fortes esses desejos se tornam, mais essa inquietação aumenta.”

O segredo para resistir à astúcia de satanás é confiar em Deus, focando em nossa situação atual e estando satisfeitos com o que podemos fazer no momento presente. Em vez de ficar insatisfeito com o que “poderia ser”, é melhor permanecer enraizado no aqui e agora. Deus cuidará do resto.

Em segundo lugar, o diabo pode usar nossas virtudes como motivo de orgulho. Ele pode nos tentar a pensar que somos a única causa de nossa virtude, ou que somos melhores que os outros. Isso pode facilmente nos levar pelo caminho errado.

“Para preservar-se deste perigo, escolha para o seu campo de batalha o terreno seguro e nivelado de uma convicção verdadeira e profunda do seu próprio nada, de que você não é nada, de que nada sabe, de que nada pode fazer [sem Deus].”

Devemos sempre lembrar que, mesmo quando progredimos na vida espiritual, nada tem a ver conosco, mas tudo a ver com Deus.

Acima de tudo, esteja vigilante! Se você quer progredir em virtude, esteja ciente de que o diabo tentará te afastar de Deus.


Catacumbas atestam: Jesus está realmente presente na Eucaristia

Quem quer que faça uma incursão pelas catacumbas dos primeiros cristãos, vai se deparar com uma verdade sublime: desde o começo, os seguidores de Cristo reconheciam a sua presença na celebração da Santa Missa.

Equipe Christo Nihil Praeponere | 25 de Janeiro de 2016

Graças à pregação dos Apóstolos, os cristãos começaram a multiplicar-se em todas as cidades, a ponto de o historiador Tácito dizer, no ano 66, que já era grande o seu número na capital do Império [1].

Por isso, não era nada surpreendente que Satanás, antevendo o fim de seu principado, procurasse, através dos mais diversos artifícios, apagar a religião cristã da face da Terra. Os pagãos, para quem a pregação da Cruz era loucura, tanto serviam de instrumentos ao demônio quanto mais a retidão dos cristãos condenava a perversidade do seu modo de vida. “Sereis odiados por todos, por causa do Meu nome” (Mt 10, 22): desde muito cedo a profecia de Cristo começava a cumprir-se.

O misto de simplicidade e mistério que rondava o discreto grupo dos cristãos inquietava cada vez mais os seus inimigos, que não tinham nenhum fato ou testemunho com os quais acusá-los. Por conta disso, todo tipo imaginável de maldade começou a ser atribuída a eles. Pela boca dos judeus, chegava aos seus ouvidos a misteriosa tradição de que, durante as suas festas, os cristãos faziam um sacrifício e, depois, bebiam a carne e o sangue de suas vítimas. Como os cristãos guardavam “a sete chaves” a doutrina da Sagrada Eucaristia e celebravam a Santa Missa sempre em segredo, começaram a circular acusações as mais absurdas, como a de que os cristãos sacrificavam e canibalizavam crianças inocentes.

Eram de tal modo discretas as circunstâncias em que se davam a celebração desse sacramento, que ninguém que não fosse batizado estava autorizado a aprender sobre ela, e os próprios catecúmenos deixavam as igrejas quando a parte mais solene da liturgia começava. Falar dessas coisas aos de fora era um crime tão grave que apenas hereges e apóstatas ousavam fazê-lo.

Não obstante todo o cuidado com que os primeiros cristãos preservavam os seus ensinamentos, eles ainda deixaram atrás de si as mais claras provas de sua fé na presença real do Senhor na Eucaristia, bem como da adoração que eles davam ao Corpo e Sangue do Senhor.

Negar a presença real de Jesus na Eucaristia é negar o próprio Evangelho.

Se, durante as suas assembleias, eles oferecessem e consumissem simplesmente pão e vinho comuns, não haveria nenhum problema de fazê-lo diante de todo o mundo, sem perigo ou medo de perseguição.

O mistério se estendia não só a palavras e escritos, mas até aos lugares onde os nossos primeiros pais na fé se reuniam para o culto divino, em tempos de perigo e perseguição. Nesses lugares, estão conservados memoriais extraordinários, que dão testemunho de sua fé em Tão Sublime Sacramento.

Dentro das catacumbas de Roma

Fora dos muros da cidade de Roma, existe uma cidade subterrânea onde foram sepultados os cristãos dos primeiros séculos da Era Cristã. Antigamente, esses lugares eram chamados simplesmente de “cemitérios” ou “dormitórios”, mas, nos tempos modernos, eles são designados pelo nome de “catacumbas”. Sob esse título, são entendidos todos os lugares sagrados onde, em tempos de perseguição, os primeiros cristãos enterravam os seus mortos. 

As catacumbas consistem em longos labirintos, divididos por passagens, que variam em altura e largura de acordo com a natureza do solo em que foram escavadas. Nelas, existem câmaras, de todos os tipos e tamanhos, ornadas com afrescos. As passagens se encontram próximas umas às outras, em distâncias que variam de três a dez quilômetros dos muros da antiga Roma, ao longo das rodovias. Calcula-se que, unidos, o comprimento desses corredores subterrâneos exceda 560 quilômetros de extensão. Contam-se cerca de 43 catacumbas, 26 maiores e 17 de menor tamanho, de acordo com a extensão dos leitos de tufo calcário, uma rocha vulcânica macia na qual elas foram escavadas pelos cristãos. Tendo em mente que o corpo do Senhor foi deixado em um sepulcro novo escavado na rocha, eles estavam ansiosos por proverem para os seus entes queridos uma tumba parecida, a fim de que também na morte eles seguissem a imitação de Cristo.

Esse modelo de sepultamento era praticado pelos judeus em Roma no primeiro século e algumas famílias romanas antigas ainda mantinham a prática de seus ancestrais etruscos, recusando-se a soterrar os seus mortos. Mas uma característica completamente nova é encontrada nos cemitérios cristãos: a caridade cristã impulsionava muitos da nobreza patrícia que tinham abraçado a fé a enterrar em seus cemitérios privados também os seus irmãos mais humildes, de modo que, já no terceiro século da Era Cristã, cada uma das igrejas paroquiais de Roma tinha o seu próprio cemitério do lado de fora dos muros. Até meados do mesmo século, os cemitérios cristãos continuarão sob a proteção da lei romana, que resguardava todos os túmulos como sagrados e invioláveis.

A história deixou-nos os nomes de muitas nobres mulheres, como Domitila, Lucina, Priscila e Ciríaca, que fizeram as suas propriedades de cemitérios e receberam em suas próprias casas as urnas com os corpos dos Santos Mártires. São Sebastião, São Lourenço, São Nereu e Santo Aquiles são exemplos dos nomes de algumas das catacumbas em que seus respectivos corpos foram sepultados.

O trabalho de escavar esses corredores dos mortos – com os túmulos e as capelas mortuárias que eles continham – foi confiado à confraria dos fossores (escavadores, em latim). Esses homens devotos, que pertenciam em sua maior parte às classes operárias, podiam ser comparados ao venerável Tobias, que escondia os mortos de dia para dar-lhes uma sepultura à noite (cf. Tb 1, 18; 2, 7). O ofício deles, além de extremamente árduo, era cheio de perigos. Com que coragem eles não penetravam nos canais da terra e, com a luz opaca de suas lamparinas, talhavam aqueles corredores na tufa sólida! Nas paredes das passagens, os túmulos eram escavados um em cima do outro, em número de seis ou mais, de acordo com a altura da passagem. Quando um corredor ficava cheio de defuntos, ele era aprofundado e dava espaço para mais corpos. Se isso não pudesse ser feito com segurança, um novo conjunto de passagens era escavado embaixo do primeiro e, dessa forma, os corredores iam sendo formados um sobre o outro, com vários cruzamentos em diferentes direções.

Nos túmulos, eram enterrados um e às vezes dois corpos. Os cristãos não poupavam esforços para tirar as relíquias dos mártires das mãos de seus executores. Muitos chegavam a tomá-los dos magistrados e levá-los para longe da vista dos guardas, às catacumbas, onde eles finalmente banhavam, embalsamavam e davam a eles uma sepultura. O túmulo era cuidadosamente fechado com ladrilhos ou uma laje de mármore e revestido com uma inscrição rudimentar do ano, da idade e do dia do enterro, acompanhada de algumas breves palavras de consolo, como: In paceVivas in DeoVivas in aeternum. A família e a posição social dos falecidos são raramente mencionadas. O importante mesmo era ser concidadão dos santos e pertencer à família de Deus (cf. Ef 2, 19).

Além desses túmulos nas paredes dos corredores, os fossores escavaram valas separadas para algumas famílias cristãs particulares. Para esse propósito, eram abertas câmaras espaçosas e abobadadas, com tetos ricamente adornados, como se pode ver nas Catacumbas de São Calisto.

Em muitos desses cubículos ficava reservado um lugar especial, sobre o terreno plano, para um caixão de pedra ou uma tampa de mármore. Aí, um, dois ou até mais corpos dos Santos Mártires eram colocados e a parte de cima do caixão era usada como altar. Esse tipo de memorial dos mortos era chamado de arcosolium e as câmaras em que eles se encontravam eram às vezes usadas como capelas. Alguns compartimentos tinham uma abertura para a superfície de cima, permitindo a passagem de luz e de ar, e eram chamados de cubicula clara.

A fé dos primeiros cristãos no sacramento da Eucaristia

Afresco na cripta de Santa Lucina. Especialistas avaliam que a arte seja do século II.

Como já se disse, as terríveis calúnias contra os cristãos – aliadas às blasfêmias com que os gnósticos parodiavam os ritos sagrados –, fizeram os fiéis guardar com a mais estrita discrição tudo o que dizia respeito ao Augustíssimo Sacramento do Altar. Durante os anos de perseguição, a própria Divina Liturgia parecia ser transmitida mais por memória do que por escrito. Com exceção das explanações de Tertuliano e de São Justino Mártir, em suas Apologias, não era permitido ao mundo profano nenhum acesso aos “Sagrados Mistérios”. Teria sido, na verdade, totalmente espúrio ao espírito do cristianismo primitivo que eles representassem em pinturas ou esculturas uma ação tão sagrada quanto a do Santo Sacrifício da Missa.

Por isso, não é difícil que os protestantes façam a sua própria ideia da ausência dessas imagens nos afrescos das catacumbas, argumentando que, por não se verem representações de padres paramentados, altares com luzes e incenso, essas cerimônias eram desconhecidas dos cristãos primitivos. Uma explicação desse tipo, no entanto, só satisfaz quem quer ficar satisfeito com ela. Qualquer pesquisador sério procurará descobrir o significado das figuras encontradas nas paredes das capelas subterrâneas, interpretando-as à luz, não da imaginação agitada dos polemistas, mas das expressões comumente usadas pelos escritores cristãos do mesmo período.

Em uma das câmaras da cripta de Santa Lucina, próxima à tumba de São Cornélio, por exemplo, é possível ver um peixe, pintado mais de duas vezes, que traz em seu dorso uma cesta cheia de pães, através da qual é possível ver, em uma passagem aberta na cesta, um cálice pintado de vermelho, como se contivesse um líquido dessa cor. Os especialistas avaliam que a câmara e os seus afrescos sejam do século II. 

A pergunta é: o que o artista queria dizer com essa estranha combinação? Os mais imaginativos podem sugerir inúmeras interpretações, mas o mais apropriado é procurar a explicação entre os autores cristãos dessa época.

Santo Abércio de Hierápolis, que foi bispo na Frígia até o fim do século II, descreve em seu epitáfio as suas viagens pela Síria e a Roma, e conclui:

“Por toda parte a fé me levou adiante, e me proveu como alimento um Peixe, grande e perfeito, que uma virgem santa pescou com suas mãos de uma fonte e sempre dá aos seus amigos para comer, acompanhado de um vinhomisturado com água, e servindo-o juntamente com pão. (…) Aquele que for capaz de entender essas coisas, reze por Abércio.”

Aqui constam, evidentemente, os mesmos símbolos – o peixe, o pão e o vinho. Está bem claro o significado do peixe, mas qualquer ambiguidade é removida por Tertuliano, que, por volta do ano 200, escreveu que “nós, pequenos peixes, segundo nosso Peixe (ΙΧΘΥΝ) Jesus Cristo, de nenhum outro modo somos salvos senão permanecendo na água, da qual nascemos” [2].

Jesus Cristo é, portanto, o grande peixe, sempre servido em “vinho misturado com água” e “juntamente com pão”. Esses símbolos aparentemente estranhos são, na verdade, a expressão pictórica dos primeiros cristãos para expressar a sua fé na presença real de Jesus na Eucaristia. Também para eles, assim como para nós, sempre foi certo que – como ensina o Concílio de Trento –, “no sublime sacramento da santa Eucaristia, depois da consagração do pão e do vinho, nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, está contido verdadeira, real e substancialmente sob a aparência das coisas sensíveis” [3].

São Justino Mártir expressa a mesma verdade quando escreve que:

“Depois da ação de graças do presidente e da resposta do povo, os diáconos, como se chamam entre nós, distribuem o pão e o vinho entre os que pronunciaram a ação de graças e não os tomamos como alimento e bebida comuns; do mesmo modo como nos foi ensinado que, pela palavra de Deus, Jesus Cristo Nosso Senhor se encarnou, assim também estes alimentos, para os que tenham pronunciado as palavras de petição e ação de graças, são a verdadeira carne e sangue daquele Jesus que se fez homem e que entra na nossa carne quando o recebemos.” [4]

Não se sabe ao certo quando e como o peixe se tornou o símbolo universalmente reconhecido por Cristo, mas é digno de nota que, na passagem há pouco citada de Tertuliano, o escritor latino usa a palavra grega para peixe (ΙΧΘΥΣ), sublinhando que essa expressão é composta das letras iniciais para as palavras JesusCristoDeusFilhoSalvador. O peixe, portanto, sugeria aos cristãos um compêndio da sua fé, enquanto permanecia completamente ininteligível para os de fora. Os oficiais pagãos, que inspecionavam as catacumbas que estavam sob a lei romana, não viam nada de ofensivo em um símbolo tão inócuo. Mas a sua multiplicação das mais variadas formas mostra quão precioso ele era para os cristãos.

Alguém poderia nos acusar de estarmos tentando conectar o símbolo do peixe com a doutrina da transubstanciação. Defendemo-nos dizendo que… é isso mesmo. Embora a terminologia que hoje usamos para falar da Eucaristia só tenha surgido séculos mais tarde, está provado, por abundantes testemunhos, que, quando o peixe e o pão eram representados juntos nos antigos monumentos cristãos, estava sempre implícita uma referência à Sagrada Eucaristia, da qual o pão denota a realidade aparente e visível, enquanto o peixe mostra a realidade invisível e escondida, que é “a carne de nosso Salvador Jesus Cristo, carne que padeceu por nossos pecados e que o Pai, em Sua bondade, ressuscitou” [5].

“Por isso – cabe perguntar, com São Cirilo de Jerusalém –, quando Ele mesmo pronunciou as palavras, dizendo do pão: ‘Isto é o meu corpo’, quem ousará ainda duvidar? Quando Ele mesmo asseverou e disse: ‘Este é o meu sangue’, quem poderá ainda pôr em dúvida que esse é o Seu sangue?” Ainda que o gosto sensível do que comungamos seja de pão, a hóstia consagrada não é pão, mas o Corpo de Cristo; ainda que se perceba o gosto de vinho, o que se bebe do cálice sagrado não é vinho, mas o sangue de Cristo. Mesmo hoje essas palavras podem parecer muito duras aos ouvidos dos mais céticos (cf. Jo 6, 60). Isso, todavia, não pode minimizar a grandeza do “mistério da fé”: “Minha carne é verdadeira comida e meu sangue é verdadeira bebida” (Jo 6, 55). Negar a presença real de Jesus na Eucaristia é negar o próprio Evangelho.

Com informações da obra “Legends of the Blessed Sacrament“.

Referências

  1. Tácito, Anais, XV, 44.
  2. Tertuliano, De Baptismo, I (PL 1, 1198-1199).
  3. Concílio de Trento, Decreto sobre o sacramento da Eucaristia (XIII) (11 de outubro de 1551), 1: DH 1636.
  4. São Justino Mártir, Apologias, I, 65-66 (PG 6, 427-430).
  5. Santo Inácio de Antioquia, Epístola aos Esmirnenses, 7 (PG 5, 713-714).
  6. São Cirilo de Jerusalém, Catequeses Mistagógicas, IV (PG 33, 1097-1106).

A “fake news” que humilhou jovens católicos nos Estados Unidos

Numa época de “luta de classes”, parece ser uma lei editorial promover o descrédito e a ridicularização de quem quer que se atreva a crer num Deus acima dos céus e a defender uma vida dentro do útero.

Equipe Christo Nihil Praeponere | 31 de Janeiro de 2019

Parecia um fato absurdo: um grupo de rapazes brancos, católicos e pró-vida zombando de um índio idoso, durante um protesto na capital americana. Ao menos era essa a impressão que causava um vídeo que se tornou viral na manhã de 19 de janeiro, provocando reações instantâneas em toda a mídia. Às pressas, o The New York Times mandou publicar como manchete: “Boys in ‘Make America Great Again’ Hats surrounding Native Elder at Indigenous Peoples March”, algo assim em português: “Garotos com bonés do ‘Faça a América grande outra vez’ cercam índio idoso, na Marcha dos Povos Indígenas”. Outros tantos jornais repercutiram a mesma história logo em seguida, acompanhados pelo coro de sabe-se lá quantos políticos, artistas e ativistas dos direitos humanos.

A polêmica repercutiu até na Igreja e em sítios católicos na internet. A escola onde os adolescentes estudam, Covington Catholic High School, precisou fechar as portas naquela semana, dada a quantidade de ameaças e protestos contra a instituição. Para apaziguar os ânimos, sugeriu-se a expulsão dos meninos. Dom Roger Foys, bispo da diocese de Covington, em Kentucky, também condenou a agressão e aproveitou para se desculpar pelo incidente. Na página da Marcha pela vida, evento do qual os rapazes haviam participado poucas horas antes de o problema acontecer, os organizadores emitiram um comunicado repudiando a zombaria contra os indígenas. Enfim, padres, blogueiros católicos e demais lideranças embarcaram na narrativa midiática, que expressava indignação contra os rapazes, aqueles “fascistas”, e exigia as devidas providências.

O respeito ao ser humano é um dever de justiça. Por isso, não há dúvida de que o comportamento dos estudantes mereceria toda censura, não fosse um importante detalhe: eles não haviam feito nada. Depois das primeiras manchetes da imprensa, outros vídeos surgiram na internet, mostrando a história completa de tudo o que, de fato, havia ocorrido em frente ao Monumento a Lincoln, em Washington. Não houve zombaria contra nativos, não houve tentativa de intimidação nem bloqueio de passagem. Foi Nathan Phillips, o senhor que aparece no vídeo tocando um tambor na cara de outro rapaz, Nick Sandmann, quem livremente se aproximou dos estudantes para, supostamente, “ouvir seus ataques”. Ao contrário, os meninos do Covington Catholic High School é que haviam sofrido ataques por parte de outro grupo de manifestantes, os Israelitas Negros Hebreus, que os chamavam de “racistas”, “viados” e “ratos brancos”. Os meninos brancos, católicos e pró-vida apenas cantavam para encobrir os insultos quando Nathan Phillips se aproximou.

Os estudantes mereceriam toda censura, não fosse um importante detalhe: eles não haviam feito nada.

Em tempo, o jornalista Gleen Beck fez o excelente trabalho de reunir todos os vídeos e organizá-los segundo a sequência lógica dos fatos. Na tarde de 18 de janeiro, três manifestações ocorriam na cidade de Washington: a Marcha pela Vida, a Marcha dos Povos Indígenas e um protesto dos Israelitas Negros Hebreus, estes conhecidos por suas posições radicais e extremistas. Quando os jovens chegaram ao Monumento a Lincoln para tomarem o ônibus de volta a Covington, já acontecia uma confusão entre os dois outros grupos, como mostram as imagens dos vídeos. Foram os Israelitas Negros Hebreus que iniciaram a provocação. Sem entender o que se passava no local, e diante dos insultos que começaram a receber, os meninos apenas entoaram cantos da escola e algumas danças. Foi nesse momento que o ativista Nathan Phillips se aproximou deles para tocar-lhes o tambor. Eles não insultaram ninguém, não agrediram ninguém, não oprimiram ninguém. No local errado e na hora errada, esses garotos foram vítimas de um vídeo maldosamente editado, que se revelou mais tarde uma grande farsa.

Mas a mídia já havia feito seu serviço de causar a primeira impressão. Apesar das desculpas e lamentações pelo equívoco por parte dos jornais, os meninos brancos, católicos e pró-vida terão sempre na testa a marca de um crime que não cometeram. Nick Sandmann foi ameaçado de morte. Numa época de “luta de classes” — hostil ao cristianismo e à vida —, promover o descrédito e a ridicularização de quem quer que se atreva a crer num Deus acima dos céus e a defender uma vida dentro do útero parece ser uma lei editorial. Nick Sandmann e seus colegas empunhavam bandeiras contrárias aos valores mainstream: marchavam contra o aborto e defendiam uma “América grande de novo”, slogan não só do presidente Trump, mas que já foi usado por outros políticos como Ronald Reagan e, imaginem só, Bill Clinton. Isso tudo bastava para que jornalistas burlassem o protocolo de checar as fontes antes de publicá-las. The New York Times é aquele mesmo jornal que, anos atrás, publicou um anúncio incentivando os católicos a abandonar a Igreja. A causa acima da ética.

O que assusta, no entanto, é como católicos se deixaram ludibriar por um vídeo de apenas alguns minutos, unindo-se à narrativa da mídia contra os estudantes do Covington Catholic High School. De quem justamente se esperava prudência, a mãe de todas as virtudes, veio primeiro justiça. Diante de toda pressão, era preciso condenar rapidamente aquele episódio, a fim de que a Igreja passasse uma imagem positiva para o mundo, que espumava de ódio e indignação. De fato, a imprensa conseguiu machucar tanto a imagem dos católicos — sobretudo pelos desgraçados escândalos de pedofilia — que, agora, qualquer mínima suspeita levantada pelos jornais contra algum membro da Igreja é o bastante para que nós, católicos, disparemos anátemas e penitências. Para a nova mentalidade, todo católico deve ser considerado um racista-homofóbico-misógino-pedófilo em potencial, até que se prove o contrário.

O sr. Nathan Phillips, frente a frente com o jovem católico Nick Sandmann.

O incidente com os alunos do Covington Catholic High School é apenas mais um episódio de uma narrativa que se deseja construir contra o cristianismo: a de que se trata de uma religião perversa e inimiga da sociedade. No passado, os católicos podiam se ufanar da própria fé, com as mesmas palavras de Santo Agostinho aos fautores do Estado:

Os que dizem que a doutrina de Cristo é contrária ao bem do Estado dêem-nos um exército de soldados tais como os faz a doutrina de Cristo, dêem-nos tais governadores de províncias, tais maridos, tais esposas, tais pais, tais filhos, tais mestres, tais servos, tais reis, tais juízes, tais contribuintes, enfim, e agentes do fisco tais como os quer a doutrina cristã! E então ousem ainda dizer que ela é contrária ao Estado! Muito antes, porém, não hesitem em confessar que ela é uma grande salvaguarda para o Estado quando é seguida (Epist. 138 [al. 5] ad Marcellinum, cap. II, n. 15).

Hoje esse discurso não só parece soberbo como completamente fora da realidade. A ênfase com que os meios de comunicação expuseram os maus exemplos de tantos soldados, políticos e familiares católicos criou na mentalidade comum dos fiéis um verdadeiro “complexo de inferioridade”, como afirma a colunista Charlotte Allen, de modo que quase nos envergonhamos de servir ao Senhor. Ser católico não parece mais uma graça, mas um defeito.

Malgrado as desculpas da mídia, os meninos brancos, católicos e pró-vida terão sempre na testa a marca de um crime que não cometeram.

Para todos os efeitos, tanto o bispo da diocese de Covington como os organizadores da Marcha pela Vida e outros líderes católicos pediram desculpas aos jovens. “Nós não deveríamos ter nos deixado intimidar a fazer uma declaração tão prematura”, lamentou Dom Roger Foys. A “fake news” que humilhou esses jovens católicos nos Estados Unidos expõe, no fim das contas, o estado da guerra cultural contra o cristianismo e a crise pela qual passam as instituições católicas. De um lado, uma elite anticristã cada vez mais descarada, oportunista e mentirosa, disposta a tudo para sepultar os valores cristãos da sociedade, até assassinar a reputação de jovens estudantes; do outro, uma Igreja confusa com o barulho do mundo, pressionada pela bagunça entre a moral politicamente correta e a moral cristã.

Planned Parenthood admite que sua prioridade é o aborto

“Com nova presidente, a Planned Parenthood finalmente admite que seu foco é o aborto

A organização finalmente está fazendo uma confissão que deveria fazer com que políticos de todos os Estados Unidos repensassem os 500 milhões de dólares que ela recebe do bolso dos contribuintes Quanto mais pessoas souberem em que tipo de negócio a Planned Parenthood está metida, melhor PixabayA nova presidente da Planned Parenthood tem um ponto forte a seu favor: ela não tem vergonha de dizer a verdade. Leana Wen, a sucessora de Cecile Richards, está finalmente admitindo o que todos nós já sabemos há muito tempo: a Planned Parenthood pode falar sobre uma grande variedade de assuntos, mas só se importa realmente com um deles: aborto.
Leia mais: O que é a Planned Parenthood?
Depois de 12 anos tentando fazer o seu negócio de abortos passar despercebido, a Planned Parenthood estabelece uma nova estratégia sob a direção de Wen: dizer as coisas como elas são. 
Nossas Convicções: Defesa da vida desde a concepção
Depois que uma reportagem do Buzzfeed insinuou que a médica chino-americana quer que o grupo “foque na assistência médica não-abortiva”, Wen surpreendeu a todos dizendo exatamente qual é a prioridade real da Planned Parenthood. “Nossa missão central é oferecer, proteger e expandir o acesso ao aborto e à saúde reprodutiva. Nós nunca recuaremos nessa batalha”, tuitou ela. “É um direito humano fundamental e a vida das mulheres está em jogo”. 
Leia mais: A Planned Parenthood enfrenta grandes problemas com a lei
Seu tuíte, que foi complementado com defesas do aborto ainda mais militantes, explodiu mais de uma década de subterfúgios e figuras de linguagem com apenas alguns bits. A Planned Parenthood, que limpou meticulosamente qualquer referência ao aborto em seus pronunciamentos públicos no tempo de Richards, está finalmente fazendo uma confissão que deveria fazer com que políticos de todos os Estados Unidos repensassem os 500 milhões de dólares que ela recebe do bolso dos contribuintes. 
A verdade não fazia muito bem aos negócios, observa Philip Wegmann, do Washington Examiner, sobre a Planned Parenthood. Para sufocar as críticas de que o governo estava financiando a maior rede abortiva do país, Richards costumava repetir que os abortos correspondiam a apenas 3% dos seus serviços – como se não houvesse nada de errado em matar se você só faz isso de vez em quando, diz Wegmann. Até veículos como o Slate e o Washington Post recusavam essa estatística como sem sentido e enganosa. 
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Durante anos, a Planned Parenthood defendeu enfaticamente a estatística dos 3%, e a cumplicidade da imprensa a replicou de forma acrítica. Sua ex-presidente Cecile Richards a repetiu durante um depoimento no Congresso. Jornalistas da CNN, do Politico e do New York Times a publicaram sem questioná-la. O número foi repetido tantas vezes que se tornou uma mentira blindada.
Explicar a verdade seria um desastre para a Planned Parenthood. O Congresso talvez não assinasse tantos cheques dos contribuintes se o público soubesse que a maior rede de abortos lucra, de fato, através da realização de abortos – 328.348 abortos por ano, de acordo com seu último relatório anual. 
Leia mais: O sofrimento silencioso dos pais depois do aborto
Talvez, como apontam outras pessoas, a nova estratégia de Wen seja a sua forma de atrair a nova maioria da Casa. Afinal, a presidente da Câmara, Nancy Pelosi (dos democratas da Califórnia), já prometeu que a sua pauta seria “pró-escolha”. A honestidade de Wen pode ser, porém, um tiro no pé diante dos eleitores. Mais da metade deles (55%) não sabem que a Planned Parenthood faz abortos – imagine só se souberem que é a maior rede de abortos do país. 
Leia mais: Em estratégia desesperada, defensores do aborto partem para o vale-tudo
A mídia gosta de falar sobre o apoio que a Planned Parenthood tem junto às bases. Mas, como diz o instituto de estatísticas Gallup, “não está claro se os norte-americanos têm uma opinião favorável à Planned Parenthood por causa do seu papel no debate sobre o aborto ou apesar dele”.
No fim, a confissão de Wen pode ter sido um favor para o lado pró-vida. Quanto mais pessoas souberem em que tipo de negócio a Planned Parenthood está metida, melhor. 

Tony Perkins é presidente do Family Research Council 

Tradução: Felipe Sérgio Koller.”

Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/com-nova-presidente-a-planned-parenthood-finalmente-admite-que-seu-foco-e-o-aborto-0vepro2abhxgh5dtfifw21zlk/appCopyright © 2019, Gazeta do Povo. Todos os direitos reservados.

O que os jornalistas não sabem sobre ideologia de gênero

Afinal, a ideologia de gênero existe mesmo ou não passa de “uma invenção da Igreja Católica”? Será que o mundo em que vivem nossos jornalistas é o mesmo em que nós vivemos?

Equipe Christo Nihil Praeponere10 de Janeiro de 2019

“O jornalismo é popular, mas é popular principalmente como ficção. A vida é um mundo, e a vida vista nos jornais é outro”. Dizem que foi Chesterton o autor dessa observação genial sobre a veracidade dos periódicos, tablóides, revistas e diários que compõem a chamada grande mídia. De fato, o abismo entre o universo jornalístico e a vida cotidiana é uma coisa que parece se agravar ano após ano, sobretudo para a imprensa tradicional. Acostumados aos velhos jargões e ao ritmo frenético da modernidade — o que dificulta o estudo e a meditação séria sobre temas delicados —, muitos jornalistas acabam reféns da própria indigência e, de quebra, não conseguem fazer a mínima avaliação da realidade sem o auxílio de algum intelectual chique ou de cacoetes obsoletos.

Outro dia um jornalista dizia para seus ouvintes na rádio que a “ideologia de gênero” era — atenção — “uma invenção da Igreja Católica”. Como se os padres e leigos que lotaram as câmaras municipais há alguns anos, exigindo a retirada das questões de gênero dos planos de educação, não tivessem mais nada que fazer do que inventar “moinhos de vento” para combater a ferro e fogo.

“Qualquer pedaço de pau serve para bater na Igreja Católica.”

Declarações como essas, no entanto, aparecem aos montes nos jornais, e mesmo profissionais bem intencionados acabam cedendo à tentação neriana de colocar a culpa sempre nos cristãos. A regra é clara: se os casos de AIDS aumentam no país, a culpa é da Igreja e da sua doutrina medieval contra o sexo antes do casamento; se algum maluco abusa de uma moça no ônibus, a culpa é da Igreja machista que não aceita a ordenação de mulheres; se a economia está mal, é por causa do voto de pobreza dos santos católicos. Os exemplos variam e a história se repete: sim, senhores, “qualquer pedaço de pau serve para bater na Igreja Católica”.

Nada é mais ideológico do que isso. Trocando em miúdos, ideologia é uma forma de argumentação retórica para sustentação de uma tese obtida de antemão, ou seja, sem os devidos métodos filosóficos e empíricos de encontro da verdade. O ideólogo já está convencido da sua teoria, e vai usar qualquer estratagema para defendê-la, apesar da realidade e a natureza das coisas. Desse modo, ele não precisa ler, estudar ou ouvir os argumentos adversários. Para vencer o debate, basta-lhe acusar os oponentes de alguma coisa infamante, com base em algum preconceito generalizado, e pronto.

Esse tipo de atitude é prontamente repetida nas redações de quase todos os jornais da grande mídia. Afinal de contas, por que um jornalista perderia tempo com algum livro ou trabalho científico se pode simplesmente explicar uma situação pelo esquema ideológico do chefe? No caso da polêmica sobre o gênero, imaginem quantos desses profissionais leram, alguma vez, os textos da Conferência do Cairo, os livros de Judith Butler e Shulamith Firestone, ou estiveram em alguma sala de aula para observar in loco o tipo de “educação” sexual que as escolas oferecem aos seus alunos. Não se trata aqui de juízo temerário, mas de mera análise lógica dos fatos. Para um repórter negar a realidade gritante da “ideologia de gênero” na educação, ou ele nunca leu nem presenciou nada do tipo, ou sofre de grave dislexia e não consegue entender o que se passa debaixo do próprio nariz. E vejam que nem aventamos a hipótese de sordidez pura e simples, o que não é impossível.

A Igreja Católica considera ideológicas as discussões de “gênero e direitos reprodutivos” porque elas se baseiam justamente naquele tipo de proposição falsa que se sustenta por argumentos pseudocientíficos. Para negar a realidade biológica e a identidade sexual humana, os ideólogos do gênero afirmam que a expressão da identidade sexual humana é, antes de tudo, uma construção social. Nesse sentido, haveria a sexualidade física (pênis e vagina), a atração sexual (hetero, homo ou bissexual) e, finalmente, a identidade de gênero, que seria a forma como a pessoa se constrói socialmente e vive a sua sexualidade no cotidiano. Do ponto de vista do gênero, portanto, todo ser humano nasceria neutro e só descobriria a própria identidade mais tarde, após algumas experiências sexuais e sociais. De acordo com Judith Butler, a mais badalada ideóloga do gênero, “a família é também uma formação histórica: sua estrutura e seu significado mudam ao longo do tempo e do espaço”.

A teoria de gênero defende, grosso modo, a inexistência de uma substância humana que esteja presente em todos os homens e mulheres. Tudo estaria resumido às performances e às aparências. Para que um homem seja mulher, ele só precisa de algumas cirurgias remodeladoras e de diminuir o seu nível de testosterona. Não importa se a pessoa tem uma constituição feminina ou masculina, pois tudo depende apenas da vontade do indivíduo, que deve ser livre para se construir conforme o próprio gosto. De resto, os velhos papéis institucionais de pai, mãe e filho devem, aos poucos, sumir do horizonte social para dar espaço a uma nova forma de família plural e diversificada. Esse é o objetivo da teoria de gênero, segundo as palavras da própria Butler. Trata-se de “gerar mais liberdade e aceitação para a gama ampla de identificações de gênero e desejos que constitui nossa complexidade como seres humanos”.

Para a ideologia de gênero, tudo depende apenas da vontade do indivíduo, que deve ser livre para se construir conforme o próprio gosto.

Verba volant, scripta manent, diz um antigo provérbio latino. Popularizadas pela academia, as palavras de Butler e de outros teóricos de gênero “voaram” para bem longe de seus escritos e foram fazer estrago na realidade. O primeiro grande experimento de gênero de que se tem notícia é a trágica história da família Reimer, contada aqui no site inúmeras vezes. Para provar sua “teoria”, o doutor Money não pensou duas vezes antes de submeter o pequeno David Reimer a uma cirurgia, de modo que pudesse tratá-lo então de Brenda. O menino deveria ser educado como menina para se adaptar ao novo gênero. Resultado: o rapaz cresceu deprimido e acabou se suicidando. Mas esse, infelizmente, não seria o último destino fatal da ideologia de gênero. Os números de suicídio provocados, entre outras coisas, pela confusão mental decorrente das questões de gênero só aumentam, assim como o número de pessoas que se expõem a cirurgias arriscadas de mudança de sexo.

A confusão chegou até aos esportes também. Segundo as leis atuais do Comitê Olímpico Internacionalum homem pode concorrer contra mulheres desde que se declare do gênero feminino e, dentro de um ano, estabilize sua produção de testosterona a um nível aceitável. Ele nem precisa amputar o membro viril. Desse modo, marmanjos de 1,90m de altura estão jogando no vôlei feminino e dando porrada em mulheres do MMA.

Fotografia da exposição “You Are You”, tirada em um acampamento de verão para crianças “gender-nonconforming”. (Sim, é um menino.)

Para assegurar o bem-estar das crianças, a Associação Americana de Pediatras emitiu uma declaração gravíssima contra a presença desse tipo de teoria dentro das escolas. Segundo a organização, “condicionar crianças a acreditar que uma vida inteira de personificação química e cirúrgica do sexo oposto é normal e saudável, é abuso infantil”. A declaração adverte contra os bloqueadores de hormônios da puberdade, que têm se tornado um fenômeno entre muitos jovens, depois do advento das propagandas de gênero. Causou escândalo recentemente uma campanha da cantora Celine Dion em que a artista aparece colocando roupas “neutras” em bebês de uma maternidade. É justamente contra esse tipo de abuso que a Associação Americana de Pediatras e outras organizações mundo afora se levantaram, sobretudo agora que os casos de crianças com “disforia de gênero” estão crescendo vertiginosamente.

No Brasil, o Ministério da Educação trabalhou insistentemente nos últimos anos para incluir esse tipo de abordagem dentro do ensino escolar. No livro do MEC Sociologia em movimento, por exemplo, os alunos aprendem que “o peso cultural da família patriarcal e da Igreja em nossa sociedade continua a ser uma forte influência para a marginalização dos grupos LGBT. Isso leva à violência homofóbica e transfóbica, assim como à violência doméstica contra mulheres”. Também o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE) cobra dos universitários que se comprometam com a inclusão das temáticas de gênero nas escolas. Se os pais não tivessem se posicionado em tempo oportuno contra toda essa loucura, as escolas do Brasil hoje seriam como as da Suéciaonde meninos e meninas se vestem de cor laranja e não podem ser tratados por ele ou por ela.

Mas certamente essas coisas não existem, diria o jornalista chapa-branca, e a nota da Associação Americana de Pediatras deve ter sido escrita por algum monge albino do Opus Dei, infiltrado na instituição para promover o caos. Essa insistência dos jornais em fechar os olhos para a realidade, negando-se a retratar na íntegra os fatos como eles são, tem lhes custado um alto preço. Depois do advento da internet, as pessoas não estão mais reféns da “espiral do silêncio” imposta pela grande imprensa, e agora elas recorrem a outros canais alternativos de informação, que prestam um excelente trabalho. Enquanto isso, os jornais tradicionais agonizam e lutam para manter viva uma ideologia antiquada e pedante. E eles juram que a culpa é da Igreja Católica.

Fonte: https://www.padrepauloricardo.org/

Antes de Lutero, onde estava a Igreja de Cristo?

Se a Igreja Católica foi em algum tempo a verdadeira Igreja, então ela nunca cessou, nunca cessará de o ser, até o fim dos tempos. Do contrário, Jesus Cristo nos enganou.

Da infalibilidade da Igreja deriva um corolário fatal a todas as heresias. Qualquer grupo de almas batizadas que se separa da comunhão dos fiéis e rompe com os ensinamentos e tradições antigas já está condenado pela sua própria novidade.

A Igreja de Cristo é una como a verdade. O Espírito Santo nela habita com a sua assistência continuada todos os dias, até a consumação dos tempos. Impossível assinalar uma época na história em que a Esposa do Verbo se tenha desviado da senda real da ortodoxia. As promessas divinas falhariam, Cristo deixaria de ser Deus e a religião por ele instituída afundaria para sempre no pego imenso das superstições humanas.

Se a Igreja caiu no erro, as portas do inferno prevaleceram contra ela e Cristo não manteve a sua promessa.

Após 15 séculos de cristianismo levante-se um monge no coração da Alemanha e lança ao mundo o pregão de uma reforma. Simples regeneração dos costumes?

Não, reforma doutrinal.

O que então se chamava doutrina cristã admitida pela Igreja universal era uma adulteração profunda do Evangelho, um acervo de superstições e idolatrias, patrocinadas pelo anticristo de Roma. A Igreja se havia apartado da verdadeira fé: era mister reconduzi-la às fontes genuínas do Evangelho.

Cristo errara a mão. Fundara uma sociedade fadada a destinos imortais. Plantara-a no mundo como cidade visível para acolher os eleitos. Mas apenas saída das suas mãos divinas, apenas o mundo pagão, com a paz de Constantino, viera buscar à sombra da cruz a verdade e a vida, a Igreja desfalece, corrompe-se, paganiza-se. Onze séculos de ignorância, de trevas e de superstições ensombraram a obra do Salvador.

“A entrega das chaves a S. Pedro”, de Pietro Perugino.

Foi mister que um frade apóstata, sensual e orgulhoso apontasse no horizonte religioso da humanidade para reconduzi-la aos mananciais cristalinos do Evangelho, e, mais feliz, mais próvido, mais sábio, mais poderoso que o Cristo, fundasse uma nova Igreja de vitalidade menos efêmera, Igreja imorredoura e incorruptível, destinada a acolher sob as suas tendas as gerações do porvir. Eis a significação real do protestantismo. Eis outrossim a sua condenação, a seta fatal que se lhe embebeu no peito e há de arrastá-lo à morte inevitável.

Se Cristo é Deus, se Cristo fundou uma Igreja, essa é indefectível e imortal como as obras divinas. Mas se a Igreja caiu no erro, as portas do inferno prevaleceram contra ela e Cristo não manteve a sua promessa. Cristo enganou-nos, Cristo não é Deus, e o cristianismo é uma grande impostura. É tão forte a consequência que muitos protestantes por este motivo abjuraram o cristianismo. É o exemplo de Staudlin, que dizia:

Se na religião partimos de um princípio sobrenatural (como uma revelação, a Bíblia, por exemplo ou o Corão), cumpre necessariamente admitir que a Divindade, comunicando uma revelação ao homem, deve prover outrossim o modo de impedir que o sentido desta revelação seja abandonado às arbitrariedades do juízo subjetivo. Esta inconsequência de Jesus Cristo não me permite considerá-lo senão como um sábio benfeitor. [1]

Ochin, outro protestante, que no dizer de Calvino, era mais sábio ele só que a Itália inteira, chegava pelo mesmo caminho à mesma conclusão. “Considerando, de um lado, como poderia a Igreja haver sido fundada por Jesus Cristo e regada com o seu sangue, e, do outro, como poderia ela ser fundamentalmente adulterada pelo catolicismo, como estamos vendo, conclui que aquele que a estabeleceu não podia ser o Filho de Deus; faltou-lhe evidentemente a Providência” [2]. E Ochin, renunciando ao protestantismo, fez-se judeu.

Se a Igreja Católica foi em algum tempo a verdadeira Igreja, então ela nunca cessou, nunca cessará de o ser, até o fim dos tempos. Do contrário, Jesus Cristo nos enganou.

Nada, com efeito, mais diametralmente oposto aos ensinamentos e promessas do Evangelho do que a ideia de uma Igreja que pode desgarrar da sua primeira instituição, pregar o erro e a corrupção. O Espírito de Verdade habitará nela para todo o sempre: prometeu-o formalmente Cristo. Formalmente mandou-nos o Senhor que obedecêssemos à Igreja em todos os tempos e em todos os lugares. Não nos disse: Escutai a Igreja durante 300 ou 1.000 anos, mas ouvi-a sempre, sem nenhum limite de tempo, sem nenhuma reserva, sem nenhuma restrição. “Quem não ouve a Igreja, seja considerado como pagão ou pecador” (Mt 18, 17).

Ora, evidentemente, antes de Lutero existia uma Igreja, a Igreja católica, que por uma sucessão ininterrupta de pastores ascendia aos apóstolos, e, por meio dos apóstolos, ao próprio Cristo. Esta era a Igreja instituída pelo Salvador, esta a Igreja de que falam as promessas evangélicas. Fora dela, a história não conhece outra.

Jesus Cristo não nos disse: Escutai a Igreja durante 300 ou 1000 anos, mas ouvi-a sempre, sem nenhum limite de tempo, sem nenhuma reserva.

Quando nasceram as igrejas luteranas, calvinistas e anglicanas, já a Igreja católica tinha uma existência quinze vezes secular. Desde Jesus Cristo só há uma Igreja, a grande Igreja, como a chamavam os pagãos, a Igreja, simplesmente, sem epítetos derivados de nomes humanos, como a chamamos nós. Diante deste fato, afirmai agora que essa Igreja entrou a corromper-se no 4.º século e de todo adulterou a doutrina evangélica nas “trevas caliginosas da Idade Média” e tereis anulado as promessas de sua Providência, atributo distintivo da Divindade. Staudlin e Ochin são lógicos. Entre o catolicismo e o naturalismo deísta não há racionalmente meio termo. Se a Igreja católica foi em algum tempo a verdadeira Igreja, nunca cessou, nunca cessará de o ser, até o fim dos tempos [3]. Se não, Jesus Cristo enganou-nos. Seitas cristãs acatólicas são superfetação parasitária destinada a uma existência efêmera.

Por uma feliz incoerência, porém, muitos protestantes não resvalaram até ao fundo do abismo. Parando à meia encosta, esforçam-se por conservar alguns restos de cristianismo. Mas nem estes deixaram de sentir o fio cortante do argumento: onde estava a Igreja antes de Lutero?

Pergunta capciosa? Não, pergunta molesta, pergunta irrespondível, pergunta que vale por si uma apologia inteira, pergunta inexoravelmente fatal ao protestantismo.

Referências

  1. Magazin de l’histoire de la religion, 3e. partie, p. 83.
  2. Citado na obra Dialogues sur le protestantisme, p. 55.
  3. Bem dizia aquele filósofo: Se o Messias já veio, devemos ser católicos; se não veio, judeus; em nenhuma hipótese, protestantes.

Notas

Fonte: https://www.padrepauloricardo.org/

Testemunho de Neal McDonough

Ator recusou cenas de sexo em respeito à esposa, foi demitido e perdeu 1 milhão

Neal McDonough

Redação da Aleteia | Jan 09, 2019

“Não conseguia emprego: me achavam fanático. Mas coloquei Deus e a família em primeiro lugar e a mim em segundo. É assim que eu vivo”

Neal McDonough, ator que participou de conhecidas produções do cinema e da televisão como “Capitão América”, “Minority Report” e “Desperate Housewives”, é casado há 15 anos com a modelo Ruvé Robertson, com quem tem 5 filhos.

Em entrevista recente, ele relatou ao site Closer Weekly que foi demitidoem 2010 porque, em respeito à esposa e por convicções religiosas, se negou a fazer cenas de sexo com a atriz Virginia Madsen durante as gravações da série “Scoundrels“, produzida pelo canal ABC.

“Não vou beijar outra mulher, porque esses lábios já são comprometidos”.

McDonough foi substituído três dias após o início das filmagens e, conforme estimativas do site Deadline.com, perdeu cerca de 1 milhão de dólares por causa da decisão. A demissão o surpreendeu:

“Eu não conseguia mais emprego porque todo o mundo achava que eu era um fanático religioso”.

Mas as perdas momentâneas não o afetaram e, no fim das contas, foram amplamente superadas:

“Eu coloquei Deus e a família em primeiro lugar e a mim mesmo em segundo. É assim que eu vivo. É por isso que vou à igreja todos os dias e agradeço a Deus por tudo o que Ele me deu. E agradeço principalmente por ter me dado a Ruvé, porque, sem ela, com certeza eu não estaria contando essa história. Depois de quase 20 anos, 5 filhos e uma vida maravilhosa, nós somos parceiros para tudo e eu sou o cara mais abençoado do mundo”.

É interessante observar que esse tipo de testemunho não costuma aparecer com destaque nos grandes portais de notícias, muito embora sejam diárias, na página inicial da maioria deles, as “notícias” sobre o mundo das celebridades.

Meus sentimentos, minhas regras

Meus sentimentos, minhas regras
 por Francisco Razzo  [ 09/01/2019 ] [ 1:00 ] Atualizado em [ 09/01/2019 ] [ 13:07 ]
 Não me lembro direito em qual programa de rádio foi, mas esses dias ouvi um rapaz dizendo que a discussão sobre teoria de gênero não pode ter respaldo na biologia. Segundo ele, “a biologia estaria atrelada à moral cristã opressora” e por isso não pode servir de base para determinar a identidade de alguém. Homem e mulher não são o que são por causa de aspectos biológicos. O que determina cada um de nós são as nossas inclinações psíquicas.Na minha não tão humilde opinião, a sempre polêmica teoria da identidade de gênero tem um furo gigantesco: depende de uma concepção dualista da “natureza humana”, que é falsa. Dualista por reduzir o ser humano a duas realidades independentes e até conflitantes: o corpo biológico e a consciência subjetiva. E, por favor, isso não tem nada a ver com o filósofo René Descartes, que também tinha uma visão dualista do ser humano. Para Descartes, a alma humana é imortal e capaz de conhecer Deus como seu criador. Descartes, devoto de Nossa Senhora, não enclausurou o homem num psiquismo medíocre.
No caso da teoria da identidade de gênero, há uma confusão tanto no significado do corpo quanto no da vida psíquica. Reduzem os dois: o corpo é reduzido como objeto de estudo para o biólogo; a vida psíquica é vista como nada além da expressão do que sentimos internamente. Fora o maniqueísmo por baixo da causa: o corpo é mau; o sentimento de si, bom.Por exemplo. Uma menina, anatomicamente constatada menina, chega para os pais e diz: “me sinto menino”. Os pais, confiantes na pureza do desejo de seu única e linda filha, acatam a percepção interna que só a criança pode ter de si mesma e a bajulam com todos os mimos possíveis. Nada contra. Sou pai e por isso sei bem o quanto um pai zeloso tomaria a atitude de consultar um bom psicólogo antes de chamar a filha de filho. Na dúvida, recorrer a um especialista para ajudar nossos pequenos é a melhor atitude. Meu filho Davi, por exemplo, diz ser o Hulk. Não me oponho. Na infância eu gostava de me vestir como o Super-Homem, com cueca vermelha e tudo — mas vamos deixar isso pra lá.De qualquer forma, quem melhor do que a própria criança para compreender e fazer coincidir, por meio do charme e da doçura, sua percepção psicológica interna com sua natureza corporal externa? Psicólogos estão aí justamente para ajudar na batalha interior travada por cada um de nós. E fazem isso sem assumir responsabilidades pelas derrotas ou créditos pelas vitórias, pois o mérito em aceitar que “ter experiência psicológica interna do jeito que me satisfaz” como algo “normal” a ser “absolutamente compreensível pela sociedade” é apenas dos jovens. Não sei o que é olhar para o meu corpo e ver outra coisa senão a mim mesmo, portanto não tenho competência para falar dos dramas alheios.A experiência psicológica interna de se “sentir” alguma coisa diferente do que se é em carne e osso está baseada numa ideia de que o sentimento interno é infalível, pois fundamenta-se na pureza moral dos bons sentimentos. O corpo, determinado pela biologia, seria mais um obstáculo opressor que precisa ser subjugado pelas regras da experiência interior. A teoria da identidade de gênero paradoxalmente nega a identidade antropológica da relação “mente-corpo”. Ao negar, portanto, rejeita o corpo como realidade irrelevante para construção da própria experiência da identidade pessoal. Não sou meu corpo, sou o que sinto a respeito de mim mesmo. Meus sentimentos, minhas regras.A propósito, falando de dramas pessoais, eu recomendaria o leitor procurar uma página no Facebook chamada Special Books by Special Kids Group. Conta com um pouco mais de 2 milhões de seguidores. Na verdade, o SBSK, como são conhecidos, é uma organização criada pelo professor Christopher Ulmer, da Filadélfia, que faz vídeos com crianças de todos os lugares do mundo e com um objetivo nobre. Curiosamente, as crianças são portadoras de alguma necessidade especial severa que provoca grandes deformação no corpo. Os relatos dessas crianças têm o objetivo de garantir que nenhuma seja estigmatizada pelo que… são, enquanto encarnadas num corpo. A missão de Christopher é demostrar a preciosa relação entre corpo e identidade pessoal. Porque é disso que se trata: somos, literalmente, encarnados. Não faz sentido falar de identidade pessoal sem considerar o corpo.Uma concepção mais correta e abrangente de ser humano não faz a distinção entre corpo e mente como duas realidades antagônicas. Pelo contrário, de um ponto de vista da antropologia filosófica mais robusta, que eu pessoalmente prezo muito por seu apelo à singularidade pessoal, o corpo pode ser entendido de três maneiras: material, orgânico e intencional. Cada um de nós, na verdade, encarna essas três concepções sem excluí-las ou reduzir nosso “corpo próprio” a cada uma delas. Dessa forma, podemos pensar o ser humano a partir de uma visão universal, e isso para ficar apenas no componente “corporal” — sem considerar a vida psíquica e as capacidades intelectuais.Em alemão, há duas palavras para “corpo”: Körper e Leib, que os filósofos chamam de “corpo objeto” e “corpo sujeito”.O termo Körper se refere à estrutura, à construção ou ao suporte esquemático; enquanto Leib é a carne, o corpo vivido do interior por alguém. Körper é o “corpo objeto”, o corpo que eu tenho e cujo funcionamento depende de leis que não tenho controle. Trata-se do corpo que o biólogo estuda, por exemplo. O aspecto material corresponde à totalidade físico-química e do corpo e o orgânico à totalidade biológica. É um erro achar que somos só expressão desse corpo biológico. Já Leib, por sua vez, tem a ver com o caráter intencional da nossa experiência pessoal. Leib é o “corpo sujeito”, o corpo que eu sou e que você é e mediante o qual eu vivo minha vida e você a sua. Os filósofos chamam a essa dimensão intencional de corpo próprio. Para você que está vivo e lendo este artigo, ser e ter um corpo é vivê-lo da maneira intencional antes de vivê-lo como matéria física e orgânica.Eu fico impressionado como o debate público sobre teoria de gênero desconsidera essas dificuldades enquanto perde tempo discutindo se menino veste azul e menina veste rosa. Um tratamento mais adequado não só acerca da experiência de sofrimento psicológico, mas também sobre a própria noção de corpo ajudaria muito o debate, hoje reduzido em meras expressões de “corpo” como entidade biológica e “alma” como mera expressão de sentimentalismo tóxico.”Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/francisco-razzo/minha-sentimentos-minhas-regras/?webview=1

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“Mulher” trans no Miss Universo expõe as contradições do feminismo progressista

A adoção incondicional da ideologia transgênero permite que os machos biológicos usem o manto da feminilidade simplesmente afirmando que é seu direito inato. Nunca houve uma reivindicação mais patriarcal

Alexandra Desanctis National Review  [18/12/2018] [12h00] 

A mulher transgênero Angela Ponce, da Espanha, concorre durante o concurso Miss Universo 2018, em Bangcoc, Tailândia, em 16 de dezembro de 2018. LILLIAN SUWANRUMPHA/AFPNo famoso conto de Hans Christian Andersen, o imperador não tinha roupas. Hoje em dia, se o imperador coloca a roupa certa, ele pode se chamar de imperatriz. E todos nós temos que aplaudir. 

O concurso Miss Universo deste domingo apresentou, pela primeira vez na história de 66 anos do evento, uma mulher transgênero. Concorrendo como Miss Espanha, Angela Ponce entrou no concurso com muito aplauso, escrevendo em um post no Instagram: “Hoje estou aqui, orgulhosamente representando minha nação, todas as mulheres e os direitos humanos”.

Ponce não venceu, mas foi saudada pela mídia apenas por competir. “A Miss Filipinas, Catriona Gray, levou para casa a coroa no concurso de Miss Universo de 2018 na noite de domingo em Bangcoc, Tailândia, mas ela não foi a única vencedora da noite”, declarou o site da ABC News na manhã de segunda-feira. “A espanhola Angela Ponce se tornou a primeira transgênero da competição, um passo importante para o desfile de 66 anos.”

 “A espanhola Angela Ponce fez história como a primeira mulher transgênero a competir na Miss Universo”, afirmou o Yahoo News. A reportagem da NBC News sobre a competição nem sequer mencionou a vencedora até o quarto parágrafo do artigo, concentrando-se em celebrar como Ponce “quebrou barreiras”. 
Leia mais: O que é “ideologia de gênero”?
Toda essa fanfarra levanta a inevitável questão: Poderia Ponce realmente “representar todas as mulheres” sem ser uma mulher? Em nosso momento não científico, apenas ter a audácia de fazer essa pergunta é o suficiente para ser criticado em certos setores.

 Pense por um momento na realidade da biologia de Ponce — uma realidade que, não importa a quantidade de cirurgia plástica que Ponce consiga e independentemente de que Ponce realmente se pareça com uma mulher, não pode ser alterada. A tecnologia pode disfarçar essa verdade, mas nenhuma quantidade de remédio ou mutilação pode persuadir os cromossomos de Ponce à submissão.

 Leia mais: Presidenta e alunxs? O desafio da ideologia de gênero na sala de aula
Mas considere outra questão também, e talvez mais importante: Ponce pode viver como uma mulher transgênero sem nos forçar a entrar juntos nessa barca furada? O concurso Miss Universo, a mídia progressista e, cada vez mais, a ala esquerda da política americana, parecem acreditar que isso não é possível. 

Ponce disse à revista Time em novembro que ganhar o concurso seria simbólico: “As mulheres trans foram perseguidas e apagadas por tanto tempo. Se me derem a coroa, isso mostraria que as mulheres trans são tão mulheres quanto as mulheres cis ”. 
Essa é a farsa que estão nos forçando a aceitar. Não é suficiente dizer, como deveríamos, que a disforia de gênero é um fenômeno psicológico real, que uma sociedade justa e compassiva deve reconhecer a realidade da luta que pessoas como Ponce enfrentam, e que o bullying e o ódio dirigidos a tais pessoas são maus e errados. 

Leia mais: As consequências, no mundo real, de se submeter à ideologia de gênero
Nós também estamos destinados a cantar junto com a multidão que Ponce é uma mulher. Qualquer coisa menos que isso é transfobia. Decência e caridade já não são suficientes; afirmação e glorificação — idealmente diante de uma audiência tão grande quanto possível — são o único caminho aceitável. 

E o que essa nova fronteira do progressismo significa? O dogma inatacável de que as mulheres são constantemente oprimidas e subjugadas pelo patriarcado — que só podemos ser livres se reconhecermos e enfraquecermos a tirania do privilégio masculino branco que impede as mulheres de se expressarem e tomarem o controle de nossas vidas — exige que haja tal coisa como feminilidade, e que pode ser definida de forma consistente. 

A aparência muito elogiada de Ponce no concurso Miss Universo, por outro lado, implica a aceitação social da ideia de que os homens podem, de fato, ser mulheres. 
Leia mais: Ele mudou de gênero e se arrependeu. E conta as consequências
Essas duas doutrinas do progressismo brigam entre si. Mesmo se aceitarmos a noção de que alguns machos biológicos podem se sentir tão femininos que são essencialmente, de alguma forma intangível, mulheres, tal visão necessariamente entra em conflito com a afirmação feminista de que há algo único em ser mulher — e que a feminilidade merece ser protegida da invasão do poder masculino. 
A adoção incondicional da ideologia transgênero necessariamente, e intencionalmente, apaga a feminilidade. Ele permite que os machos biológicos usem o manto da feminilidade simplesmente afirmando que é seu direito inato. Nunca houve uma reivindicação mais patriarcal.

À medida que o partido democrata se aproxima da política de identidade, um choque dessas duas identidades se vislumbra no horizonte. Em um movimento “intersecional”, onde grupos minoritários recebem mais dinheiro por terem experimentado mais opressão, as mulheres que lutam contra o patriarcado poderiam facilmente ser excluídas por mulheres transexuais que insistem que seu status de minoria e experiência com estigma lhes dão o trunfo da vitimização. 
Talvez a extrema esquerda acredite que, se seus membros forçarem os céticos a concordar com a pompa de Ponce, eles podem evitar as cismas inerentes a um movimento que afirma valorizar o feminismo, enquanto insiste que ser mulher não tem nenhum significado.

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